Alexandra Lucas Coelho


CADERNO AFEGO

Um Dirio de Viagem,
COORDENADOR DA COLECO CARLOS VAZ MARQUES
LISBOA:
TINTA-DA-CHINA
MMIX

Digitalizado e corrigido pelo Servio de Leitura Especial da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo - leituraespecial@cm-viana-castelo.pt


(c) 2009, Alexandra Lucas Coelho
Edies tinta-da-china, Lda.
Rua Joo de Freitas Branco, 35A,
1500-627 Lisboa
Tels: 21 726 90 28/9 I Fax: 21 726 90 30
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Ttulo: Caderno Afego. Um Dirio de Viagem Autora: Alexandra Lucas Coelho Coordenador da coleco: Carlos Vaz Marques Reviso: Tinta-da-china Composio e capa:
Vera Tavares
1 edio: Setembro de 2009
ISBN 978-989-671-007-1 Depsito Legal n. 298549/09

                        Prefcio

        Eu NUNCA FUI A Cabul. Nem a Jalalabad, nem a Kandahar, nem a Mazar-i-Sharif.
        Conheo estes nomes das notcias e que me lembre nunca os terei ouvido por boas razes.
        Provavelmente, no h hoje boas razes para se falar de Jalalabad, de Kandahar ou de Mazar-i-Sharif, belos nomes de uma sonoridade que toda ela  j distncia.
        Ouvimo-los quase diariamente associados a mortos e feridos. A combates e atentados. A senhores da guerra, senhores do pio, senhores feudais.
        Jalalabad, Kandahar, Mazar-i-Sharif, tal como Herat, Bamiyan e mesmo Cabul, no podem ser apenas aquilo que ns, os que nunca as visitmos, somos capazes
de imaginar a respeito delas.
        Conseguimos imaginar a noite demasiado escura de Jalalabad.
        Conseguimos imaginar homens de barba e mulheres de burqa.
        Conseguimos at imaginar o cheiro a lixo s portas de Herat, onde "cheira to mal como se tudo estivesse podre".
        J no seremos capazes de imaginar uma famlia como a de Shaharzad, "uma casa to pobre que estrela ovos numa bilha de gs, mas to rica que l os filsofos
sufis e Wittgenstein".
        Como no imaginamos, no pas das burqas e da sharia, uma equipa feminina de boxe treinada por um jovem afego regressado da Amrica.
        Nem imaginamos, entre o cheiro a lixo, o perfume a rosas.
        "No meio do trnsito mais txico h rotundas com rosas lindas em Cabul." Parece um verso sado da msica suave de Camilo Pessanha: "Floriram por engano as
rosas bravas / No inverno."

        S vendo se acredita.
         preciso ir l.  preciso que nos levem l
        E  preciso coragem: para ver as crianas de espinha bfida no hospital de Kandahar; para andar  boleia em aviezinhos que quase permitem tocar com os dedos
o cume das montanhas; para ouvir dizer na lngua dos pashtun que aquilo que mais lhes falta  amniat - sabendo que amniat significa segurana - e ainda assim continuar,
querer conhecer gente, tomar notas, correr riscos, ver, ouvir, dar a ler.
        Este livro  um acto de coragem.
         um acto de optimismo, tambm.
        Paul Theroux explica na introduo a O Velho Expresso da Patagnia que "os viajantes so essencialmente optimistas, ou ento nunca iriam a lado nenhum".
         esse optimismo que permite a Alexandra Lucas Coelho afastar quaisquer receios com uma espcie de fatalismo paradoxalmente empreendedor: "no h nada a
fazer". Mesmo quando por instantes se lhe infiltra na mente a dvida acerca do desconhecido que a certa altura a transporta, sabe-se l para onde, numa terra onde
"um estrangeiro  um acepipe".
        "No h nada a fazer." E a viagem continua.

        Vamos com ela aos jardins de Babur. Descobrimos com ela - num pas masculino, onde at na morgue h frigorficos distintos para os cadveres de homens e
mulheres - a herana da extraordinria rainha Gowar Shad. Mergulhamos o olhar no azul intenso de Band-e-Amir, um milagre atribudo a Ali, primo e genro do Profeta,
que continua a proporcionar a quem o visita os bens mais escassos num pas em guerra: tranquilidade e alegria.
Aquilo que aqui, a ocidente, a milhares de quilmetros de distncia,  apenas um borro sem nome, uma massa de ideias vagas e de lugares-comuns, geopoltica e geoestratgia,
toma a forma de gente concreta, ganha contornos, espessura, rosto.
O facto de Alexandra Lucas Coelho escrever to bem faz o resto.  o meio de transporte em que viajamos por um lugar aonde,  quase certo, nunca iramos de outro
modo.
                                                        Carlos Vaz Marques

Para o Changuito

As FOTOGRAFIAS DESTA VIAGEM ESTO EM:
www.cadernoafegao.tintadachina.pt

NDICE

13 Dubai - Cabul
81  Cabul -Herat
103  Herat - Cabul
151  Cabul - Jalalabad
173 Jalalabad - Cabul
181 Cabul - Kandahar
231  Kandahar - Cabul
277 Cabul - Mazar-i-Sharif
289 Mazar-i-Sharif - Bagram - Cabul
293  Cabul - Bamiyan
307  Bamiyan - Band-e-Amir - Bamiyan
319  Bamiyan - Cabul
329 Agradecimentos
331 Bibliografia
333  Nota biogrfica


                                        DUBAI-CABUL

                                 31 de Maio de 2008

TERMINAL 2 do aeroporto do Dubai, 6h3O. Embarque para Cabul s 7h na Kam Air.
        Esqueci em Lisboa o leno que ia pr quando sasse do avio. Compro o mais discreto que encontro (polister preto com lantejoulas made in ndia) enquanto
embarcam afegos para o voo anterior ao meu. Homens de shalwar kamiz* com turbante ou taqiyah**. Uma mulher numa cadeira de rodas, coberta da cabea aos ps como
um saco preto.
        Todas as empregadas do free shop so chinesas. As da casa de banho tambm. No hotel, um indiano de Kerala e um negro do Benim. No txi, um paquistans de
Lahore.
        Navida, a minha vizinha de voo, tem 25 anos, estuda Psicologia em Los Angeles e vai casar com um afego que estuda Medicina na Turquia. Saiu de Cabul em
2000 e est a voltar pela primeira vez. Vem com a me e as duas irms. Tm pele clara e cabelos escuros, compridos e lustrosos. So lindas. A meio do voo vo  casa
de banho pr lenos na cabea e tnicas por cima dos jeans.
O resto do voo  uma mistura de homens de meia-idade com contratos e homens musculados com tatuagens. A tripulao  toda chinesa.
        O avio voa baixo. Montanhas cor-de-terra com picos brancos. Um grande deserto. Nem homens, nem casas, nem verde. Depois, mais montanhas abruptas e o avio
desce para Cabul.
        Avies. Helicpteros. Aparato militar. Filas ordenadas para o passaporte. Anncios dos novos hotis de Cabul e da rede mvel Roshan com mulheres de cabea
descoberta. Pilhas de bagagens despejadas no cho e cada um procura a sua.  o grande caos at que aparece Joaquim Fernandes, oficial da Fora Area em comisso
de servio civil na ISAF***, magro, anguloso, pernas finas, bceps.
        Como vive no aeroporto ficara de ir ter comigo  chegada, e agora faz-me um tour Kaia (Kabul International Airport).
        A zona onde os passageiros no entram  uma base militar. Contentores e contentores com milhares de soldados e contratados. Cada contentor  uma grande caixa.
Entra-se e h um corredor com portas de um lado e do outro, pares de botas  porta, minsculos quartos l dentro. Joaquim dorme num destes quartos-cela com o filho,
Vasco, 22 anos, enfermeiro, que veio de Elvas e ontem foi sair  noite em Cabul. Mostra-me a bandeira portuguesa ao lado da cama bem feita. Est tudo organizado,
mas falta ar, espao, luz. H mais de um ano que Joaquim aqui vive. Nunca saiu do eixo Kaia-Cabul. Nunca comeu arroz pulao.
        C fora, um labirinto de bunkers em caso de ataque (ltimo ataque, ontem: um bombista suicida na estrada Aeroporto-Cabul contra dois jipes americanos, feriu
os americanos e matou afegos). Mesas de snooker, salo de beleza, bar italiano, restaurante francs (ecr gigante, wireless, pssimo caf, fast food).  porta das
tropas belgas, um Lucky Luke em tamanho de homem indica a distncia para Bruxelas (5 433,3 quilmetros).
        Calor, p, garganta seca, nariz entupido.

*Conjunto de camisa muito comprida e calas largas usado no Afeganisto, no Paquisto e na ndia.
**Touca bordada ou de croch que cobre o cimo da cabea.
***International Security Assistance Force, as tropas estrangeiras no Afeganisto.
        No controlo de trfego ereo, o chefe de Joaquim  hngaro e h mil pessoas de 30 nacionalidades.
        Sami, o motorista a quem os portugueses telefonam quando vo a Cabul, chega para me levar e Joaquim insiste em ir tambm. "Boa gente", tinha dito o Joo
Carvalho Pina*.
        Bancas de estrada assentes em troncos. Parablicas em cima de telhados de zinco. Casas de terra batida, velhos txis amarelos, chaikhanas**.
        Cabul. Nem uma mulher de cabea descoberta. Algumas mulheres de burqa azul. Trnsito a saltar nos buracos, e engarrafado. Muita poeira. Dor de cabea. Dor
de msculos.
        H hotis em runas e hotis caros. A maior parte dos forasteiros aloja-se em guest houses, casas adaptadas a hspedes. H guest houses acima dos cem dlares
por noite. E h guest houses por menos de metade disso.
        Primeiro a Park Residence, central e triste. Tipos de kalashnikov
 porta, uma chinesa monossilbica na recepo.
        Depois o kabul Lodge, numa ruela de pedras e p. Com pequeno-almoo, roupa lavada e Internet, custa 50 dlares. Fico.
        Tomo um ch com Joaquim sob o alpendre que d para o jardim. Os rapazes da casa so tajiques*** simpticos. Arranjam-me um carto SIM. J tenho um nmero
afego. H Internet por cabo nos quartos, mas no est a funcionar. Quando recebi a chave do quarto 24, um dos rapazes afegos e Peter, o holands do quarto 26,
esventravam o computador central no jardim.

Cabul parece uma aldeia em silncio. Um co a ladrar ao longe, um carro.


                                        CABUL

                                     1 de Junho

        ACORDO S 10H, refeita. Ch, queijo e po duro sob o alpendre. Peter continua  volta do computador central. Um dos rapazes lava os vidros, ou seja, limpa-lhes
o p com um pano, aos saltos. Rosas lindas no jardim. Peter com pssima diarreia. Vamos ao meu quarto para eu lhe dar pacotes de Re-Hedrat, mas deixando a porta
aberta, no vo os afegos pensar o pior. De caminho, ele muda uma configurao no meu porttil e fico ligada  rede.
        - Sabes quem vivia naquela casa ali? - pergunta Peter, apontando da minha janela.
        Depois sorri.
        - Algum muito famoso, no o consegue encontrar.
        - No.
        - Sim.
      Foi Haider, o dono do Kabul Lodge, quem lhe contou. Ali vivia Osama bin Laden e aqui era a sede taliban.
        Peter vai ao hall dos quartos mostrar uns vidros.
        - Vs? Restos de tinta. Pintados para no se saber o que se passava c dentro.

* Fotgrafo portugus (http://www.joao-pina.com).
**  letra, casas de ch. Estabelecimentos, em geral rudimentares, para beber, comer e repousar ao longo do que foi a Rota da Seda.
*** Segundo grupo tnico no Afeganisto, a seguir aos pashtun

Indica uma escadinha no jardim.
        - L em baixo, na cave, tinham uma priso. Isto antes de Osama ir para Kandahar preparar o 11 de Setembro.
        Conta-se que Osama andava com dez carros pretos, todos diferentes, todos iguais.

Anteontem, ataque na estrada do aeroporto. Ontem, ataque na estrada de Jalalabad. AISAF desaconselha idas a Jalalabad. Telefonei a Tareq para saber. Ele ficou de
ligar.
        Tareq  um daqueles afegos empreendedores que cresceu na Amrica e voltou depois da queda dos taliban. Tem vrios projectos. Um deles  uma equipa feminina
de boxe em Cabul. Outro  uma escola feminina em Jalalabad, onde a famlia dele tem pergaminhos pashtun.*
        O Nick Danzinger** tinha-me dado o contacto de outro afego crescido na Amrica e agora de volta, Rameen Javid. Telefono-lhe e ele oferece-se para vir ao
Kabul Lodge. Chega  uma da tarde com uma jovem amiga, Sofia. Ela tira o leno, descobrindo a cabea no jardim.
        Tal como os rapazes da casa, Rameen e Sofia so tajiques. Portanto, persa, como diz Rameen, com algum desdm subliminar pelos pashtun.
        - Os pashtun esto no poder s h trs sculos, enquanto os persas tm milhares de anos de histria. Os Durrani (dinastia pashtun) nem tinham palavras para
as coisas do poder e da corte, tiveram de adoptar o dari.
        Variante do persa, lngua franca do Afeganisto.
        - E ns, os persas, no temos aquele esprito tribal dos pashtun.
        Rameen  um homem orgulhoso, no muito sorridente, com aquela ruga dos incumbidos de um dever. Cresceu em Nova Iorque.
        - Queens.
        Estudou Mdio Oriente em Princeton. No consegue arranjar trabalho. Quer ser agente de arte.
        - Manager.
        At aqui tem sido intermedirio sem comisso. H coisas a acontecer na arte afeg?
        -Sim, sim, em Herat.
      E como est Herat?
        - Um caos desde a sada de Ismail Khan.
        O ex-comandante dos mujahedin, autoproclamado emir de Herat,  agora ministro em Cabul. Rameen despreza o governador que o substituiu.
        - H mais insegurana, mais corrupo. Khan era um senhor da guerra, mas antes disso era um heri.
        Rameen fala das mfias, deste sistema fechado onde quem vem de fora tem dificuldade em entrar, sobretudo na poltica. De tudo estar viciado, at a equipa
de futebol. Ele, educado em Princeton, est jobless por no ter as ligaes certas.
        Ele e Sofia no querem ch. Mas a certa altura a cerimnia parece quebrar-se. Rameen oferece-se para jantarmos com "gente influente". Sofia aceita ir comigo
comprar vestidos afegos. Tem 21 anos e um ingls ptimo.
        S tenho duas tnicas e um leno.
        Toda a gente diz que uma estrangeira no anda sozinha na rua.

* Etnia predominante no Sul e no Leste, muito assente em cdigos tribais, e que quase sempre ditou o poder. Os taliban so pashtun, tal como o presidente Hamid Karzai.

**Fotgrafo britnico e autor de livros de viagens (http://www.nickdanziger. com/index.html).
Primeiro porque as afegs no andam sozinhas na rua. Depois porque os estrangeiros em geral so alvo de raptos. Isto faz com que os estrangeiros em geral andem sempre
de carro.
E as empresas tm todas carros com condutores habituados aos caminhos de cabras em que diariamente fica entupido muito do trnsito de Cabul.

s duas e meia da tarde um carro da BBC passa a buscar-me. Vou ter com Ismail Sadat, o editor acabado de chegar de Londres. Parece-me que conheo esta cara, com
algo de cinematogrfico, e  possvel que nos tenhamos cruzado na sala de visitas de Rahimullah Yusufsai, o jornalista paquistans baseado em Peshawar que entrevistou
Bin Laden e o Mullah Omar. Peshawar  a grande cidade de fronteira do Nordeste do Paquisto, por onde passaram exrcitos, milhes de refugiados, taliban e trficos
em geral. Em 2001, jornalistas de todo o mundo esperavam na sala de Yusufsai por uns minutos de iluminao. Regularmente aparecia um rapaz da famlia a trazer cafs,
chs, Fantas ou Pepsis, o mnimo aceitvel na hospitalidade pashtun. Nem os reprteres atravessavam a fronteira nem a guerra comeava, e entretanto eram tabuleiros
e tabuleiros todos os dias. Uma renda.
Mas este Ismail Sadat, que fora enviado para cobrir o lado dos taliban, j estava em Cabul quando John Simpson, a estrela da BBC, chegou para "libertar" Cabul. E
tambm c estava meia dzia de anos antes, quando os taliban tomaram a cidade.
        De resto, como morador permanente,  um recm-chegado. Amabilssimo, mas ainda sem conhecer o terreno, a tentar encontrar-me um intrprete. Ao telefone,
o primeiro que lhe sugeriram parece-me tmido e com pssimo ingls.
Em cima da mesa h melancia fresca, frutos secos e ch perfumado com cardamomo.
        Um dos contactos que o Joo Carvalho Pina me deu foi o da Afghan Logistics, a companhia de "txis seguros". Chama-se um txi por telefone; a central liga
de volta quando o carro est  porta; quando o passageiro entra, o condutor comunica para a central o destino; e volta a comunicar quando a corrida termina. Qualquer
corrida, para a esquina ou para a outra ponta de Cabul, custa cinco dlares. Ao fim de meia dzia de corridas o forasteiro conhece todos os condutores da Afghan
Logistics, que falam sempre um bocadinho de ingls. E depois descobre que j h uma empresa concorrente, com corridas a quatro euros e peles felpudas a cobrir os
assentos, quando esto uns 40 graus  sombra.
        Chamo o meu primeiro txi da Afghan Logistics para ir ter com Jolyon Leslie  Fundao Aga Khan, na parte antiga da cidade.
        Chove em Cabul. Pedras, buracos, arame farpado. Polcias sinaleiros com mscaras cirrgicas por causa da poluio, mulheres s com os olhos  mostra, burqas.
Leio nomes: Liceu Malalai. Reconheo nomes dos livros de viagens: Chicken Street, Mustafa Hotel. Seguranas fortemente armados por toda a parte. Um homem de turbante
e tapete ao ombro, pronto para rezar quando chegar a hora. Carrinhas Land Cruiser da ONU e carros de vidros escuros. Depois, a caminho da Cidade Velha, um bazar
de velhas bancas, tomates, meles, melancias gigantes. O rio podre com colinas dos dois lados cheias de casas de terra batida, de cimento, de madeira, de zinco,
casas-barracas numa inclinao a pique, e logo em baixo letreiros da Sony Ericsson. Est vento e as tnicas enfunam ao vento. As motas e as bicicletas furam entre
os carros, com mulheres e crianas agarradas ao condutor. Algumas tm mscaras cirrgicas. A gua da chuva escorre pelos degraus toscos. Passamos um cemitrio cheio
de bandeiras verdes.
        - Shahid - diz o taxista. Palavra rabe para mrtires.
        O taxista chama-se Zabi e diz que nasceu por trs desta colina.
        - Mas j no vivemos aqui.
        Como dizem taxistas nascidos em Alfama.
        Zabi pra em frente de um porto sem nada escrito. De fora ningum diz, mas aqui toda a gente sabe. Este  o porto da Fundao Aga Khan. E l dentro jardins
de um verde vivo, rosas altas e sedosas que cheiram no ar, uma grande casa antiga, maravilhosamente recuperada.
        Arquitecto, sul-africano, em Cabul desde 1989, Jolyon Leslie  o director no Afeganisto do Aga Khan Trust for Culture (AKTC), que est a reabilitar as zonas
antigas de Cabul e Herat, envolvendo a populao.
        Demasiado magro, louro, olhar azul-frio,  um homem difcil de enquadrar. Tem algo de recuado perante o espectculo do mundo, como aqueles convertidos ao
Islo louros e de olhos azuis que h em Crdova. Amplo gabinete s com o essencial, janelas para o verde e para as rosas. Deu-me um exemplar do livro que escreveu
sobre o Afeganisto* e conversmos durante uma hora. Trabalhou durante anos para a ONU. Saiu por causa das sanes ao Iraque. Um destes dias ao jantar, o general
Mc-Neill, que vai deixar agora o comando da ISAE, disse-lhe que ele andava a ouvir muito os taliban, quando Jolyon lhe disse do descontentamento afego com a ISAE
        A ISAF, diz Jolyon,  "um fiasco de relaes pblicas". H um "ressentimento crescente dos afegos" e a ISAE est em deniel. Os taliban eram terrveis mas
algumas coisas neles no eram to terrveis assim. Muitos estrangeiros e afegos regressados exageram o mau estado das coisas para justificarem a luta anti-terrorista.
Estrangeiros, ONG, dinheiro "Lots of money"  o ttulo do artigo de Jolyon na ltima London Review of Books).
        Rameen falara dos estrangeiros que l fora eram nada e aqui adoram ter quem lhes trate de tudo. No empregou a palavra mas Jolyon emprega-a agora - neocolonialismo.
Os estrangeiros que no saem dos bunkers, que no vem nada, em 4x4 com vidros escuros, com medo. A Jolyon, convidam-no
para os jantares na quota exotic independent.
         amigo da lendria Nancy Dupree**, que fez 80 anos no ano passado, continua a viver entre Peshawar e Cabul, mas acaba de partir para recolher fundos nos
Estados Unidos, azar meu. O livro de Jolyon tem um elogio dela na contracapa.
        A propsito de livros, que pensa ele de Rory Stewart, o aventureiro que foi mestre dos principezinhos de Inglaterra, atravessou a p o Afeganisto, de Ocidente
a Oriente, e com o relato dessa odisseia chegou ao top do New Tork Times***
        Jolyon sorri.
        - Is it true?
        No espera por resposta.
        - I doubt.
        Mas a Fundao Turquoise Mountain, criada em Cabul por Rory Stewart depois da sua peregrinao, organizou um prmio de arte afeg e a Fundao Aga Khan vai
acolher a festa em que ser anunciado o vencedor, na quinta-feira. Jolyon d-me um convite. E diz-me que antes poderei visitar duas obras de recuperao recentes,
o hammam**** da Cidade Velha e o mtico Jardim Babur, criado no comeo do sculo XVI.

* Afghanistan - The Mirage of Peace, em co-autoria com Chris Johnson. Londres, Nova Iorque, Zed Books, 2004, reedio aumentada 2008.
** Autora de vrios guias culturais sobre o Afeganisto nos anos 70. Com o marido, o antroplogo Louis Dupree, percorreu minuciosamente todo o pas, e hoje, viva,
continua a trabalhar com e para os afegos.
***The Places inBetween, Londres, Picador, 2005 (paperback).
**** Banho pblico tradicional.
Fim de tarde no jardim do Kabul Lodge. Peter, o holands a quem dei os pacotinhos de Re-Hedrat, est muito melhor.
        Outros hspedes: Nick, um engenheiro, Michael, que trabalha para Nick, Virginia, formadora de jornalistas, e David (ainda no entendi o que faz).
        Virginia janta no quarto, ns na sala. Sopa verde, po bom, mau hummus*, ovos cozidos, ch com acar. No comia desde o pequeno-almoo. Sinto-me ptima.
Como choveu, no est tanto calor.
        Os afegos no gostam de desiludir. Por isso dizem que sim mesmo quando no nos compreendem.  indelicado dizer que no, talvez to indelicado como assoar
o nariz ou mostrar a planta dos ps. No Kabul Lodge, por exemplo, o preo do quarto inclui taxa governamental, refrigerantes e Bin Laden, o mito dos mitos. Os afegos
cuidam da histria como cuidam das rosas.
        A rua do Kabul Lodge tem buracos, pedras, uma gua com lama e passam mulheres de burqa descalas. Junto ao porto h um telheiro ferrugento com um guarda,
e o porto, ningum dava nada por ele. Mas depois abre-se e um caminho leva  entrada da casa, toda virada para o jardim. No jardim h relva que todos os dias 
aparada e regada, e rosas cor de sangue, esguias, de cabea levantada como os velhos afegos de turbante c barba grisalha, como o jardineiro desta casa.
        A rua tem buracos e as casas-de-banho dos quartos so um buraco, mas as rosas so toda uma histria afeg, altas e invencveis no calor de Junho - calor,
p, altitude e dixido de carbono.
        Tento imaginar os rapazes da casa, todos tajiques, de mscara cirrgica. Ou Hassan, o governante do Kabul Lodge, que tem barba grisalha mas no turbante.
A natureza de Hassan  passar o tempo a pensar no que ser melhor para ns. Mostro-lhe como a minha cadeira  demasiado alta para a mesa e ele troca a cadeira. Mas
passada meia hora entra-me no quarto com outra mesa porque continuou a pensar em mim.  nessa mesa que agora escrevo, graas a Hassan, que fala tanto ingls como
eu falo dari e tambm rega as rosas na ausncia do jardineiro, no vo elas j estar um pouco secas.
        Todos trabalham para Haider, o sorridente tajique que alugou esta casa quando ela ficou livre, depois de 2001.
        E quando corro a velha cortina empoeirada do meu quarto 24 imagino Osama bin Laden a cobiar as rosas do jardim. 23h45 e tudo to calmo como ontem.
                                        2 de Junho
        DUCHE RECORDE. Foi para isto que cortei o cabelo ainda mais curto do que quando fui para o Iraque. Dessa vez, estava suficientemente grande para ficar em
p com o p.
        Tomo o pequeno-almoo no jardim onde j est Virginia. Com os seus olhos azul-porcelana, ela fala de um afego "incrivelmente masculino" que conheceu. Concordamos
que so o mais belo povo do mundo. Tudo isto a propsito do jardineiro que caminha  volta da relva. O dia vai comear e est resplandecente.
        Ao longo dos muros da embaixada iraniana, ao virar da esquina, h homens e rapazes acocorados.
        - Esto  espera de visto - diz Habib, o taxista da Afghan Logistics.
        Nove da manh, trnsito salve-se quem puder, e se o sol j queima no quero imaginar ao meio-dia. Vamos por entre os bunkers de beto e arame farpado e eu
tiro fotografias. Os soldados mandam-me parar.

* Pasta feita com gro, pasta de ssamo, limo, alho e cominhos, muito comum no Mdio Oriente.
        -Mam!
        E revistam Habib e o carro. No me deixam fazer chamadas. Espero de p no terreiro. Eis uma zona perigosa: entre soldados. C vem um de mais altas patentes.
Apaga as fotografias.
        - No viu O letreiro?  proibido tirar fotografias em toda esta zona.
        Tudo isto demora uma meia hora.
        Quando acaba, Habib suspira fundo e seguimos. L est o letreiro, uma cruz por cima de uma cmara por cima dos blocos de beto.
O tenente-coronel Miguel Freire aguarda-me no Quartel-General da ISAF. Neste momento, o porta-voz da ISAF  um portugus, o general Carlos Branco, a quem, ainda
de Lisboa, mandei a documentao para uma credencial. O tenente-coronel Freire trabalha com o general Branco.
        Por entre passagens barricadas, conduz-me ao afego Nazir, que me entregar a credencial. Sentados num pr-fabricado, um romeno, um americano e um espanhol
identificam afegos que querem trabalhar para a ISAF. Cinco impresses digitais e fotografia aos globos oculares. Os jornalistas tambm tm de fazer isso. Agora,
com um clique, as tropas no Afeganisto acedem s minhas impresses digitais e aos meus olhos.
        A seguir tenho encontro marcado com uma das deputadas afegs, Fauzia Kufi. Volto a atravessar parte da cidade. A cpula azul de uma mesquita com andaimes,
bancas de mangas maduras que parecem pequenas papaias, um velho com um estendal de alhos debaixo de uma rvore - e como sobrevivem as rvores a este trnsito, a
este ar.
        O ptio do Parlamento de Cabul  uma Babel. Ouve-se dari, pashto, uzbeque. Chegam blides todo-o-terreno a brilhar de to polidos e despejam deputadas que
parecem raparigas e do ordens aos homens em volta. Chegam lderes tribais de turbante, aspirantes a yuppie de fato, guarda-costas faanhudos de metralhadora. As
metralhadoras tm de ficar  porta. E bicicletas, curiosos, pedintes e vivas de burqa ficam ao porto, onde neste momento tambm h manifestantes aos gritos, com
cartazes e faixas.
        Fauzia h-de explicar-me que os manifestantes vieram da provncia que ela representa, o montanhoso Badakhshan, no Nordeste. Mas antes de chegar a Fauzia
ainda tenho de ser revistada num casinhoto onde j h vrias mulheres a serem revistadas e vrias a revistar. Novas tecnologias, batons, tampes e as revistadoras
fazem a festa.
        O trio tem as caras emolduradas de todos os deputados. Fauzia  aquela rapariga de ar melanclico, leno amarelo apertado debaixo do queixo, uma boa madeixa
negra a sair para a testa. E ei-la ao vivo,  minha frente, a sorrir.
        Aos 32 anos,  viva e me de duas filhas. E, alm de ser uma das 91 mulheres entre 249 deputados eleitos directamente,  vice-presidente do Parlamento.
        Faz-me um pequeno tour. Corredores de mrmore com tapetes e lustres, e deputados para trs e para diante - homens de pakol*, blazer e shalwar kamiz resplandecente
de alvura e goma; homens de turbante, patou** e colete; homens de fato ocidental e pasta; taliban ditos ex-taliban de telemvel; e todas as mulheres de preto, de
branco ou de fantasia, mas com a cabea coberta. Dois aqui, quatro ali, cinco acol,  conversa nos passos perdidos em Cabul como em So Bento. Subindo  sala de
imprensa (que  um aqurio por cima do plenrio) v-se o hemiciclo (que  mais um quarto de crculo), com a maioria dos deputados no seu lugar.

* Tpico chapu afego de l, geralmente cor de marfim ou de mel.
** Espcie de manta que os homens usam dobrada sobre o ombro.
        Por causa da manifestao, Fauzia  assediada por meia dzia de microfones de rdios, e as reprteres femininas esto em maioria. Uma usa rabo-de-cavalo.
Ou seja, no tem a cabea coberta.
        Fauzia responde corts e depois,  falta de gabinete, procura uma sala para conversar comigo. Um homem traz-nos ch.

Que manifestao  aquela l fora?
        - Um deputado do Badakhshan est envolvido em trfico de droga e violao dos direitos humanos, e as pessoas esto a protestar - explica Fauzia.
        Que disse ela aos reprteres?
        - Que tnhamos discutido isso com o ministro do Interior. Os homens recrutados por esse deputado mataram 12 pessoas, devido a tenses antigas, porque so
de partidos diferentes. E as pessoas querem paz e segurana.
0 Badakhshan  uma das regies mais remotas do Afeganisto. Fica l no extremo Nordeste, com um dedo enfiado na China, e bordejando o Tajiquisto. Tem montanhas
altas, neves de todo o ano, zonas onde nunca houve estradas. A taxa de mortalidade materna  a pior do mundo, mais de seis mil mulheres em cada cem mil.
        Fauzia mudou-se para Cabul aos trs anos e foi aqui que estudou Direito.
        Comecei Medicina antes dos taliban, depois mudei e acabei o bacharelato no ano passado. Tambm fiz um mestrado em Gesto.
Para os padres afegos,  uma privilegiada.  isso que explica estar aqui.
        - O meu pai era membro do Parlamento, durante o reinado de Zahir Shah. Em 1975, o governo pediu-lhe ordem e segurana no Badakhshan, ele foi l e reuniu
mil idosos para irem a cavalo falar com o lder dos mujahedin. O lder estava nas montanhas e quando viu os mil homens disparou e atingiu o meu pai.
        Depois os mil apanharam o mujahid e mataram-no.  uma histria afeg.
        Mas o pai de Fauzia no  o nico antecedente poltico:
        - Os meus irmos trabalharam para o governo de Daud {a seguir ao rei} e depois para o governo comunista. O meu pai casou sete vezes e eu tenho 14 irmos.
Cinco foram mortos durante a guerra com a URSS e outro foi morto com os mujahedin. Alguns dos meus irmos trabalhavam com os comunistas e um trabalhava com os mujahedin.
        Tambm  uma histria afeg, sobretudo em irmos de vrias mes, como era o caso.
        Para alm dos 14 irmos, Fauzia tem oito irms. Dos sete casamentos, o pai enviuvou de dois e divorciou-se de um. Restaram quatro mulheres em simultneo.
        - Ele era um grande poltico, portanto precisava de uma mulher em Cabul, outra em Faizabad, outra em Kuf e outra em Khawhan. Era muito rico. Tinha terra,
700 ovelhas e vacas, 50 cavalos. Temos muita terra no Badakhshan. E a famlia da minha me tambm  uma grande famlia poltica. Foi por isso que ele casou com ela,
para ter o apoio dessa famlia.
         outra histria afeg. E  assim que as coisas funcionam, ainda.
        - Eu tive seis mil votos da minha famlia, e 12 mil votos ao todo. No fui eleita na quota das mulheres.
        Segundo a qual entre 249 deputados pelo menos 68 tm de ser mulheres.
        - No distrito de Kuf todos so meus primos. Tem de se ter dinheiro ou uma base social para se ser poltico. No acredito em tribos, mas quando no h uma
famlia grande  muito difcil. Tudo vem do lugar de nascimento. O meu nome, Kufi, vem do distrito. Os meus irmos tm muitos amigos e esto em cargos governamentais.
Porque, mesmo que no queiram, as pessoas das aldeias vm ter com eles, connosco, quando tm problemas. As expectativas em relao a ns so a todos os nveis.
Como se poder ver na vspera de fim-de-semana em Cabul,  porta de Fauzia.
        -s quintas-feiras  tarde tenho a casa aberta. Toda a gente com um problema pode aparecer. Vm de Ghazni, de Tahar, de Kunduz, de Cabul, no s do Badakhshan.
        Fauzia no se queixa.
        -  fcil ouvir as pessoas, ser amigvel, dar-lhes uma carta, fazer um telefonema.
        O que pedem?
        - De A a Z - ri-se ela. - Um passaporte, carta para vistos para o Paquisto e para o Iro, mudar de faculdade, arranjar emprego, arranjar um mdico melhor,
tratar de um processo para vingar uma morte, construir escolas, mais professores, arranjar estradas, um helicptero para transportar feridos, dinheiro para os tratamentos...
Se uma mulher se quer divorciar, pede ajuda para o tribunal ou para a sura*.
E o que  que Fauzia faz?
        -O mais duro  arranjar emprego. No me sinto confortvel a pedir ao ministro. Do que mais gosto  dos servios pblicos, clnicas, escolas. Nisso posso
ajudar.
        Na semana passada, uns hazaras** vieram participar-lhe um rumor:
        - Tinham ouvido que eu ia candidatar-me a presidente e vinham apoiar-me.
        Ser verdade que se vai candidatar?
        -Definitivamente quero ter um partido e concorrer, mas depois dos 40.
        Faltam oito anos. As filhas so ainda pequenas, uma tem nove, outra dez.
        - No perteno a um partido porque no h um bom. As pessoas querem que eu faa um. No h nenhum liderado por uma mulher, mas sou a primeira vice-presidente
mulher, e liderei sesses com mujahedin, taliban, ex-comunistas.
        No tem sido fcil.
        - Quando falamos em democracia as pessoas pensam em Ocidente. Muita gente usa mal os valores islmicos, mas se falamos contra isso dizem que falamos contra
o Islo, como se o Islo lhes pertencesse. O Islo no deve ser usado como um jogo. Se no for usado de acordo com os direitos humanos, nunca se levantar.
        As mulheres tm a vantagem de no ter um passado.
        - As pessoas querem coisas novas, esperam honestidade, esto cansadas de quem as usou e ns, as mulheres, no temos as mos sujas de sangue, no matmos
civis, e tentamos manter a paz em casa. Lembro-me dos rockets a carem em Cabul em 1993 e de a minha me dizer: "No te preocupes." Embora tivesse medo, acalmava-me.
        Mas a situao das mulheres  to m que se torna difcil saber por onde comear.
        - H mortes, h ameaas. H mulheres que foram para o Iro e Paquisto e acabaram prostitutas. H trfico de crianas e de mulheres para abusos sexuais e
trfico de rgos. E eu recebo todo o tipo de ameaas, chamadas para o meu telemvel, cartas.

* Conselho local, formado por notveis.
** Reconhecveis pelas feies mongis, so uma das etnias afegs.
Recebi ameaas de senhores da guerra do Badakhshan quando as pessoas protestaram contra eles e eu defendi as pessoas. Eles pagam para serem chefes da polcia com
dinheiro da droga, torturam as pessoas, abusam delas, matam-nas.
        Fauzia diz que no sente medo enquanto tiver uma base de apoio.
        - H muitos deputados no Parlamento que ningum conhece, mas eu ter-me tornado uma figura pblica significa que tenho o apoio do meu povo. Se temos medo
no devemos estar na poltica. Se temos medo estamos politicamente mortos.
        Isto tambm  uma histria afeg.
        - O meu marido morreu h quatro anos. Era engenheiro e professor na  universidade. Os taliban prenderam-no porque ele tinha casado comigo. Na cadeia torturaram-no,
obrigaram-no a ficar ao ar livre no Inverno. Quando foi libertado tinha tuberculose. Tentmos trat-lo no Paquisto, no Iro, na ndia.
        Morreu em 2003.
        - Todos estes desafios ou nos traumatizam ou nos fazem mais fortes. Todos os dias me esqueo do que  sentar  mesa e rir. Todas as noites tenho 20 ou 30
pessoas  minha espera com problemas diferentes.  a famlia que me cuida da casa. O meu problema  tempo. Esperam coisas de mim.
Daqui a dez dias, Fauzia estar no Badakhshan. Vai visitar uma zona montanhosa onde se despenhou um autocarro. Um dia de viagem s para l chegar.

        Fica combinado que a vou visitar a casa na quinta-feira, e entretanto ela insiste que o motorista me leve de volta  ISAF, para a ltima conferncia de imprensa
do general McNeill, comandante geral das tropas no Afeganisto.
        O carro de Fauzia  um daqueles blides muito altos. De fora, no se consegue ver quem vai dentro. De dentro, o que se v l fora no parece real.  como
estar de culos escuros, com tampes nos ouvidos e uma brisa na cara. Ar condicionado.

ISAF. Antes do general McNeill, almoo com o general Branco e o tenente-coronel Freire. Piza. Caf verdadeiro. Ambiente de caserna.
Achei que a conferncia de imprensa, sendo uma despedida, ia transbordar de jornalistas embedded*, mas h muitas cadeiras vazias. No fim, cena pattica por causa
dos jornalistas afegos.
        - Porque no vo acompanhar patrulhas? - incentiva o general McNeill.
        Sim, porque no? Tendo em conta que acabam despedidos ou acabam com eles. Sem proteco e sem preparao, os jornalistas afegos enfrentam senhores da guerra,
polcias corruptos, fanticos religiosos, os interesses do governo e a estratgia da ISAF. Morre-se disso, aqui.
        Enquanto o general McNeill declara o seu pesar pela partida, o ar condicionado da sala derrama gua.

        Volto ao Kabul Lodge.
        Escrevo at s duas da manh. No janto. Durmo mal. Calor, sons, talvez bichos. Quase viglia at de manh.

* Integrados nas tropas, mediante vrias regras previamente acordadas.




                                3 de Junho

LEVANTO-ME CANSADA. Nariz entupido, sangrento. No admira que tanta gente use mscara.
        Mau pequeno-almoo, mau po, mau ch. Farhad, o mais sorridente dos rapazes da casa, prope uma espcie de panquecas para minorar os danos. Tem uma ferida
na cara, o cabelo negro, uns olhos febris. Se no estivesse sempre a sorrir eu teria medo de o encontrar num beco, mas assim parece um filhote de fera. Entre taliban
e guerras, perdeu uma dcada de escola, como tanta gente neste pas. Aos 29 anos, estuda Geografia na universidade.

Saio para ir ter com Tareq.
        -Grande porto com arame farpado numa rua esburacada. Instalaes novas no que era uma antiga priso e o jovem Tareq num vasto gabinete quase todo por mobilar.
 um corpo masculino no seu auge, com olhos coruscantes e um perfil de guia. Podia chegar no seu cavalo e arrasar tudo como um Gengis Khan.
        Um primo dele serve-nos o melhor ch que j bebi, com leite, acar e cardamomo. Bebo duas chvenas e podia continuar. Tareq mostra-me as fotos das meninas
boxeurs.
        Pergunta se conheo a vida nocturna de Cabul e o que vou fazer logo  noite.
Mas antes vai contar-me a histria da sua vida, e antes ainda desmonta o discurso da ISAF.
        - Quando dizem que mataram 16 taliban, mataram dois agricultores, trs mulheres, cinco crianas...
        Tareq tem muitas ideias alternativas para o Afeganisto. A mais imediata ser reunir dinheiro para os Jogos Olmpicos. O negcio dele  o
agrobusiness, "produtos agrcolas de qualidade, morangos, citrinos, roms, 34 variedades". Aposta "no mercado local, depois no Paquisto e na ndia". Tem "novos
conceitos para limpar os produtos, dar-lhes outra vida de prateleira". Por exemplo, "os morangos vm da provncia de Kunar" e antes de os embalar e de lhes dar um
preo h que limp-los, porque "80 por cento do ar tem fezes humanas, devido ao sistema de esgotos". Mais que limpar, " preciso purificar". Cleanfood, quality control.
        - Criar um nvel para a agricultura  a nica coisa eficaz, para alm do pio. Costumavam chamar ao Afeganisto "O Jardim da China".
        H trs anos que Tareq est a preparar isto, com um p na Amrica e outro aqui.
        - Estou a tentar construir a economia local do Afeganisto atravs da sua indstria, da sua histria, da sua agricultura. Seno, seremos escravos do mundo.
Preparei-me toda a vida para voltar. Toda a vida me disseram: "O teu av isto, o teu av aquilo." O meu av era Shawali Khan, o primeiro comandante de jactos no
Afeganisto. Era o guarda directo do rei Zshn Shah. Quando os comunistas tomaram o poder, a gente da terra veio avisar o meu av,  casa de Jalalabad: "Shawali,
vm apanhar-te." Mas ele no quis fugir e ser um escravo noutro pas. Disse aos comunistas: "Jurei por Zahir Shah." Levaram-no preso. Toda a gente sabe que ele teve
oportunidade de fugir e no fugiu. Um dia vou ser um heri como o meu av.
        Este  o av materno de Tareq.
        - O meu av paterno era um grande lder tribal do Nuristo. Foi o pai dele, Shal Pasha, quem converteu ao Islo as tribos pags do Nuristo.
        H relatos mticos dessa provncia montanhosa no Nordeste do Afeganisto que at ao fim do sculo XIX se manteve pag, cercada de muulmanos por todos os
lados.
        Em 1956, o ingls Eric Newby deixou o mundo da alta costura para mandar um telegrama a um amigo no Rio de Janeiro com estas palavras: "Podes viajar Nuristo
Junho?" A resposta foi ainda mais breve: "Claro." O resultado pode ser lido num clssico da literatura de viagens, A Short Walk in the Hindu Kush*
        E nos livros de Louis e Nancy Dupree h imagens da grande arte pag do Nuristo, misteriosas efgies em madeira de homens e mulheres, deuses e deusas fundidos
num beijo, instrumentos de msica e tapetes coloridos, toucados, facas e jias. Se sobreviveram aos rockets mujahedin e ao martelo dos taliban, ainda devem estar
no Museu de Cabul.
        Ento Tareq  o bisneto do homem que os converteu. O mesmo perfil em gancho dos Pasha e dos Khan, mas a beber ch de cardamomo com sotaque da Califrnia.
        - Posso fazer negcios de dez milhes de dlares.
        E no viaja com escolta armada, como faz toda a gente que pode.
        Diz que quer viver para a sua terra, a comear pela afeg de quem est noivo e com quem vai ter filhos.
        - Honra e orgulho,  tudo o que temos. Estas tropas estrangeiras pem-nos a bota na cara, quebram-nos, mas os afegos nunca vo perder. Cabul no  o Afeganisto,
 o esgoto do Afeganisto.
        Cabul como smbolo do poder central, aquilo que no existe na tradio das tribos.
        Tareq olha para a frente como um lutador profissional. Este nariz no  s herana,  dos murros no ringue. Este homem  um boxeur e veio para ganhar.
        - Vim muito agressivamente em 2004. A terra aqui  honra e estavam a desrespeitar a minha famlia. Sou um lutador, vim pr as coisas no lugar. Tive 50 homens
a receberem-me no aeroporto. Depois, ao vir para a cidade, vi como as pessoas viviam. Deus criou-me esfomeado pelo Afeganisto. Cresci no legado dos meus avs, mas
tive oportunidade de viajar pelo mundo, de ter uma educao, e houve uma hora em que pensei: vou revolucionar o mundo atravs do desporto. Rapazes e raparigas. A
minha aposta so os midos abaixo dos 17 anos, as nicas pessoas com o corao puro. Primeiro, um programa de futebol com rapazes e raparigas. Depois, uma federao
de mulheres boxeurs. Aravahz me disse: "Vo matar-te. O Afeganisto no est pronto para isso. Este senhor da guerra vai matar-te." Mas eu vesti as minhas roupas
afegs, fui visit-lo, sentei-me no cho e comi com ele: "No  tempo de mostrar ao mundo quem somos? Toda a gente est a tentar reconstruir o pas, mas  preciso
usar o futuro, que so os midos." Desafiei-o.
         isto que o mundo no entende quando tenta acabar com o pio, acha Tareq.
        Dizem-lhes: "Parem com o pio." E as pessoas perguntam: "Porque devo parar? Qual  a alternativa?" O mundo espera que estas pessoas a quem no foram dadas
alternativas, que no tiveram uma educao, mudem em seis anos. Mas elas esto abertas  mudana, se lhes derem alternativas. O tipo que deveria matar-me deitou
uma lgrima quando lhe falei do desporto para os midos, e disse: "Tu s um anjo."
        E agora Tareq j est a treinar as meninas boxeurs. A mais nova tem 12 anos, a mais velha 17.
        -Rimos, rimos, rimos. Brincamos, brincamos, brincamos, brincamos. Lutamos, lutamos, lutamos. Depois pergunto-lhes o que querem fazer elas dizem: "Eu quero
ser cirurgi ortopdica."
Ou: "Eu quero ser piloto de jactos." Desenvolveram a auto-estima.

* Londres, Picador, 1974 (edio original, 1958).

        E recebem o melhor.
        - Tenho sponsors. Treino equipas. Cada vez que as treino digo: "Vamos levar isso para as raparigas." As minhas raparigas tm cada uma 250 dlares de equipamento,
esto mais bem equipadas do que qualquer outra pessoa no pas.
        Ao mesmo tempo, Tareq tem na cabea o futuro Complexo Desportivo de Jalalabad.
        -Os taliban disseram que apoiariam. A poltica  a banda e os polticos danam, mas eu no posso danar. Tenho demasiada honra e orgulho para danar ao som
de um regime.  atravs destes complexos desportivos que  possvel educar os midos. Suar competir, sangrar.  um plano de dez anos. Ser a primeira vez num pas
islmico que mulheres praticam boxe.
        Esta  a misso de Tareq.
        -Festas, sexo, raparigas giras, eu podia ter tudo isso na Amrica Mas estou ocupado a salvar o Afeganisto. E  isso que os velhos das tribos vem: "Ele
est aqui." Sabes quanto dinheiro me pagam para combater na Amrica? Parti o nariz, tive que coser as orelhas, tenho uma cicatriz nas costas.
        Puxa a t-shirt e mostra as marcas. Um torso imponente.
        - Amanh s seis vou estar com o neto do rei. Queres que pergunte se te d uma entrevista?
        Sigo do escritrio de Tareq para o encontro com Sofia, que espera  entrada da Roshan Tower. A porta h mulheres de burqa a pedir. L dentro  um pequeno
centro comercial. Lojas cheias de manequins kitsch com vestidos brilhantes, de ombros nus, colados ao corpo. Roupa para festas de casamento. Difcil  encontrar
roupa normal.
        E aparece Rameen, que est a acompanhar Sofia. Experimento fatos em provadores com fotos de rapazes a agarrar raparigas reboludas e transbordantes. Toda
a publicidade transborda de modelos assim, talvez libanesas. Compro um conjunto turquesa e outro vermelho, punjabis, como diz Sofia: tnica, grande leno para tapar
a cabea e cair ao longo do corpo, calas muito largas em cima e estreitas no tornozelo, que se apertam com um cordo. Tudo tamanho nico.
        Almoamos frango frito com batatas fritas no restaurante do centro porque no h comida afeg. S hambrgueres ou frango.
        Pelas cinco, volto a sair, a p. O Kabul Lodge fica no centro, num bairro chamado Shar-e-Now, onde nos anos 60 deambulavam os hippies em escala para Katmandu.
        Ismaq, o vice-manager do Kabul Lodge, acompanha-me at  livraria Shah Books, onde o filho de Shah diz que o pai deve voltar dentro de uma semana. Shah 
O Livreiro de Cabul. L est, em destaque, o livro em que ele responde  autora, Asne Seierstad. Rameen vai l ter. E passeamos, vagarosos. Chicken Street Flower
Street, a rua paralela  do Ministrio do Interior. Uma mulher de burqa segue-nos, a pedir. Fica  porta de uma livraria onde a menina da National Geographic est
sistematicamente emoldurada nas paredes, em reprodues e pinturas. Rameen v pintura naif, umas coisas romnticas com raparigas em baloios na erva. A Chicken Street
so antiqurios, casas de tapetes, um homem deitado no cho como uma odalisca. Nada parece ter mudado desde os anos 60.
        Depois, virando a esquina, h uniformes de escola, rvores que no morrem e velhos sempre muito belos. Rameen diz que em geral os afegos no gostam dos
estrangeiros. Talvez nos desprezem um pouco. Mas so soberbamente elegantes. No passeio, senhores da guerra e senhores tribais, com as suas kalashnikovs e os seus
guardas de turbante, s compras, a ver montras, e depois a entrar para um 4x4 a brilhar.
        Passamos mercados de rua, polcias a comerem melancia, crachs de lderes misturados com bluses de cabedal, as fossas no passeio com esterco e lixo, os
buracos em que  preciso no cair.  difcil andar a p, mas  bom andar a p, porque ainda se anda a p aqui. J no faz aquele calor de febre que sobe com o sol
desde manh cedo. O ar est quase fresco e as pessoas so gentilssimas.
        Depois, Rameen leva-me a um restaurante afego onde s esto afego, o Bab Amir. Sentamo-nos na sala mais pequena, onde se sentam famlias, ou seja, onde
podem estar as mulheres. Posso tirar o leno da cabea e deix-lo no pescoo. Trazem iogurte amargo, po quente, qabuli* com uma perna de carneiro, tudo excelente.
E, como sempre, coca-cola.
        - Os comunistas faziam os afegos acreditar em alguma coisa, os americanos no os fazem acreditar em nada - diz Rameen. - Os americanos no se preocupam
realmente com o Afeganisto e as pessoas sentem isso.  a diferena entre um sbdito e um cidado. No h cultura de cidado activo, de responsabilidade pblica.
E s os losers internacionais  que esto aqui. Incompetentes filhos de ministro esto no governo e os americanos esto-se nas tintas. Accountability lost. Todo
o dinheiro  gasto sem contas. Construmos 400 escolas, diz a USAID**. Great. Mas no h professores, no h sistema de educao. No h mdicos, so piores que
carniceiros, e ningum os vai formar, no h um plano. Talvez dez por cento do dinheiro da ajuda seja bem aplicado. Para chegares onde ests tens de ter matado ou
subornado.
Rameen vive sozinho num apartamento deixado por um casal. Paga 300 dlares por ms. No tive coragem de lhe perguntar porque  que aos 38 anos ainda no casou.
        Ele vai a Herat na sexta ver artistas e eu combino ir tambm.
        Voltamos ao Kabul Lodge na grande escurido que  Cabul  noite. Passeios esburacados, esventrados, com os canais de esgoto e nenhum candeeiro, nenhuma luz.
Quase ningum na rua. Fantasmagrico. Rameen acompanha-me a casa e depois parte. Nunca me aperta a mo.

                                    4 de Junho

ACORDO S CINCO. Leio relatrios do International Crisis Group e do Institut for War and Peace Reporting, escrevo e-mail a pedir entrevistas e tomo o pequeno-almoo
s 7h, a conversar com David. J sei o que faz,  consultor financeiro, mas tem ar de empregado de escritrio dos anos 70. Nasceu em Vancouver, a nica cidade do
Canad onde j estive. Vive h um ano naquele quarto do rs-do-cho e deixa c as sandlias e as roupas baratas quando vai de frias. Nesta casa, diz ele, h toda
uma diviso cheia com as coisas que os hspedes deixaram para trs, porque  mais caro mand-las por correio.
        Conversa melanclica ao fresco da manh.
        Depois aparece Virginia, que parte hoje e j viveu em todo o Sudeste Asitico. Australiana de Sidney, filha de um militar nmada, tem 5o anos e um namorado
h 20 que  manager de bandas rock e nunca viaja com ela.
        - Acaba de me mandar um e-mail a dizer, pronto, depois desta acabaram-se as viagens.
        E s 9h vem o meu carro. L vamos para a Cidade Velha. Quarenta e cinco minutos no trnsito. Bazar apertado de gente.

*Um arroz frito, com passas e cenoura, geralmente acompanhado por um pedao de carneiro.
** Agncia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. Basicamente, o brao civil da interveno americana.
        -Tranque as portas - diz Habib.
                Burqas, galinhas, ovelhas. E depois Marzia e Farzana, as anfitris indicadas por Joiyon Leslie, numa casa com madeiras delicadamente esculpidas que
a Fundao Aga Khan recuperou neste bairro da Cidade Velha.
        L fora,  uma efervescncia de ps descalos, peles queimadas pelo sol, velhos que andam como se pairassem, meninos de olhos como clares.
        Os meninos bebem gua de um tubo no ptio da escola. Da escola ao hammam, so ruelas de lama e esgoto. E no hammam pesa o calor, o cheiro, a forma como as
mulheres se encolhem, como encolhem os ombros, como tm plos fortes e so pobres, no bonitas, receosas.
        No h uma porta  entrada do hammam, h uma cortina. Farzana afasta-a e entra.
        Cho de ladrilhos cheio de gua, um cheiro entranhado a corpos ou a canos, to intenso que o primeiro impulso  cobrir o nariz para respirar. Tudo est na
semi-obscuridade de uma cela, com pequenas janelas junto ao tecto, tecto em abbada e bancos de tbua.
        Aqui  o vestirio. As mulheres pagam e deixam as roupas.
        Depois passam para a sala seguinte, de onde agora sai uma mulher velha, inteiramente nua, a escorrer gua. Apanha um susto ao ver uma cmara, depois ri-se
e faz uma pose na ombreira da porta, quando v que no ser fotografada. Tem os cabelos cheios de henna, muito usada para tingir de vermelho os plos grisalhos,
e mos, ps e unhas em geral.
        Enquanto ela se limpa sem embarao, vo entrando mulheres com crianas, alguidares e jarros de plstico. Mes e avs que ocupam toda a sala seguinte, numa
coreografia de burqas e lenos que se estendem e dobram, enquanto filhos e netos, seminus e com minsculas sandlias de plstico, pasmam diante das trs mulheres
que falam estrangeiro e no se despem.
        Mas duas delas no so estrangeiras.
        O bisav de Farzana viveu aqui, o av de Marzia tambm, e  aqui que elas passam boa parte da vida.
        Percorreram muitas vezes os labirintos de terra batida da Cidade Velha de Cabul, a falar com moradores casa a casa, mais de mil famlias, quando a Fundao
Aga Khan estava a fazer um retrato social deste bairro, Asheqan wa Arefan.
        - So famlias pobres, que vieram de campos de refugiados - diz Marzia.
        Vivem em casas que famlias de Cabul abandonaram h dcadas.
        - A maior parte no tem casa de banho.
        Farzana, bela como uma pintura flamenga, chegou a estudar Medicina.
        - Mas quando casei o meu marido no me deixou continuar.
        Aos 37 anos  me de cinco filhos.
        Marzia no tem filhos. Aos 33 anos,  uma recm-casada. Estudou Farmcia, mas, como muita gente no Afeganisto, no faz exactamente aquilo para que estudou.
H grande falta de mulheres letradas, que possam trabalhar em projectos que envolvam famlias, e a Fundao Aga Khan  uma empregadora activa. Nos centros histricos
de Cabul e Herat, recupera bairros inteiros. Isso significa preservao do patrimnio - edifcios, materiais, artes e ofcios -, mas tambm desenvolvimento - educao,
sade, emprego, esgotos, pavimentos.
        Na Cidade Velha de Cabul, alm da maioria da populao no ter casa de banho com chuveiro e autoclismo, em 20 por cento das casas no h gua, e nas outras
a gua falta muitas vezes ou  difcil aquec-la.
        gua fria no  um problema nestes dias quentes, mas de Inverno neva em Cabul, uma cidade a 1797 metros de altitude, e as montanhas aqui  volta ficam brancas.
        Agora esto cor-de-terra e cada vez mais cobertas de construo clandestina.
        No comeo dos anos 70, Cabul tinha 750 mil habitantes. Agora, os clculos oficiais so de trs milhes, mas o plano de expanso ainda vem do comeo dos anos
70, e todos os dias os clandestinos aumentam.
        So cascatas de casebres incrustados na rocha, trepando encosta acima, num grau de inclinao que parece impossvel. A, no h gua, nem luz, nem esgotos.
Todos os dias se vem crianas a carregar gua.
        Aos que vivem nestas gigantescas favelas, a gente de Cabul chama genericamente panshiris, aqueles que vieram do Vale do Panshir, a nordeste de Cabul, refugiados
de guerra de h 15 anos.
        Mas no vm s do Panshir. Vm do Iro e do Paquisto, onde estiveram refugiados durante anos. Vm de aldeias do centro, do norte e do sul. Vendem nos bazares
e em carrinhos ambulantes. Pedem na rua.
        E estes so os pobres. Depois, h os que aproveitam.
        Conta Joiyon Leslie:
        - Antes, a colina por cima da Cidade Velha estava s ocupada pelas famlias mais marginais, mas agora indivduos poderosos comearam a construir grandes
casas permanentes nas encostas, tendo pago a autarcas e  polcia. O ritmo e a escala de construo ilegal  uma demonstrao vvida de como o crescimento urbano
em Cabul corre numa espiral fora de controlo.
        Responsveis polticos queixam-se de uma "mfia da terra", que ocupa ou confisca parcelas de propriedade pblica, e constri, vende, aluga, especula, usando
os mais pobres.
        O que tambm mostra como os responsveis polticos podem pouco.
        E entretanto as colinas transbordam, por entre um ar cada vez mais amarelo, mais nevoento, carregado com o dixido de carbono dos maus tubos de escape e
de lixo, urina e fezes nas ruas.
        Em Cabul,  exasperante andar de carro por causa do trnsito, misto de carros podres com blides a tentarem esmagar carros podres, motas e bicicletas.
        Mas uma das razes porque pode ser arriscado andar a p  pisar um dos canais de esgoto a cu aberto que existem entre a rua e o passeio em quase todas as
ruas. O que se v l dentro est  altura do que cheira, e esse  um dos cheiros de Cabul.
        De resto, numa cidade onde talvez haja um semforo que funciona, todos os polcias sinaleiros trabalham de mscara e  uma viso frequente nas ruas, afegos
de mscara cirrgica.
        Calcula-se que 70 por cento das doenas em Cabul estejam relacionadas com a poluio. Os militares americanos chegaram a fazer pesquisas para responder ao
alarme de soldados que temiam a maior quantidade de matria fecal no ar do mundo.
        E como Cabul est entre montanhas  por elas que a populao sobe.
        - Isto aumenta a presso no frgil tecido histrico por baixo, e, no havendo servios bsicos, exacerba os problemas ambientais para aqueles que vivem na
Cidade Velha - resume Jolyon Leslie.
        No tempo do bisav de Farzana e do av de Marzia, havia menos gente na Cidade Velha, no havia gente na colina e o velho hammam estava a funcionar.
        Foi a guerra que interrompeu a vida quotidiana deste hammam, agora recuperado. A Fundao Aga Khan passou-o entretanto  gesto de um casal. A sexta-feira,
dia santo no Islo, chegam a juntar-se aqui 400 pessoas. Das 4h s 9h, homens, das 9h s 16h, mulheres e crianas. A entrada so 30 cntimos, com desconto para as
crianas.
Ter um hammam de volta  ter gua, poder tomar banho e dar banho aos filhos.
        - H pessoas que vm aqui todos os dias - adianta a guarda Rahima, 33 anos e quatro filhos, limite mnimo de uma afeg.
        -O hammam  importante para nos limparmos - diz Suraia, 23 anos, na primeira sala onde h gua corrente, e as mulheres manejam pcaros e pequenas bacias.
        Muitas no esto completamente nuas, andam para trs e para a frente de suti e cuecas, embora ensaboadas, cobrindo o peito com as mos.
        A jovem e hirsuta Arifa, cabelo cheio de espuma, vem "duas ou trs vezes por ms" tomar banho aqui.
- Tenho casa de banho, mas prefiro vir ao hammam porque  mais fcil. H mais gua. Em casa a gua no chega.
        A cultura afeg repudia os plos. Os noivos, por exemplo, so depilados antes do casamento, por vezes com mtodos rudimentares e dolorosos. Mas as mulheres
da Cidade Velha como Arifa ho-de ter mais com que se preocupar.
        Uma rapariga muito gorda quer contar como o marido que deixou e est na Alemanha, mas  uma histria demasiada longa para a temperatura ambiente. Nesta ltima
sala, tecto, paredes e cho escorrem gua, e grandes tanques transbordam, fumegantes. As crianas correm, e patinham, e saltam em cima das poas.

Farzana afasta a cortina e sai.
        Depois do hammam, o ar c fora  uma brisa. Em qualquer direco vo por onde se v agora, as ruas so labirnticas, todas de terra batida, todas com mulheres
de burqa azul.
        Uma delas vai agora a passar,  direita do hammam.
        Marzia faz-lhe uma pergunta e ela - voz abafada debaixo de um saco - simplesmente convida toda agente para tomar ch. Porque so uns passos at sua casa,
ali por trs daquele porto.
        E ento ela abre o porto e acontece o que muitas vezes acontece aqui. Uma casa nunca  uma, so vrias, com os vrios filhos casados a viverem  volta de
um pedao de terra ou de ptio.
        C est o ptio, com roupa estendida, e a terra, com rosas, como sempre. Esse  outro dos cheiros de Cabul.
        E entre a roupa, o ptio e as rosas, so uma, trs, cinco, sete crianas, e mais uma, trs, cinco mulheres.
        Aquela que convidou para o ch agora tira a burqa.
        Uma mulher de burqa pode ser uma neta e pode ser uma av. Esta  uma me, sorridente, e com um cabelo que ela vai puxando, puxando da cauda da burqa. Quando
acaba, sem exagero, o cabelo cai-lhe at s coxas, e ela sacode-o, satisfeita.
        Chama-se Kotzia e tem 30 anos. Casou com um dos filhos desta famlia, empregado na companhia de aviao Pamir e homem mais conservador que alguns dos seus
irmos.
        - Comecei a usar burqa s quando casei - diz Kotzia, como quem fala de uma coisa por amor.
        Garante que no se importa.
        J a sua cunhada Harzo, 20 anos radiosos, um beb nos braos e um telemvel na mo, no usa burqa para sair. O que usa, como daqui a pouco se ver,  mscara
por causa da poluio.
        - O meu marido deixa-me andar sem burqa.
        De momento, todos os homens da famlia esto fora. O sexo masculino  representado pelo adolescente Ahmad, que aos 14 anos vai bem encaminhado no papel de
senhor da casa.
        Quando a conversa chegar aos assuntos menos domsticos, dar a sua opinio, e com algumas palavras em ingls.
        A matriarca  Roshangul, que teve cinco filhos e trs filhas.
        Ao contrrio de outras neste bairro, esta famlia no se refugiou em Cabul,  de Cabul. Tajiques.
        - Eu nasci aqui - diz Roshangul, que tem a ponta dos dedos pintada com henna. - Uso o hammam uma ou duas vezes por ms. No Inverno mais, porque  uma forma
de aquecer a gua.
        As mulheres novas estendem um pano por cima dos tapetes e trazem ch, bolo, bombons, po quente. Ahmad, o jovem senhor, diz que "a inflao est muito m,
e que se Karzai fosse boa pessoa no haveria tantos problemas".
        E qual  o problema maior de todos, inflao, desemprego, sade, guerra? Resposta imediata, nesta roda de mulheres e um rapaz:
        - Bombistas suicidas.
        Quase todos os dias h ataques, maiores ou mais pequenos.
        - Todos os dias penso nisso - diz Ahmad. - Vou para a escola, e  uma distncia de quase uma hora, e tenho medo.
        Kotzia teve medo ainda h pouco.
        - Fui ao bazar s compras. Estava cheio, e comearam a falar em ataque. De repente houve umas pessoas que fugiram, e eu s pensei em vir para casa.
        Foi quando passou de burqa  frente do hammam e a vimos.
        Em 1972, quando Cabul tinha quatro vezes menos gente que agora, as meninas da escola andavam de minissaia. Agora do graas por irem  escola, mesmo com
medo e daqui a nada com burqa.
        Nesta casa, a filha mais nova ainda no parece ter idade para ser adulta, mas j tem idade para usar burqa. Com a burqa em cima no se v que idade tem.

        Quando as convido para almoarem comigo, Marzia e Farzana convidam-me para almoar na sede da fundao, onde estive a conversar com Jolyon.
        Os homens comem no jardim e as mulheres na sala de jantar. Arroz, umas bolas de carne a que chamam kufta shalao, curgetes com tomate, po, bananas, ch.
Comemos todas em cima de uma mesa, mulheres de leno preto, azul ou branco, apertado na testa ou cado para o pescoo. Comemos com colher e garfo, como aqui se come.
 raro haver facas.
        Marzia conta-me, at chegar o txi, como ficou sozinha quando a famlia morreu na guerra civil. Os mujahedin dispararam rockets, sobreviveram ela e a me.
Ela, licenciada em Farmcia, foi trabalhar para o Programa Alimentar Mundial, da ONU. Depois mudou para a Fundao Aga Khan. Por isso  que s casou h um ano e
tem 33, quando muitas raparigas j tm filhos grandes. Vi as fotos do casamento no computador dela. Maquilhada como uma libanesa, vestido branco, pose de fotonovela
e marido uns 20 anos mais velho, com pouco cabelo.
s duas da tarde Tareq vem buscar-me para irmos ao estdio.
        O caminho at l passa pela frente da guerra nos anos 90. Fachadas de prdios esventrados por msseis ou carcomidos por metralhadoras, com o recorte das
montanhas ao fundo e o trnsito convulso, como todos os dias.
        Tareq estaciona e sai, com o seu saco de treinar, t-shirt, calas e tnis de marca. Sorri para a minha cmara debaixo do cartaz que diz "Comit Nacional
Olmpico do Afeganisto", e entra, cumprimentando os velhos de barbas  entrada, sentados em cadeiras de plstico.
        O campo de futebol est cercado de arame farpado, com caras de lderes em painis gigantes a toda a volta. Zahir Shah, o ltimo rei. Ahmed Shah Massoud,
o lder da Aliana do Norte assassinado dois dias antes do 11 de Setembro. Hamid Karzai, o presidente ps-11 de Setembro.
        E no meio, sob um cu azul purssimo, um operrio de tronco nu alisa a terra entre as duas balizas como se tudo aquilo no tivesse acontecido - mos e gargantas
cortadas, corpos pendurados de cabea para baixo, as execues pblicas que foram o futebol dos taliban.
        Milhares de pessoas sentavam-se nestas bancadas ao sol, e no havia polegares para cima.
        Isto aconteceu h menos de dez anos. Ontem.
        Fotografo Tareq no campo. No quer ficar com a cara de Massoud por trs. Como muitos pashtun, odeia-o. Antes Karzai.
        Chega o boxeur que ele est a treinar. Baixinho, elctrico, com modstia de discpulo.
Foi apunhalado 16 vezes por ter ganho um combate diz Tareq.
      O boxeur puxa a t-shirt, mostra as cicatrizes.
        Estamos a meio de um corredor sinistro. Paredes escalavradas eco. A sala de treino fica quase ao fundo, do lado esquerdo: um grande rectngulo com uma parede
de janelas, cho de borracha para aparar as quedas, quatro sacos de boxe pendurados no tecto.
        Tareq cala as luvas, pe o capacete de borracha e treina com o discpulo o jogo de ps e o eixo em que os ombros se devem mover, at aparecerem as discpulas.
        Seis raparigas morenas, cobertas com os casacos compridos que as raparigas aqui usam quando no usam burqa, lenos sobre o cabelo, salam!* em coro, olhos
esquivos, covinhas, risos.
        Vo trocar de roupa e quando voltam so uma equipa. Todas de calas e t-shirts pretas da marca de Tareq, quatro de cabelo  vista, duas de rabo-de-cavalo,
duas de braos nus, to afegs como podiam ser brasileiras ou turcas.
Agarram em cordas para saltar. As paredes esto sujas, os colches  encardidos, as janelas cheias de p, h moscas e o ar  pesado.Mas elas saltam muito ligeiras,
franja presa por ganchinhos, tnis Le Coq Sportif dourados e roxos. E o neto do heri pashtun puxa por elas, f-las saltar e depois correr de um lado para o outro,
de frente, de costas.
        O discpulo apunhalado despede-se e sai, com um pssaro iras costas do bluso.
      Tareq faz uma rodinha com as garotas. Vai falando em ingls, para mim.
     - Eu tive 50 raparigas aqui, mas  preciso estabelecer um nvel. As que esto aqui tm de sentir que so as melhores.
        A que ele acha melhor  a de mangas cor-de-rosa a sair da t-shirt, esguia como uma menina impbere, concentrada como um touro.
        E entre puxar por elas e falar comigo telefona  prima, que  a noiva.
        - Est com dores de estmago e tenho de tomar conta dela - explica.
        Dores de ressaca. Na vspera foram a uma festa de aniversrio, a tal em que ia estar Mustafa, o neto do rei, e havia msica, dana e copos.
        As garotas calam as luvas de boxe.
        - Lies para falarem com os media - diz Tareq, como se fosse para elas, mas em ingls. - Quando lhes perguntarem "O que so? Tajiques, pashtun?, respondem:
"No, afegs." Quando lhes perguntarem "Do que precisam?", respondem: "Obrigada, temos tudo o que precisamos, venham ver a nossa aula de boxe."
        Duas a duas, elas comeam a treinar golpes. Uma d, outra defende.
        Nisto entra um homem de blazer cor-de-rato, sandlias, cabelo puxado para um dos lados a disfarar a careca, bigodinho, anel. Tareq cumprimenta-o e apresenta-mo.
 o treinador olmpico, um dos sapos que ele precisa de engolir. Vai para ali fazer de conta que faz alguma coisa.
* Forma abreviada de saiam aleikum, o cumprimento tradicional dos muulmanos.

Fica como um mafioso, a dar ordens s raparigas de mos nos bolsos, enquanto o neto dos Pasha e dos Khan est no meio delas, como o futuro em movimento.
        Tareq deixa-me no Serena Hotel, atacado em Janeiro pelos taliban com um bombista suicida, granadas e tiroteio. Morreram oito pessoas, incluindo um jornalista
noruegus. Agora  um dirio de barricada para a guerra. Pilhas e pilhas de sacos de areia, metralhadoras, muro de ferro, depois detector de metal, outra porta,
e s ento o trio. Jardim sem ningum. Rosas sem ningum. Uma Pastry Shop com uns homens orientais a meio da tarde - quem? No pode haver um cinco estrelas mais
triste.
Um cinco estrelas numa cidade como Cabul.

Janto com Joaquim no jardim do restaurante Sufi. Zabuli e arroz verde de espinafres, belo po, belo ch com leite e cardamomo, bela cermica, 46 dlares para duas
pessoas, incluindo trs copos de um vinho tinto chileno que no vem na lista, claro.
        - Tambm temos cerveja e vinho - acrescenta o anfitrio, quando entrega a lista.
        Joaquim cresceu em Moambique e na Guin, filho de militar. Viveu na Base das Lajes. Juntou-se ao grupo de espeleologia no Algar do Carvo, a gruta da Ilha
Terceira onde andei  procura de obsidiana.
        Est a juntar dinheiro para comprar um barco.  isso que o  mantm aqui.
        Comemos e voltamos noite escura, com os soldados de vigia aos carros, a apontar as lanternas l para dentro.


                                    5 de Junho

        As 7H45 TENHO uma entrevista com Ftima Gailani, mulher de um ministro e presidente de um gigante, o Crescente Vermelho* no Afeganisto.  praticamente nossa
vizinha. Ento, Abder Rahman, o mais sonolento dos rapazes do Kabul Lodge, escolta-me at ao fim da rua, depois  esquerda, passando as embaixadas da ndia e da
Indonsia, e novamente  esquerda, por uma ruela poeirenta e cheia de pedras.
        A casa de Ftima fica por trs de um porto, num terreno outrora comum ao do Kabul Lodge que pertencia inteiramente  famlia dela. Ao porto, um 4x4 reluzente,
guarda-costas e rosas. Um rapaz leva-me escadas acima. Patamares acabados de lavar, cheios de sol e de plantas. E depois, dentro de casa, bons tapetes, bons veludos,
bons sofs, coffee table books, bombons e frutos secos em frascos, retratos do rei Zahir Shah, de vistosas raparigas de cabea descoberta e de uma vistosa mulher
que  a prpria Ftima.
        O visitante tem o tempo certo de observar tudo isto at ela aparecer.
        Muito morena, de tnica castanha, Fatima Gailani vem fresca do banho e de perfume, com ar acabado de acordar mas cabelo de cabeleireiro, madura nos seus
50 e tantos cuidados como os de uma ocidental que se cuide.  um animal social, uma anfitri.
        So oito da manh e isto vai ser um pequeno-almoo. A mesa est posta para duas pessoas, com queijos, compotas, chs, caf, mangas maduras.
        Estas mangas, que vm do Paquisto no so parecidas com as que se comem na Europa. Ftima oferece uma e perante a recusa sorri e ensina:
        - Comem-se assim...
* Equivalente islmico da Cruz Vermelha.

        Com a ponta da faca corta a manga a toda a volta do caroo, depois agarra cada uma das pontas e torce-as em direces opostas. Uma metade vem vazia, a outra
com caroo. A essa, arranca-se o caroo pelo mesmo mtodo, e ambas se comem ento  colher.
        Tudo isto  o tempo de quebrar o gelo.
        - O Crescente Vermelho tem exactamente o mesmo papel na vida das sociedades que h cem anos. Orfanatos, cuidar das vivas, instalaes para deficientes,
desastres naturais.
        E queremos ser uma organizao neutral, cuidar das vtimas da guerra, de todos os lados.
        Com 4100 voluntrios, trabalham em acordo com a Cruz Vermelha.
        - Nas catstrofes, por exemplo, a Cruz Vermelha avana primeiro. E so eles que levam as cartas aos prisioneiros, que falam com os taliban para ajudarem
os voluntrios do Crescente Vermelho.
        Estando  frente de uma instituio destas, Gailani ter simultaneamente contacto com a elite que decide e com as franjas que mal sobrevivem.
        Nas franjas, as mulheres esto no fim. Pai, marido, irmos e sogra decidem por elas. Muitas so foradas a casar e tm filhos sem intervalo at deixarem
de engravidar. Muitas no podem estudar ou trabalhar, nem tm acesso a cuidados de sade. H estudantes e professoras perseguidas, escolas queimadas.
        Como v Ftima Gailani a situao das afegs?
        - H quem ache a minha posio chocante. Eu acho que no  possvel lutar contra o Islo no Afeganisto.

         preciso encontrar uma soluo dentro do Islo e tm de se procurar solues prticas.
        Exemplos?
        - Em todas as conferncias a que fui se questionava o facto de as mulheres s terem direito a metade da herana que os homens recebem. O meu ponto de vista
: vamos assegurar que ficam com metade, porque hoje no ficam com nada. E como defendo isto? Dizendo: abram o Coro e vejam.
        Ftima Gailani estudou Direito Cornico e a sua famlia cr descender directamente de Maom.
        - O que quero para as mulheres no Afeganisto  dentro da minha religio, mas quero-o. Porque hoje nem isso temos. Se quero educao para as mulheres no
vou para a aldeia pedir ao im que diga que  melhor para as mulheres. Peo-lhe que abra o Coro e leia que a educao  para mulheres e homens.  preciso falar
a linguagem do Coro.
        E a margem para interpretao, que tem permitido tanto, quase tudo?
        - No h interpretao quando o Coro diz que toda a mulher e todo o homem tm de ler e escrever.
        Foi assim que Gailan ajudou a negociar direitos para as mulheres quando se discutiu a constituio do pas, depois da queda dos taliban.
        - Trabalhei na constituio, como investigadora islmica. Tive c em casa uma tribo com 40 e tal homens, nem cabiam. Fomos para o jardim. Eles disseram:
"Queremos as regras para as mulheres de acordo com o Coro." E eu disse: "Claro." E eles disseram: "E de acordo com as nossas tradies." A eu perguntei: "Quais
tradies? Aquela em que a mulher no recebe nada de herana? Aquela em que para pr fim a uma srie de vinganas entre duas famlias se d uma menina  famlia
inimiga? Se esto a referir-se a regras horrveis sobre as mulheres, o meu antepassado, que era o profeta, lutou contra e eu lutarei contra. Escolham entre as vossas
tradies e o Islo. No podem ter ambas, porque so contraditrias." E eles disseram:
Certo, certo. Esquea as tradies."
E a poligamia, contemplada no Coro?
        - Nunca a defendi, mas se algum casar com uma viva, prefiro isso a que ela esteja num bordel. Sabia que a primeira mulher do profeta era uma viva? Esta
 a minha religio. Tambm no gosto de muitas coisas na vossa religio.
E aqui Ftima est a dirigir-se s feministas ocidentais e s organizaes internacionais em geral.
        - Deixe-as pensar que no sou uma feminista a srio. Estou-lhes grata por terem mantido acesa a questo dos direitos das mulheres e se manifestarem na ONU
quando ns no podamos falar. Mas sou uma pessoa muito prtica. No me rendo a bandeiras impossveis de aplicar. Quero uma bandeira que no possa ser questionada.
Tenho 54 anos, fao as coisas degrau a degrau.
Se no  possvel ajudar as mulheres em geral, ajudam-se uma a uma,  esta a ideia.
        - Tenho 200 mulheres vivas? Fao algo por 200. Amanh farei por uma. Uma pedinte que ajudmos est agora no primeiro ano da universidade.
        O Crescente Vermelho tem cinco marasstun ("abrigos para vivas, rfos, velhos, doentes mentais") em Herat, Jalalabad, Mazar-i-Sharif e Cabul. E o programa
de incentivo  literacia e formao das mulheres vivas comeou h trs anos e meio.
        - Damos-lhes o salrio de duas professoras e um apartamento, como se o marido estivesse vivo. A ideia  que depois de um tempo tenham dinheiro para uma casa.
Dizemos-lhes: "Vamos abrir uma conta no banco para ti. Mas tens de ter aulas de literacia e depois escolher uma destas formaes: costura, doaria, secretariado
ou cozinha."
        O que  simultaneamente uma forma de recuperar a memria colectiva, defende Gailani.
        - A nossa cozinha est morta. Por exemplo, os doces da Festa do Sim, que  antes do casamento, esto perdidos. Esta guerra matou tudo no nosso pas, no
foram s os budas de Bamiyan, e eu quero reviver a nossa cultura.
        Pousa o guardanapo e sorri. Est terminado o pequeno-almoo.
        culos escuros, leno a cobrir o cabelo, motorista a abrir a porta do todo-o-terreno no jardim.
        A senhora Gailani vai comear o seu dia.

        Mal volto ao Kabul Lodge, liga Jean McKenzie, em resposta aos meus e-mails.  a representante em Cabul do Institut for War and Peace Reporting, que treina
e incentiva jornalistas em partes inspitas do mundo. Tem coordenado a cobertura de jovens afegos em provncias onde os media ocidentais no vo, ou s vo emhedded,
sem contacto com as populaes. Traduzidos em ingls no site do instituto, estes relatos so toda uma fonte alternativa de informao sobre o que se passa neste
pas, fora dos holofotes.
        Eu fiz contactos para um embedment em Kandahar, quero ver o que as tropas fazem, mas tambm quero fazer uma viagem a Kandahar para estar entre os afegos.
Imagino que Jean tenha contactos l.
        Por sorte, ela est a ligar do carro a duas ou trs ruas daqui e aparece em minutos, muito inglesa, loura, de olhos azuis, embrulhada no seu leno.
        Enquanto bebemos ch sob o alpendre do Kabul Lodge, conta-me que foi correspondente na Rssia, que vive em Cabul h quatro anos e trabalhou em Helmand, um
bastio das papoilas onde os combates esto ferozes. O governo britnico ficou furioso com ela depois de o site do instituto ter publicado uma histria sobre afegos
mortos pelos americanos, e ps fim ao financiamento. Jean vem justamente de um encontro com nrdicos, de quem espera ter apoio. Entretanto, o instituto vai funcionando
em casa dela.
        Depois de Jean partir, vejo no site do Comit Internacional da Cruz Vermelha que a assessora de imprensa em Cabul fala portugus, e est l um nmero de
telemvel. Ligo, ela atende,  brasileira, Graziella Leite Piccolo.
        - No quer ir almoar a minha casa e conversamos l?
        Ento ao meio-dia apareo na guest house da Cruz Vermelha no bairro de Wazir Akbar, zona de embaixadas e instituies.
        Todas as organizaes internacionais em Cabul tm pelo menos uma guest house onde vivem os funcionrios estrangeiros, segundo regras rgidas, consoante os
nveis de segurana - carrinhas shuttle para irem para o trabalho; horas de entrada e sada variadas por causa dos raptos; listas de restaurantes e lugares pblicos
permitidos; proibio de andar a p e de conduzir; recolher obrigatrio.
        Sempre que h um atentado, os nveis de segurana sobem.
        Por isso, os estrangeiros almoam muito no trabalho ou em casa, onde h sempre um cozinheiro. Basta chegar  hora de comer, normalmente por volta do meio-dia.
 o que acaba de fazer Graziella, para alegria de Gandhi, o co afego de cinco meses que ela adoptou e agora corre imparvel pelo jardim.
        Os afegos,  semelhana da maior parte dos orientais, no tratam os ces como animais domsticos. No lhe tm amor.
        Mas Graziella  brasileira e Gandhi  um co leliz.
        A casa est "um pouco arranjada" por ela. Ou seja, nada de arrebiques do kitsch afego. Livros sobre pashtum ao lado de livros sobre lei humanitria, um
tapete colorido na parede, sofs baixos, espao.
        Graziella podia ser biloga marinha ou isto mesmo, uma trabalhadora humanitria que ontem estava no Uganda e hoje est em Cabul, com umas calas de algodo
confortveis e sem pintura na cara, loura e magra, simptica sem excesso.
        O cozinheiro tem barbas e vem apresentar-se, a sorrir muito. Comemos arroz, batatas fritas, uns feijes verdes, pedacinhos de carne, e no fim um bolo que
ele fez, com ch verde.
        Falamos de dois projectos da Cruz Vermelha que quero ver, o centro ortopdico onde esto as vtimas de minas e o programa que permite aos prisioneiros de
Bagrani falarem com os familiares atravs de telefone e vdeo.
  Graziella est farta da lista de lugares autorizados onde pode ir e faz perguntas sobre os lugares onde no pode ir.
        Depois, antes das duas, vai apanhar o seu shuttle numa espcie de paragem na esquina. Aparece uma mulher de outra organizao e ali ficam as duas,  espera.

Eu sigo para casa de Fauzia. Esta  a tarde em que ela abre as portas ao povo.

         uma casa perto do Parlamento, discreta por fora e cheia de dourados por dentro.
        s duas da tarde j h 15 pares de sapatos nos degraus da entrada.
        Quando se entra,  esquerda  a sala de espera, pequena, s com tapetes, e  direita  a sala de receber, grande, cheia de sofs.
        Na sala de receber, a nica coisa antiga e pessoal  uma fotografia a preto-e-branco do pai de Fauzia, o tal que casou sete vezes, um homem melanclico e
igual a ela.
        H um tapete com o mapa do Afeganisto numa das paredes, e  a que Fauzia se senta, de agenda no colo, papel e caneta, pronta a tomar notas.
        Entra um homem de fato ocidental e rosto mongol, como os hazaras. Ele fala delicadamente e depois fala ela, a grande velocidade. O visitante est preocupado
com o poder dos pashtun. No Badakhshan domina a etnia tajique. Fauzia  uma tajique.
        Depois entram nove homens, uns de ps nus, outros com meias, uns com pobres tnicas, outros com maus fatos. Discutem a construo de uma escola. Um tira
uma folha de dentro de um plstico.  um abaixo-assinado. Fauzia escuta e l, muito sria.
        A nica mulher da tarde vem a seguir, embrulhada em lenos e tnicas e com culos.  uma afeg que trabalha para a ONU e quando falam as duas em dari, Fauzia
usa expresses em ingls gnero to be on the safe side, como se fizessem j parte do dari. Discutem direitos das mulheres.
        A seguir vm estudantes da Faculdade de Economia de Cabul, tajiques. No usam barba, cheiram a aftershave, vestem jeans. Um deles fala de uma bolsa Fulbright
e tambm se queixa do poder dos pashtun.
        L fora esto j 32 pares de sapatos. Na sala de espera h trs muletas encostadas  parede, homens deficientes, de ps rugosos e sujos, rapazes de ar atordoado,
sentados em almofadas no cho, como  tradicional.
        Entretanto, Fauzia est a receber um enorme grupo de turbantes, mantos e outros trajes tpicos. E assim ser tarde fora.


        Entre as duas salas, no trio de entrada, h um guarda-roupa. De um lado esto os sapatos muito femininos de Fauzia, com saltos e apliques. Do outro esto
os sapatos das filhas, com presilhas e laos.
         uma casa sem homens.
        A festa de arte afeg para a qual Jolyon Leslie me deu um convite  hoje, ao fim da tarde, mas como vai acontecer aos ps do Jardim Babur apanho um txi
duas horas antes at ao cimo da encosta, onde comea o jardim e est o tmulo de Babur.
        Poucas personagens da Rota da Seda sero to magnticas, e de nenhuma outra poderemos saber tanto, porque Zahiruddin Muhammad Babur, poeta, imperador e inventor
de jardins,  tambm o autor da primeira (e provavelmente, at hoje a mais requintada) autobiografia da literatura islmica, baburnama (O Livro de Babur).
        Viveu quando os navios portugueses avanavam pelo Atlntico, pelo ndico, e depois  volta do mundo. Foi contemporneo de Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral
ou Ferno de Magalhes. Eles pertenciam ao mar aberto e Babur ao mundo interior que  a sia Central, feita de estepes, desertos e montanhas.
        Descendente de Gengis Khan pelo lado materno e de Timur pelo lado paterno, Babur nasceu a 14 de Fevereiro de 1483 no reino de Fergana (hoje Uzbequisto)
onde a sua famlia reinava h mais de um sculo. Tornou-se rei aos 12 anos, sucedendo ao pai, mas a rivalidade dos tios afastou-o da corte. Aos 13 reuniu um exrcito
para cercar Samarcanda. Aos 15 conseguiu capturar a cidade por cem dias. Aos 16 casou pela primeira vez sem deixar o combate. Aos 17 retomou Samarcanda mas foi vencido
pelos uzbeques. Aos 18 desistiu e voltou-se para sul. Tinha 21 anos quando tomou Cabul, o seu paraso possvel. E foi a partir destas montanhas que se fez  conquista
da ndia, onde fundou o Imprio Mogol*, uma dinastia que durou at os britnicos chegarem.
        Eis ento um homem que conheceu a queda antes de ascender. Aos 20

* (Corruptela de mongol. O Imprio Mogol  parcialmente herdeiro do Imprio Mongol de Gengis Khan.

anos j viveram meia vida de derrotas. Que mais podia perder depois de Samarcanda?
        Um neurastnico talvez murchasse nisto, mas Babur no era Dom Sebastio. Tinha muito apetite em todos os sentidos. Dessem-lhe uma nascente de montanha, ele
bebia-a e concebia um jardim. Dessem-lhe a encosta de uma colina e ele reconheceria "32 ou 33 variedades de tlipas". Dessem-lhe meles doces, uvas, vinho, pio
e ele fazia uma festa. Dessem-lhe mulheres, concubinas, amantes ou aquele rapaz por quem vagueou "como um louco" de cabea descoberta e ps descalos. Dessem-lhe
filhos, descendentes, continuadores, cidades para fazer suas, cabeas de inimigos. Dessem-lhe noites para ficar  lua a rimar uma ghazal*. O mundo era a sua ostra.
Um permanente desfrute.
        Se no podia ganhar a norte que fosse a sul, e foi assim que Babur tomou este formidvel vale entre montanhas.
        O orgulho afego  muito resistente, e os de Cabul no precisam de quem vem de fora para o elogio da paisagem. Eles sabem. Mas os estrangeiros talvez no
saibam.
        Babur encantou-se  chegada, e no fim da vida, quando toda a ndia era sua, foi em Cabul que quis ser enterrado.
        Que conta ele da cidade-e-tudo--volta no Baburnama?**
        Pois que "o clima  excelente". Alis, "na verdade no se sabe de lugar algum no mundo que tenha um clima to agradvel".
        Na Primavera e no Vero "no se consegue dormir  noite sem um cobertor de plo". E no Inverno, embora aconteam "pesadas quedas de neve", o frio "no 
excessivo".
        Depois, " um excelente centro mercantil", entre o mundo persa e o mundo hindu. "Vm caravanas de Fergana, do Turquisto, de Samarcanda, de Bukhara, de Balkh,
de Hissar e do Badakhshan." Ou seja, de todas as direces, o que faz que em Cabul tanto se encontrem bens da China como da Anatlia ou do Iraque.
        "Perto h regies tanto com clima quente como frio.  distncia de um dia a cavalo  possvel chegar a um lugar onde a neve nunca cai. E em duas horas podemos
ir aonde a neve nunca derrete - a no ser nos raros Veres to extremos que toda a neve desaparece. Tanto as frutas tropicais como as fios climas frios existem nas
regies dependentes de Cabul, que so prximas. Entre as frutas de clima frio abundam as uvas, as roms, os alperces, as mas, os marmelos, as pras, os pssegos,
as ameixas, as jujubas, as amndoas e as nozes. Eu mandei vir e plantar uma gingeira. Deu-se bem e cada vez est melhor." Tambm mandou vir e plantar bananeiras
e cana-de-acar:
        De resto, "muito mel vem das montanhas  volta", "o ruibarbo  excelente", "uma variedade de uva chamada ab-angur  soberba" e "o vinho de Cabul  embriagante".
E neste ponto o devoto muulmano Babur cita um par de versos:

S o bebedor conhece o prazer do vinho.
Que prazer pode o sbrio tirar dele?

        Ao longo do Baburnama so constantes as referncias ao vinho e a celebraes brias. O imperador chegou a instar uma mulher a beber junto dos homens.

* Forma potica do mundo indo-persa-arbico constituda por vrios pares de versos. Descende da qasida.
**A edio consultada  a que tem traduo, edio e notas de Wheeler M. Thackston, prefcio de Salman Rushdie, Nova Iorque, Modern Library 2002.


        Este e outros actos de Babur seriam hoje punidos em vrios pases islmicos, a comear pelo Afeganisto. Mas Babur no deixou de ser crente por pratic-los.
Tudo pde conviver nele, e  a afirmao dessa complexidade individual que parece to espantosa face  normalizao contempornea. O passado  o melhor argumento
contra o presente.
        Que mais diz Babur de Cabul? Que a provncia "est bem fortificada e  difcil a inimigos estrangeiros invadi-la". No entanto, para ocidente, "assaltantes
de estradas vm das montanhas e desfiladeiros e capturam os viajantes". Nisto, o presente anda bastante a par do passado.
        Quando Babur morreu, em 1530 - era Ferno Mendes Pinto um rapaz  espera de se fazer ao mar -, enterraram-no primeiro em Agra, a cidade indiana onde arquitectara
um dos seus mais belos jardins.
        Babur detestava a ndia. Achava que no tinha beleza, harmonia, simetria, banhos, nem gelo. Alm disso era plana.
        Os nacionalistas hindus pagaram-lhe na mesma moeda, detestando-o como um profanador de templos. E em 1992 - um pico da tenso entre muulmanos e hindus,
com centenas de mortos na ndia - demoliram a mesquita que ele construra em Ayodhya, na provncia de Uttar Pradesh. O episdio  lembrado por Salman Rushdie, num
prefcio ao Baburnama.
        Os filhos de Babur cumpriram-lhe a ltima vontade, e aps a sua morte, em 1530, trasladaram-no para o jardim favorito em Cabul, este mesmo, Bagh-e-Babur
(Jardim Babur).
        Depois, o Imprio Mogol durou mais de 300 anos. O ltimo sucessor de Babur "morreu no exlio em Rangun em 1862, para abrir caminho  Rainha Vitria", remata
Robert Byron em The Road to Oxiana*.
        Os antigos chamavam Oxiana (hoje Uzbequisto e Tajiquisto)  regio a norte do rio Oxus (hoje rio Amu Darya). A terra natal de Babur ficava portanto na
Oxiana.
        Quando lhe seguiu os passos sculos depois, Robert Byron levou consigo um exemplar de Baburnama, impressionado com a "qualidade de esprito" ali guardada.
As memrias de Babur, notou, mostram um homem "to honesto consigo prprio como com os outros" e "to interessado no mundo natural como no poltico, e por isso capaz
de assinalar factos como a distncia que os sapos indianos so capazes de nadar". O retrato  de tal forma real que "quase o podemos ouvir falar", mesmo em traduo.
        Babur no escreveu em persa, a lngua culta mais usada, e sim em chagatai, a lngua do mundo turco-mongol. Mas como o original desapareceu, foram as verses
persas embelezadas que fizeram caminho at ao incio do sculo XIX, quando reapareceu o texto em chagatai. S ento comearam a circular tradues directas para
ingls e outras lnguas.
        E a partir da, de Samarcanda a Agra, de Herat a Kandahar, Babur parece acompanhar todos os escritores viajantes nesta parte do mundo, antes e depois de
Robert Byron.

* Nova Iorque, Oxford University Press, 1982 (edio original, 1937), a traduzir num dos prximos volumes desta coleco. Partindo de Veneza em 1933 e regressando
a Inglaterra em 1934, Robert Byron (parente afastado de Lord Byron) atravessou o Mdio Oriente e a sia Central, incluindo duas estadias no Afeganisto. A viagem
resultou num dos mais influentes livros de viagens do sculo XX. Bruce Chatwin escreveu que The Road to Oxiana era a "obra de um gnio", mais ainda, "um texto sagrado",
e viajou com o seu exemplar para toda a parte at ele perder a lombada e ficar cheio de humidade.


E.M. Forster dedicou-lhe uma pequena biografia* onde diz: "Estes conquistadores sanguinrios e triunfantes tm geralmente defeitos que os
tornariam intolerveis como companheiros. {...} Mas que felicidade ter conhecido Babur! Ele tinha tudo o que procuramos num amigo."
        E no romance Passagem para a ndia, Forster pe o mdico Aziz a descrever assim o imperador a uma inglesa: "Quando combatia, caava ou batia em retirada,
parava sempre por algum tempo entre as colinas, como ns; nunca abdicou da hospitalidade e do prazer. E se havia apenas um pouco de comida mandava arranj-la da
forma mais agradvel. E se havia apenas um instrumento de msica fazia com que tocasse uma melodia maravilhosa. Tomo-o como meu ideal. {...] Nunca na vida Babur
traiu um amigo, portanto s posso pensar nele esta manh. E sabe como morreu? Deu a vida pelo filho. Uma morte muito mais difcil do que batalhar. Foram apanhados
pelo calor. Deviam ter voltado para Cabul no Inverno, mas no puderam por razes de estado, e Humayun [o filho] caiu doente em Agra. Babur deu a volta  cama trs
vezes e declarou: "Levo o mal daqui." E levou. A febre deixou o filho, entrou nele, e ele morreu."
        No seu prefcio ao Babumama, Salman Rushdie conta que ouviu a lenda da morte de Babur na adolescncia e ficou muito impressionado: Horrorizara-me a prontido
no natural com que Abrao sacrifica o seu filho alegadamente amado - Isaac, de acordo com o Velho Testamento, Ismail na verso muulmana. Seria isso que o amor
de Deus levava os pais a querer fazer? Era o bastante para nos pr de p atrs em relao aos nossos pais. A histria de Babur serviu como antdoto. Nela, o amor
de Deus era usado para tornar possvel o sacrifcio oposto, e de algum modo mais natural: o pai a morrer para que o filho vivesse. A histria de Babur e Humayun
alojou-se profundamente dentro de mim como conto paradigmtico do amor paternal."
        Rory Stewart - o tal escocs que escreveu The Places in Between, a odisseia afeg a p - segue a rota de Babur e quando a meio adopta um co d-lhe o nome
de Babur. De modo que na segunda metade do livro aparecem frases do gnero "levei Babur a beber ao rio e ele aterrorizou uma mulher que se tinha agachado debaixo
da ponte a fazer as suas necessidades".
        J Peter Levi, o erudito jesuta que foi com Bruce Chatwin ao Afeganisto em 1970, imagina o imperador no seu cavalo, armado de arco e flecha a caar rinocerontes
- mas tambm a lembrar-se de uma macieira como da primeira batalha perdida. Porque Babur, em suma, "no  como mais ningum".
        O prprio Chatwin termina o seu Lamento pelo Afeganisto** invocando as coisas afegs de que gostava, e entre elas h esta: "No mais leremos as memrias
de Babur no seu jardim em Istalif e veremos o velho cego a farejar o seu caminho entre roseiras."
        Nos arredores de Cabul, Istalif  um dos muitos jardins na histria de um homem que se nada mais tivesse feito ficaria na histria como paisagista visionrio,
criador do charbagh, o jardim mogol quadrangular com avenidas de gua, de que na ndia h exemplos esplendorosos, como o de Agra ou o Taj Mahal, encomendado por
Shah Jahan, trineto de Babur.
        E esta herana faz parte dos afegos. Nunca vi to forte dedicao s flores. Parece estar acima de tudo e a tudo ser imune. No meio do trnsito mais txico
h rotundas com rosas lindas em Cabul.

*"The Emperor Babur", na colectnea Abinger Harvest, Harvest/Harcourt Jovanovich, Publishers, s/l, s/d.

** In O Que Fao Eu Aqui, traduo de Jos Lus Luna, Lisboa, Quetzal Editores, 1993.

        Todos os afegos so rose-lovers, escreveu Robert Byron.

O Jardim Babur esteve em runas durante anos, baixa colateral de vrias guerras.
         A Fundao Aga Khan comeou a recuper-lo em 2002, depois da queda dos taliban.
        Ao cimo, no pequeno mausolu de mrmore a cu aberto onde est o tmulo de Babur, tudo parece acabado de fazer - os rendilhados na pedra branca, a erva muito
verde, as rvores  altura de um homem.
        L dentro h afegos de tnica e o guia Omar de farda azul como se fosse um operrio. Mostra a credencial e desata a falar de Babur num ingls de Tarzan.
 natural que aproveite porque no h tantos turistas assim. Na verdade no h nenhum. O tmulo  em mrmore branco, ocre e negro. Parece pequeno para tanta histria,
mas Babur, afinal, era s um homem. E do exterior do mausolu avista-se o jardim como ele o ter sonhado, 11 hectares deslizando pela encosta, patamar a patamar,
uma cascata verde, frondosa, florida, com relvados, rosas, pltanos, olaias, cerejeiras.
         esquerda e  direita, a montanha - ocre, com um vu de p, cheia de construo clandestina.
        No meio, uma miniatura do paraso - mas para todos. Nos pases islmicos, quinta-feira  a antecmara do fim-de-semana, e nesta doce tarde de quinta-feira
o jardim que Babur encheu de festas, recepes e reunies enche-se de famlias, de homens e rapazes, de crianas a meterem os ps na gua.
        A gua corre ao centro, descendo por um canal que a cada patamar encontra uma piscina.
        No patamar por baixo do mausolu, um rapaz e uma vassoura descansam  sombra da pequena mesquita de mrmore construda por Shah Jahan (o activo trineto de
Babur) para comemorar a conquista da lendria Balkh (quase dois mil anos depois de Alexandre, o Grande).
        Mais abaixo, caminham dois rapazes, um de tnica, outro de camisa ocidental, ambos sem barba. Mas tambm h barbudos deitados  sombra. E entre as rvores
e os arbustos de rosas brancas, prpura e cor-de-rosa, vem-se as manchas azuis das burqas que as mulheres, quase todas, atiraram para trs da cabea. Assim, a burqa
parece um manto e o vento refresca a cara. Est calor mas vento.
        Uma famlia vem a descer e as mulheres enfunam como bales. Trs bales azul-burqa e um balo laranja-vermelho, que  a tnica da mais nova. O nico homem
 jovem, barbeado, est de tnica e colete de reprter, e leva um beb ao colo. H outro beb e crianas mais velhas que j andam. O mais provvel  que a mulher
mais velha seja me do homem, a mais nova seja mulher e as outras sejam cunhadas ou irms.  muito comum, como na famlia vizinha do hammam, que  volta do mesmo
ptio as mulheres se cubram mais e menos, consoante o marido.
        Quando os fotgrafos, sorriem todos, e a mais nova continua a sorrir enquanto se afasta, voltando a cabea para trs, com o seu leno esvoaante e as suas
sandlias de salto alto.
        Os afegos vibram nas fotografias. Esto ali como se vissem atravs de ns.
        O jardim desagua no caravanarai. Ao longo da Rota da Seda, os caravanarais so a arquitectura da antiga hospitalidade. Era neles que as caravanas paravam
para dar de beber e comer a cavalos e camelos, descansar das estepes e dos desertos, sem nada lhes ser cobrado. Vendiam-se mercadorias e armas, trocavam-se informaes
e poemas.
        Cabia aos poderosos, por tradio e por interesse, construir uma rede para assistir os necessitados, o comrcio e a comunicao.
        A estrutura clssica de um caravanarai  uma fortificao quadrangular com um grande ptio ao centro rodeado por arcadas, no interior das quais h quartos
ou nichos. O nico em que dormi, na capital do Curdisto turco, Diyarbaquir, continua a funcionar como estalagem e parece vasto demais para este tempo sem caravanas.
Na vspera da guerra do Iraque estava quase deserto, mas  noite, com uma luz que parecia de fogueiras, no era difcil imaginar os camelos a dormirem nas lajes
do ptio. Foi construdo no sculo XVI.
        O caravanai do Jardim Babur ter sido encomendado no sculo seguinte - por Shah Jahan, mais uma vez ele - para que os pobres pudessem "comer as suas refeies
abrigados das durezas da neve e da chuva"*
        Fotografias de 1915 ainda mostram um edifcio com dois pisos e depois o sculo XX ter feito o seu trabalho. No restava nada no caravanarai no ano em que
a Fundao Aga Khan comeou a recuperar o jardim. Foi preciso escavar para descobrir as fundaes. O que aqui est agora, imponente, com dois pisos de arcadas em
pedra ocre,  uma recriao.
        Quando entro, vindo do jardim, ainda  cedo para a festa mas parece estar tudo pronto: bancos de pedra no meio do ptio cobertos por tapetes
e almofadas; cartazes a dizer Afghan Contemporary Art Prize com dez finalistas; uma pequena plateia de cadeiras; seguranas de cabelo  escovinha a vasculharem os
cantos.
        H uma incongruncia em tudo isto, que se abarca num s olhar - o
jardim imperial, os clandestinos na montanha, arte contempornea em Cabul e ocidentais de colete  prova de bala, armas e walkie-talkies.
        Se uma famlia da Cidade Velha tem medo de um atentado, imagine-se uma festa de diplomatas e humanitrios como esta. Os taliban aprenderam com Bin Laden.
Um estrangeiro  um acepipe.
        Mas no fui a primeira a chegar. Sentada num dos bancos de pedra est uma rapariga que no parece afeg como-as-afegs-esto, a comear pelo olhar, autnomo
como se nada a pudesse atingir.  esguia, tem o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo, camisa e jeans pretas justas, leno vermelho, brincos, pulseiras e uns culos
que de certeza no foram comprados em Cabul.
        Acertei nisso e errei no principal - os culos so suos mas ela  afeg. E balana as pernas, com os braos apoiados para trs.
        Parece absurdo ir-me sentar noutro lugar quando ela est ali. Somos as nicas mulheres, portanto aproximo-me e em cinco minutos estou presa  histria.
        Chama-se Zubaida Akbar. Estuda numa escola sua perto de Lausanne.  fotgrafa e tem um site (anota zubaidapho-tography.wordpress.com no meu caderno). O
pai, escreveu um livro sobre o 11 de Setembro chamado The Last Season. A famlia vive em Cabul e ela tem vrias irms.
        E antes que eu perceba que idade tem aparece Rameen, de jeans e t-shirt branca CK, Came from Kabul, porque no apenas est a tentar entrar no mundo artstico
afego, como trabalhou para a Turquoise Mountain Foundation, um dos organizadores da festa  amigo dele e, quanto a arte, este  o stio para estar hoje.
        Ento apresento-os. Rameen-Zubaida, Zubaida-Rameen. Ambos sorriem, mas o levemente constrangido  ele. Ela continua a balanar as pernas, olhando-o a direito.
Ele pergunta-lhe onde estuda e  nesse momento que Zubaida fala em liceu. A escola sua no  uma universidade, como eu pensara, mas um liceu. Zubaida tem 18 anos.
No h mulheres de 18 anos assim na Europa.
        * Padshahnama, o livro que Shah Jahan encomendou para que a sua histria fosse contada. Citada em Aga Khan Historic Cities Programe, 2007

        Rameen circula, ela fala dos seus antepassados rabes e uzbeques e entretanto o ptio fica cheio.
        Diplomatas, humanitrios, guarda-costas com ar de mujahedin, polticos afegos demasiado gordos para os fatos.
        Aqui uma britnica desenhadora de jias cheia de pulseiras e anis e longos caracis, ali uma afeg realizadora de cinema. Rapazes ruivos que vivem no Afeganisto
e falam dari, rapazes afegos com gel que vivem no estrangeiro e falam ingls.
        A rapariga que organizou isto foi namorada de Rory Stewart, diz Rameen.  o primeiro prmio de arte contempornea no Afeganisto e os dez semifinalistas
j chegaram ou vo chegar. Um deles, alis, est a causar um burburinho  porta. Trouxe 15 convidados - 15 - , todos homens era shalwar kamiz, alguns com chinelos
de borracha e ndoas. Revistam-nos  entrada como se revistassem suspeitos. Os seguranas, com pastores alemes tensos, presos pela coleira, parecem bodybuilders.
        - Acho isto muito ofensivo, terem trazido para aqui ces - diz Zubaida.
        No  a nica. Comprovadamente, o co  um animal impuro nesta parte do mundo.
        Circulamos as duas pelas obras dos finalistas (instalao, pintura, escultura, fotografia, vdeo) expostas no piso de cima, quarto a quarto. O mais interessante
 o perfil de Zubaida contra a fotografia de uma mulher de burqa com um melo debaixo do brao. Mas talvez eu no tenha visto tudo.
        Enquanto os convidados circulam, h msicos a tocar, sentados nos tapetes e nas almofadas do ptio.
        Depois, toda a gente conflui para junto do estrado onde vo comear os discursos. O vento sopra nos microfones. Os intervenientes so interminveis, culminando
no ministro afego da Cultura e Assuntos da Juventude, to gordo como Vasco Santana, mas sem covinhas nem nada que faa rir.
        - Um carniceiro, um carniceiro - sussurra Zubaida.
        E os guarda-costas de barbas e shalwar kamiz, com as suas AK47 e os seus cintos de munies e as mos dadas a rapazes imberbes. Um deles, a meu lado, balana
a sua mo na mo do rapaz como um namorado numa cena kitsch, e depois faz-lhe festas.
        Com o olhar pousado em tudo isto, Jolyon Leslie  um mistrio. Quieto, calado, mos postas  frente. Toca ao de leve com os dedos quando cumprimenta, como
um religioso desconfortvel com mulheres. E quem so estes rapazes, de pele, cabelo e sardas saxnicas, mas barbas de muulmanos?
        Zubaida est to cansada como eu. Sentamo-nos nas costas de toda a gente, voltadas para o recorte da montanha, e ela fala.
        - No vai haver paz em breve. No vai haver direitos iguais para as mulheres j. Insiste-se nos direitos das mulheres e nos problemas tnicos entre pashtun,
tajiques, uzbeques e hazaras para que no se vejam os erros que os americanos fazem aqui. Acho que a vida da maior parte das mulheres no mudou. A iliteracia  o
maior problema. Mas no se pode lutar contra a religio. No se pode forar algum a sair de dentro de uma burqa. Tem de ser devagar.
        Anoitece. A montanha agora  uma massa negra no cu azul-cobalto. E quando tudo ficar negro, desaparecer.
        Os faris dos 4x4 cegam  sada. Sedas e sandlias e motoristas  espera.
        Um destes carros ser o do comandante Mosleem, mas qual?
        Aquele a cair de podre.
        Que faz este tal comandante Mosleem aqui, ele e o mujahid ao seu servio? Vo conduzir-me  presena do senhor que ambos servem.
        A 9 de Setembro de 2001 um homem foi assassinado no Afeganisto. Chamava-se Ahmad Shah Massoud. Como a morte demorou a confirmar-se, a notcia da morte acabou
por no ser nada exagerada. No sobrava espao para isso, porque entretanto tinha acontecido o 11 de Setembro. Mas Ahmad Shah Massoud tinha muito a ver com o 11
de Setembro. Era o lder da Aliana do Norte que combatia os taliban e Bin Laden. Era o homem em quem os americanos estavam a apostar, como j tinham apostado nos
taliban e em Bin Laden.
        Hoje, no h cara que se veja mais por todo o Afeganisto, das traseiras dos carros ao estdio de Cabul. E uma espcie de mrtir oficial.
        Mas divide os afegos. Para uns, continua a ser o "Leo do Panshir", em referncia ao vale onde se tornou um mito da guerrilha anti-sovitica. Para outros,
 o selvagem que bombardeou Cabul na guerra fraticida ps-ocupao sovitica, e deixou que os seus mujahedin se comportassem como animais. Talvez tenham todos alguma
razo. No sendo possvel perguntar-lhe, podemos sempre tentar o seu irmo mais novo, Ahmad Wali Massoud, ex-embaixador do Afeganisto em Londres.
          presena dele que estou a ser conduzida, se o carro aguentar, pela noite de Cabul. J disse que em Cabul no h iluminao nocturna?
        As esquinas, os carros, os vultos saltam da escurido repentinamente, encandeados pelos faris. Uma espcie de atmosfera ps-apocalptica. E l vamos. O
comandante Mosleem, um mujahid certamente de defesa pessoal e eu.
        Paramos em frente a um porto. L dentro h um jardim. Uma casa grande iluminada. Um grande retrato de Ahmad Shah Massoud na sala. E Ahmad Wali Massoud fala,
fala, fala. Mas ir comigo ao Vale do Panshir, hum.
        No diz que no, porque os afegos preferem no o fazer, mas hum. No vai acontecer.
V-se que  irmo de Massoud, mas um irmo dez anos mais novo e fraco. H frutos secos na mesa e ch.

        Que dia mais longo.
        E a noite ainda mais escura ao voltar para o Kabul Lodge.
        Abder Rahman, o rapaz sonolento, traz-me um ch e dois ovos. No h po. Falo ao telefone, falo para a rdio e amasso todas as minhas coisas dentro da mochila
para libertar o quarto.
        Como so coisas para um ms no me d jeito nenhum. Ficam os livros enrolados com as pegas enroladas naquela extenso elctrica que comprei num pas rabe
qualquer.
        Mas ainda d menos jeito pagar dois quartos, e amanh vou para Herat.
                                        CABUL-HERAT

                                         6 de Junho

        DISSE A ABDER RAHMAN que ia sair s 7h45, mas continua a no haver po. No como nada.
        Sigo com Rameen para o aeroporto. O sistema de dissuaso de atentados obriga a vrios controlos ao longo do acesso. Na primeira barreira  preciso sair do
carro. As mulheres so revistadas  parte e a fila anda mais depressa porque as mulheres so poucas. O nosso voo da Kam Air para Herat est cheio, maioritariamente
com afegos. Tambm h voos a partir para o Dubai e para Deli.
        Rameen no aeroporto:
        - Eu gosto de ordem, de limpeza, no estou farto disso. Os estrangeiros querem aventura, eu estou farto de aventura.

Voamos sobre montanhas, continuamente.
        O que sero estes pedaos de terra trabalhada nos vales?
        Fitas brancas no cimo que so neve, depois ocre, vermelho, castanho. Tudo montanhas. Rios secos.
        E ento um deserto liso, de terra.
        E de repente os minaretes.
        Os colossais minaretes timuridas de Herat, que no comeo do sculo XV seriam 20. Robert Byron j s viu sete em 1933.
        Agora eu vejo um, dois, trs, quatro, outro mais ao fundo. Cinco dedos gigantes levantados do deserto para o cu. E a Cidadela, cor de terra. E a Grande
Mesquita Azul.
         como aterrar numa histria que me contaram vrias vezes, uma histria extinta.
        O avio desce e isto vai acontecer. Herat existe.
        Um primo de Rameen em terceiro grau sorri ao nosso encontro. Veste camisa e calas ocidentais e guia um velho carro com problemas de bateria. O caminho at
 cidade  uma alameda de pinheiros, entre os quais se avistam casas de terra com chamins curvas como as dos barcos.
        - E para que o vento entre e refresque - explica Rameen. Chamam-lhe Vento dos 120 Dias. Sopra a partir do fim de Maio, vindo do norte, de Samarcanda e Bukhara,
as terras irms de Herat. Ento, j comeou a estao do vento, mas por enquanto  uma brisa.
        E para a esquerda est o Iro, to perto que podamos ir l beber ch.
        Cabras pretas, cartazes e cartazes de telemveis, um edifcio espelhado e redondo semiconstrudo.
        -  muito mais limpo e agradvel que Cabul - declara Rameen, cheio de orgulho.
        A entrada da cidade aparecem riquexs motorizados, vermelhos e amarelos, muito coloridos. E motoretas, bicicletas, mulheres a caminharem debaixo dos pinheiros
envoltas em chadris, os esvoaantes mantos escuros que aqui se usam sobre a cabea, parecidos com os chadors iranianos, mas com flores ou desenhos.
        Cheira a caruma. A bosque.
        Almoamos no Yas, um restaurante popular. Duas mulheres de burqa azul olham para mim e riem. Seguram a burqa com uma mo e comem arroz com a ponta dos dedos
da outra mo.  a forma tradicional. Entretanto, os homens esto recostados, homens sem barba, de olhar fixo, feroz. E estamos, como sempre, numa parte do restaurante
para mulheres. Um deles fuma, o que me faz pensar que no Afeganisto no h muita gente que fume.
        Toda a posio dos homens  como se os dois vultos de burqa no fossem pessoas, mas volumes.
        A Grande Mesquita Azul aparece de repente, ao fundo de uma rua, e  medida que nos aproximamos no acaba, indecifrvel. Vastos muros de pedra ocre, com um
rebordo de azulejos, e por cima torres, minaretes, cpulas em todos os tons de azul.
        Tudo nela est virado para dentro.
        No mercado ao lado, Rameen compra pequenas garrafas para pr mel.  um projecto para um artista contemporneo. Mandar mel de todas as cidades por onde passa.
        Depois paramos para comprar o prprio mel numa banca em que tudo parece ter cem anos. Grandes papoilas secas com sementes ainda l dentro. Cardamomo, amendoim,
pedra-pomes, aafro. Trinco canela. Mais  frente uma loja s de burqas. Pendem como capotes vazios, todos iguais, daquele azul desbotado.
        Entre as bancas h canais com gua preta e lixo a boiar. Cheira a esgoto. Os homens olham para mim como se eu fosse extravagante.
        Os artistas que Rameen quer ver no esto a atender o telefone. Entramos numa casa de ch para decidir o que fazer. A primeira sala s tem sala s tem homens
recostados em divas com almofadas e cachimbos de gua. Mas o ptio tem rvores, uma fonte, um papagaio e m msica - que os empregados pem s para ns.
        No h mesas. H uma espcie de camas largas, cobertas por tapetes e almofadas, onde o ch  servido e nos sentamos como budas, depois de tirar os sapatos.
        O primo de Rameen no fala ingls. Descontando a camisa s risquinhas e as pegas brancas,  igual queles persas das gravuras, com turbantes e faixas de
seda  cintura. Rameen diz que no costumam vir mulheres aqui, mas os tapetes nas paredes tm mulheres de cara descoberta a servir ch.
        E os grandes minaretes de Herat foram ideia de uma mulher.
        - Gowar Shad?  um cone, claro. Protegeu as artes. Impediu o marido de destruir os stios histricos.
        - Portanto h mulheres poderosas na vossa histria.
         - Se usas o teu poder para coisas boas, s admirada.
         Quando acabarmos o ch, vamos aos minaretes.

O Afeganisto teve muitas mulheres de rei e teve uma rainha. Chamava-se Gowar Shad. To poderosa foi que ainda hoje os homens falam dela com venerao, os homens
de um pas de homens. E em Herat vivem no esplendor de tudo o que ela criou, como este jardim:
        -  o jardim da rainha do Afeganisto - diz o guarda Ghulam Haidar, tnica pobre e semblante imperial, coroado por um turbante.
        O que ainda brilha aqui  "o mais belo exemplo de cor em arquitectura alguma vez concebido pelo homem para glria do seu Deus e de si prprio", escreveu
Robert Byron, em The Road to Oxiana.
        Aqui, Gowar Shad mandou erguer no sculo XV um "lugar de orao" {musalla) que fosse o auge da arquitectura timurida.
        Na fundao do imprio timurida, a capital era Samarcanda. Mas depois da morte de Timur (ou Tamerlo), o seu filho Shah Rukh mudou a corte para Herat.
        Shah Rukh ficou para a histria como um grande patrono das artes e das cincias, e incentivou pensadores, artistas e artfices. Herat tornou-se a cidade
de todas as artes, caligrafia, poesia, msica, pintura, azulejaria. E boa parte disto passou pela rainha Gowar Shad, mulher de Shah Rukh. Foi ela quem fez a arquitectura
de Herat aspirar a um requinte indito em grandeza e mincia.
        A comear por este jardim, onde 20 minaretes colossais subiram para o cu, ricamente adornados com mosaicos e inscries persas, em lpis-lazli, vermelho,
ocre ou branco.
        Durante sculos sobreviveram ao Vento dos 120 Dias, que levanta areia escaldante.
        At que, em 1885, o exrcito britnico tomou uma das decises mais negras da sua histria e dinamitou a rea, por temer uma investida russa. Era o tempo
do Grande Jogo, como ficou conhecido o duelo entre britnicos e russos pelo controlo estratgico do Afeganisto. Convinha aos britnicos arrasar o que estivesse
no campo de viso, para avistar o inimigo. E portanto metade dos minaretes explodiram, gnero budas de Bamiyan.
        Quando c chegou, Robert Byron ainda conseguiu imaginar o que ter sido uma "mesquita como nunca outra, antes ou depois".
        E hoje ainda se consegue, mas  preciso imaginar mais.
        A seguir a Byron, vieram dois terramotos e a invaso sovitica.
        Um tanque sovitico continua ao fundo do jardim, junto a um dos minaretes, e h avisos de minas.
        De resto, todos os minaretes perderam a maior parte da cobertura de azulejos. Sobram fragmentos, e pombos a sarem dos buracos, l no alto, onde entretanto
muitos ninhos tero sido feitos.
        A esses no  possvel chegar.
        Mas Ghulam Haidar, o guarda do jardim, conhece de cor os ninhos no santurio da rainha, com uma cpula coberta de azulejos e o interior delicadamente pintado.
        Gowar Shad, que viveu at aos 8o anos - feito ainda hoje lendrio no Afeganisto, onde a esperana mdia de vida  metade -, morreu assassinada, entre intrigas
polticas, quando tentava impor um filho como rei.
        O santurio contm a sua pedra tumular e as de descendentes seus.
        Ao canto esto vrias inscries de pedra e restos amontoados, que o guarda Ghulam usa como esconderijo de uns azulejos ainda inteiros, talvez cados da
cobertura da cpula.
        E depois de os revelar, Ghulam sai do santurio, volta  direita, abre uma portinhola na parede do edifcio e comea a subir umas escadas de pedra ngremes
por onde ningum deve passar h algum tempo, porque o cho est cheio de penas e de terra, e h um pombo morto.
         por aqui que se sobe ao varandim da cpula, de onde se avista todo o jardim, com jovens macieiras, pinheiros e damasqueiros plantados pelo guarda Ghulam.
L esto os quatro minaretes tortos,  entrada do deserto. E, do lado oposto, o quinto minarete junto ao tanque sovitico.
        Mas Ghulam ainda insiste em voltar  escurido das escadas e a partir da trepar para uma espcie de abbada interior, mesmo junto ao tecto. Quase no h
luz, e a princpio parecem morcegos a esvoaar, mas so pombos. E quando os olhos se habituam  escurido, Ghulam estende a mo respeitosamente para nos conduzir
at  beira da abbada, onde se vem dois ovos ainda inteiros e dois pombos j nascidos, minsculos.
        De regresso ao cho, os dois guardas fardados continuam  sombra, com ar de que nunca se passa nada, e Ghulam mete-se pelo jardim onde s sextas-feiras s
as mulheres podem entrar.
        Galha que  sexta. Ghulam no conta, porque  guarda-jardineiro. Entre as rvores h grupos de mulheres sentadas  sombra, a fazerem piqueniques com crianas.
E por todo o jardim, entre o santurio e o tanque sovitico, crianas a correr no jardim da rainha.
        Depois, para chegar aos minaretes maiores,  preciso sair do recinto do santurio e chegar ao caminho onde Herat acaba e o deserto comea. Asfaltaram-no
a seguir  queda do regime taliban, ou seja, comeou a haver trnsito a srio entre os minaretes. Quando os danos se tornaram evidentes, cortaram a estrada.  assim
que continua.
        O cu est azul como em Cabul no se v. E passa um homem a empurrar um carrinho de gelados aos ps do minarete maior. E passa um rebanho de cabras. E passam
dois turistas.
        Dois turistas?
        - Sim, somos turistas, viemos  boleia do Uzbequisto - confirma alegremente o de cabelos mais compridos, com uma bandeira inglesa na mochila.
        As duas mochilas so devidamente pequenas. E eles esto de sandlias e tnicas afegs cor de terra. Podiam ser afegos se no fossem rapazes ingleses muito
magros, altos e louros com cabelos compridos mas sem barbas, e os narizes encarnados, a pelar dos 50 graus ao sol.
        Do demasiado nas vistas para serem espies.
        Devem ser turistas.

Entretanto, Rameen conseguiu contactar um dos artistas, um pintor regressado do Iro.
        Durante a violncia dos ltimos 30 anos, milhes de afegos passaram a fronteira que lhes estava mais prxima. Os do Leste refugiaram-se sobretudo no Iro.
E, quando voltaram, voltaram ao que vamos ver.
        O primo de Rameen guia-nos atravs de Herat, at onde acaba o asfalto. Terra suja, poas ftidas, barracos com portas de zinco, uma menina descala a correr.
Pensamos que cheira mal. Mas, quando deixamos o carro e vamos a p por um labirinto de terra com um esgoto ao centro, cheira to mal que tentamos no respirar. 
como se tudo estivesse podre.
O pintor  um homem hirsuto, cabelo forte, barba forte, grande bigode. Usa tnica e sandlias. Caminha  minha frente. De cada lado do esgoto h espao para uma
pessoa. Eu vou  direita, Rameen e o primo  esquerda. Uma menina de vestido cor-de-rosa de nylon como uma boneca olha para ns, descala na terra. Mais  frente,
um menino tambm descalo tem um p de cada lado do esgoto. As paredes so de terra, sem janelas para fora.
O pintor empurra uma porta romba e entra. H uma sala escura e outra sala com uma janela que deve dar para o ptio. A porta entre ambas  uma tbua suja com um cadeado.
No cho h um tapete. Sentamo-nos todos no tapete.
Velhas prateleiras ferrugentas com boies de tinta cheios de p. Pequenas telas kitsch com flores e retratos. Uma televiso com o volume distorcido. Uma criana
 espreita com a mo na boca. Algum traz uma ventoinha e as moscas desaparecem.
O pintor comea a espalhar telas diante de Rameen. Cenas persas com cores de Walt Disney. Depois cadernos, blocos, aguarelas, lacas pretas com pares romnticos,
achinesados.
        Um vizinho acocora-se na ombreira, um velho de grandes culos e ps gretados senta-se em silncio, um menino observa de p.
        Rameen agarra telas, debrua-se, ajusta os culos. Reparo que so Versace. Talvez seja de estar to perto, ou de o tempo correr to lento.
        L fora passa um carro de burro, com crianas em cima.
        No Iro eram refugiados, aqui  isto.

Voltamos a atravessar a cidade para ir ao Tejarat International Hotel, onde o pintor tem obra exposta.
Motoretas com um homem ao volante e uma mulher de burqa atrs. Motoretas com um homem ao volante, uma criana ao colo dele, uma mulher de burqa atrs, uma criana
ao colo dela. Homens de turbante em bicicletas. Passeios largos, luz dourada. Bancas de fruta debaixo dos pinheiros. Um parque com a esttua de um cavalinho. Famlias
ao fresco.
O tal hotel  uma torre espelhada. O pintor guia-nos at ao caf no ltimo andar, que anuncia Pizza International Style, Crepes e Strawberry/Banana Smoothie. Do
tecto avista-se a cidade, plana, geomtrica, espalhada em todas as direces. Os pontos que brilham so fachadas de espelho colorido. Na paisagem, ocre com tufos
de verde, a antiga arquitectura  invisvel e fresca, a nova arquitectura  gritante e quente.

        O sol desce, mas o calor no. Est aquele p no horizonte, a perder de vista. Num tanque pintado de azul forte, crianas chapinham com gua pelas coxas.
O derradeiro compromisso de Rameen  com um calgrafo. A caminho de sua casa paramos nas lojas de pratas ao lado da mesquita. No  a prata da ndia ou da Turquia.
 prata pobre, escassa.
        Os homens voltam a olhar-me sem qualquer pudor. No como os magrebinos ou os rabes. No como quem convida o estrangeiro a entrar ou aspira ao seu mundo.
O que estes homens dizem, impassveis,  que nunca entrarei no mundo deles, nem o meu mundo tem interesse.

        Rua de lama, esgoto  vista, crianas a brincar com os tijolos de autoconstrues - mas quase um osis, comparado com o lugar onde vivia o pintor.
        O porto do calgrafo tambm tem vidro espelhado e colorido, e as paredes da casa idem. Ele recebe, sorridente, de tnica branca, mais jovem do que os seus
42 anos. Para alm do porto  o mundo da famlia. Ptio limpo, a cheirar a sabo, com uma motocicleta descoberta e outra coberta, sapatos alinhados, uma corda cheia
de roupa colorida, alguma de criana. Vem uma menina e senta-se no cho. Vem um velho de barba e turbante a rir, baixa-se para ela lhe agarrar o pescoo, ela abraa-se
a ele.  uma das quatro filhas do calgrafo, que s  calgrafo nas horas livres. De resto  veterinrio.
        A sala onde trabalha  ampla, coberta por tapetes, e tem uma estante com discos e livros. No so muitos, algumas dezenas, mas  a primeira vez que vejo
tantos no Afeganisto. Nas paredes h trabalhos de caligrafia emoldurados.
        Rameen, o primo e o anfitrio sentam-se no cho a ver belas letras. As variaes parecem infinitas.
        - Na escola ensinavam caligrafia, eu gostava e tinha algum talento. Depois aprendi com um grande calgrafo, e fiz um curso de quatro anos na Internet. Recebi
a influncia dos iranianos, dos rabes e dos turcos.
        Trs escolas diferentes para o mesmo alfabeto. - O estilo rabe  o mais difcil.
        As canetas de caligrafia so uma espcie de grandes lpis ocos, cortados em diagonal. H muitas em cima da mesa, junto a uma fotografia de Ahmad Shah Massoud.
Ao p da aparelhagem est outra fotografia de Massoud.
        - S gosto de Massoud por se ter oposto aos taliban. No temos polticos que liguem s pessoas. No temos nveis bsicos, estradas, electricidade, comida,
abrigo. E segurana. Mas comparada com Helmand e Kandahar, Herat  segura.
        Samos j noite escura. Paramos numa banca de kebab. Po quente, a queimar as mos, espetadas a sair da grelha, coca-cola. Um grande jantar afego.
        E depois vamos beber ch a casa do primo de Rameen, que tem uma jovem mulher e um filho a aprender a andar.
        Rameen vai embora amanh de manh, mas antes ainda ter de apresentar psames a um conhecido que perdeu uma tia. No se pode saber que esteve em Herat e
no foi l. E parte do protocolo a que ele teve de voltar quando voltou da Amrica, tal como este ritmo.
        - Aqui no podes dizer s pessoas que nos esto a fazer perder tempo.
        Amanh mudo para o hotel Marcopolo, mas esta noite fico onde Rameen vai ficar.

                                     7 de Junho

BAHARISTAN HOTEL. Elevador com msica, barbudos no hall, nem uma palavra de ingls, nem simpatia.
        O primo de Rameen chega no seu carro com problemas de bateria e o sobrinho - tambm parente de Rameen, portanto. Chama-se Sorab, tem 20 anos, uma shalwar
kamiz e cabelo  Cristiano Ronaldo - e Cristiano Ronaldo  mesmo o seu segundo favorito (depois de Lionel Messi).
         sbado, dia til. Deixam-me junto  cidadela com Sorab, que hoje ser o meu intrprete, e partem. Rameen vai para o aeroporto e o primo vai trabalhar.
        Uma das grandes obras do rei Shah Rukh, quando mudou a capital para Herat, foi reerguer a cidadela que o seu pai, Timur, e sculos antes Gengis Khan parcialmente
tinham destrudo.
        Entretanto houve muitos outros danos, mas a cidadela continua de p. Um grande castelo de areia com torrees redondos.
        E a seus ps que fervilha um dos bazares centrais da cidade. Grandes sacos cheios de sementes, leguminosas e temperos coloridos. Tendas com vistosas vassouras
de palha, abertas como leques no passeio. Carneiros pendurados. S homens e algumas mulheres de burqa.
        Mohammed Daud, 28 anos, arquitecto, contorna uma banca de roupa para chegar  antiga cisterna do sculo XIV.
        - Este  o meu primeiro projecto de restaurao - diz, e a voz ecoa. - Estava cheio de gua, para quando o inimigo vinha e cercava a cidade. Podiam usar
esta gua durante seis meses.
        Daud est a trabalhar com a Fundao Aga Khan na recuperao da Cidade Velha de Herat, um raro exemplo de cidade medieval murada. Trepando ao tecto da cisterna,
distingue-se a trama de ruas at aos minaretes colossais, l ao fundo.
        Nunca vi nada assim. Um labirinto todo em terra e tijolos de adobe como h centenas e centenas de anos, reforado periodicamente com palha e mais terra,
para manter fresco o Vero e quente o Inverno.
        Daud desce da cisterna para o bazar e enfia-se por uma reentrncia onde um rapaz vende salsa num monte maior que ele prprio. Mas o que parecia uma reentrncia
 uma passagem que conduz ao interior do labirinto.
        Aqui comea todo um outro mundo. Na mesquita logo  direita, tambm inteiramente recuperada, meninos e meninas recitam o Coro enquanto baloiam o tronco,
sentados em tapetes, numa espcie de grande varanda sobre o ptio. H um pinheiro e uma amoreira. As janelas so de madeira esculpida, com os delicados desenhos
e relevos que os artfices novos esto a aprender com os velhos.
        Nada est parado. O que  antigo continua, o que  velho muda. Rua a rua, homens com carrinhos de mo e chapus largos por causa do sol esto a construir
toda uma rede subterrnea de esgoto, depois rematada por um pavimento que  uma espcie de calada ocre.
        O velho canal de desperdcios corria entre os ps das crianas, exactamente a meio da rua. E agora, nas ruas j pavimentadas, as crianas jogam  bola entre
paredes ainda frescas, sem lama, sem p e sem esgoto.
        Daud desvia-se para mostrar uma grande casa de habitao com 300 anos. Um ptio interior, uma fonte, uma frondosa amoreira. No primeiro andar as portadas
j esto completas, com a sua fina renda de madeira, mas no piso trreo ainda h rapazes a aplainar e a esculpir.
        - Acabei agora esta - diz Daud. - Era uma casa tpica da Cidade Velha, de um mercador local, uma grande famlia judia. Tambm j recupermos uma sinagoga.
        No interior v-se o badguir, a abertura que permite que o vento entre e circule, refrescando a casa.
        Mais  frente h um cemitrio, com as lpides muito verticais e juntas, e pedaos de tecido colorido agarrados a ramos de rvores. So pedidos de crentes.
O equivalente islmico a deixar uma vela. Outra forma de f  deixar bolinhas de lama em cima dos tmulos. Quando secam, pem-se num quisto e ele fica curado.
        Depois do forno de uma padaria, onde um sorridente barbudo vai metendo pazadas de massa a toda a velocidade, chega-se ao forno de onde saem os histricos
vidros coloridos de Herat.  feito de terra batida. Alis um rapaz est a remend-lo como se fosse um oleiro, com as mos cheias de terra, salpicando de gua e moldando
uma das entradas.
Nos anos 70, o fotgrafo Elliot Erwitt, da Agncia Magnum veio a Herat e fez um documentrio sobre os artesos do vidro. Um dos protagonistas era um jovem moreno,
de barbicha, Sayedullah, e Erwitt fez um pster com ele.
        Esse pster agora est numa sala cheia de vidro azul, porque  a sala onde Sayedullah rene e mostra o que faz.
        Ei-lo, o jovem moreno de barbicha, agora com "provavelmente 50 anos", grisalho, pai de trs filhos ("quatro morreram") e quatro netos.
        Olhando com ateno, o nariz de guia  o mesmo, e o olhar para a cmara tambm, como quem gosta mesmo de ser fotografado.
        -O vidro foi uma herana. O meu bisav j o fazia, depois o meu pai, que me ensinou. Eu tinha sete ou oito anos quando comecei.
        Sayedullah tornou-se mestre.
        - Houve uma competio entre 70 pases no Paquisto, e eu fui e ganhei.
        Mas soprar vidro no o impediu de ser mujahid.
        - Durante a batalha contra os soviticos combati ao lado de Ismail Khan.
        O autoproclamado "emir" de Herat, que Karzai entretanto chamou para ministro.
        - Fui ferido oito vezes - conta Sayedullah, arregaando as mangas. - Aqui, aqui...
        E mostra a nuca, onde tem uma bala.
        - Combatemos ao p dos minaretes, e fomos ns que capturmos a cidadela onde estavam os comunistas.
        Agora est aqui a formar vidreiros, continuando a "fazer  mo o que os pases estrangeiros fazem com molde".
        E do ptio ao lado chegam sons de percusso, teclas e cordas, e uma voz de homem a cantar.
        E a escola de msica onde dezenas de homens, alguns ainda crianas, esto a recuperar a prtica de instrumentos tradicionais, uma espcie de acordees que
se tocam no cho, de guitarras esguias, de tambores de colo.
        Esto sentados em grandes tapetes com desenhos cor-de-laranja e vermelhos, outra arte de Herat.
        Tocam e cantam para mim uma cano e depois param para eu sair. A cano que ouvi foi uma cortesia. O silncio deles  um convite a que eu saia. Ento levanto-me
e saio, com toda a roda de homens a olhar para mim, imvel. Quando chego ao ptio a msica recomea.
        O sol desce sobre as amoreiras, como h centenas de anos.
        Foi tambm Shah Rukh, no sculo XV, que mandou erguer o santurio de Gazar Gah, para celebrar o poeta e santo sufi Khwaja Abdulla Ansari, do sculo XI.
         preciso ir de carro.
        Mas mesmo num dia de semana como hoje, sbado, e mesmo ficando este santurio nos arredores, Gazar Gah tem sempre peregrinos, grupos de escolas, mendigos,
fiis que vieram de longe.
        Considerado o mais variado exemplo de arquitectura timurida,  todo um conjunto de edifcios com fabulosas fachadas cor-de-terra, azulejos, tectos pintados
e pedras tumulares com relevos e inscries, algumas das quais ocupam o ptio do edifcio central, como um cemitrio.
        Mas um cemitrio sentido com os ps descalos.
        Est um calor sufocante. O ptio arde. Os homens recostam-se, deitados debaixo das arcadas.  o deserto em Junho, ao meio-dia e meia.
        Nos edifcios laterais ainda h vestgios de pinturas e inscries islmicas a ouro. O linguista Bruce Wannell est neste momento a estud-las.
        - "Oh alma confiante e em paz, volta ao teu senhor, que est contente contigo e tu contente com o teu senhor" - traduz Wannel, que podia ficar horas a falar
sobre cada uma das pedras tumulares. -  uma relao de reciprocidade entre a alma e Deus. O que mostra o Islo a uma luz completamente diferente. Olhe para estes
tmulos de mulheres...
        E passa a falar de mulheres que foram grandes e prezadas.
        No tempo da rainha Gowar Shad, o poeta da cidade era Jami, mas no vale a pena buscar o seu tmulo aqui.
        Est em Herat, debaixo de uma rvore de pistachos.


        Tal como Gowar Shad, Jami viveu muito alm do que viviam os homens do seu tempo. Nascido na provncia de Jam - da o nome, Jami - veio aos cinco anos para
Herat e s ter a deixado a cidade para ir a Meca, em peregrinao, aos 64 anos.
        Voltou e ainda se manteve at aos 81, tantos como os livros que deixou escritos.
        Em Contos do Pas dos Sufis* relata-se como tentou toda a vida desprender-se do egosmo at estar pronto para morrer. E tanto sentido de humor teria que,
segundo a lenda, ao ouvir lamentos estridentes pela sua prpria morte, se levantou e disse: "Eu morro se no acabarem com a algazarra!"
        A grande cidadela que  o mais antigo edifcio de Herat, foi reerguida justamente quando ele nasceu. Ele viu-a, pois, em todo o esplendor coberta por azulejos
com a inscrio de um poema.
        Durante cem anos a cidadela de Herat foi o "corao do imprio"** timurida.
        Depois, sucederam-se inimigos, bandidos e tremores de terra.
        Hoje, no alto da torre timurida h um canho sovitico a enferrujar.
        A vista sobre Herat  total: a cidade dos subrbios infectos com os ex-refugiados do Iro; a cidade de avenidas largas, com pinheiros altos e bandos de chadris
floridos que so raparigas a caminho da escola; a fabulosa cidade de terra batida mesmo aqui aos ps.
        E em todas estas direces haver algum capaz de citar Jami, desmentindo assim o que ele escreveu h 500 anos:

                Invernos e Estios e Primaveras ho-de passar
                E eu nada mais sou seno terra e p.

O Marcopolo  um hotel "em progresso", com vrios tipos de quarto, conforme o ponto onde as obras chegaram. A entrada, h uma fotocpia a dizer No weapons. Os quartos
no tm janelas para a rua, mas tm uma espcie de ar condicionado, o que  bom porque o dia parece comear nos 50 graus. O meu quarto 223 fica num longo corredor
alcatifado, com cortinas esvoaantes. A janela d para o corredor. Fao o check in com Sorab e almoamos l, pernas de galinha com arroz branco. Parece-me um banquete.
E finalmente vamos  Grande Mesquita, ou Mesquita Azul, ou Mesquita de Sexta-Feira.

*De Mojdeh Bayat e Mohamed Ali Jamnia, traduo e prefcio de Jos Domingos de Morais, Lisboa, Assrio e Alvim, 2002.

** Nancy Dupree, Afganistan, Afghan Tourist Organization, Kabul 1977

        Em raros lugares do mundo ser possvel estar dentro de uma criao destas e ao mesmo tempo estar sozinho, com um sol entre nuvens subitamente dramtico.
Andamos descalos, com os sapatos na mo. O cho  de mrmore e est quente.
        Ningum, numa praa to monumental.
        Ento o muezzin canta e comeam a entrar homens.
        Desta mesquita se diz ser um dos mais belos monumentos de toda a arte islmica. O edifcio original  de 1200, o tempo dos gridas, que tinham um gosto mais
geomtrico que floral e usavam os mosaicos como relevos em alguns pontos. Depois, os timuridas cobriram a mesquita de azulejos com flores e inscries cornicas,
como hoje est. A partir de 1943, vrios artistas e calgrafos recuperaram-na.
        E a recuperao  contnua, na oficina que existe  esquerda de quem entra, onde uma dezena de rapazes trabalha sob a vigilncia de Abu Balkr, 72 anos, que
aqui est desde os 18.
        - No se encontra uma mesquita assim - diz ele com simplicidade. -  a mais bela do mundo.
        Bebemos ch em casa de Sorab, sentados em tapetes. A irm de 18 anos vem cumprimentar, vestida com camisa e calas azul-turquesa. Fez o liceu. Mal fala ingls.
Chumbou no acesso  universidade. Diz que est jobless. Mostra-me o seu belo chadri preto com desenhos brancos.  pesado e de um nylon quente.
        O general Branco envia-me um e-mail a comunicar a resposta das tropas canadianas - as responsveis por Kandahar - ao meu pedido de embedment: no  oportuno.
        Em cima da cama h um cobertor de peluche gigante. Devem estar uns 40 graus.
                                 HERAT - CABUL

                           8 de Junho

QUANDO DESO para o pequeno-almoo h um holands na recepo.
        - Trabalho para o Banco Mundial. Fao auditorias.
        E l vai, porta fora, aproveitar o seu dia em Herat.
        Depois desce Khalil, que  afego de Cabul e trabalha para a USAID. Tem 25 anos, est noivo, estudou no Liceu Francs e  um cavalheiro.
        - Privatizaes. Sessenta e cinco por cento das empresas devem ser privatizadas e a USAID d indemnizaes. Eu venho aqui calcular anos de servio.
        Vai apanhar o mesmo voo que eu de regresso a Cabul. Foi por isso que nos levantmos de madrugada.

        O bilhete da Kam Air dizia 9h, mas trazia um nmero de telemvel para os passageiros telefonarem s 6h. s 6h, o voo muda para as l0h, mas tanto faz, j
estamos acordados.
        A carrinha do Marcopolo faz-se  estrada com uma afeg que sorri sem falar e o jovem Quixote Khaiil, que fala francs e ingls.
        No Marcopolo, eles conhecem a Kam Air, e portanto a carrinha avana devagar como uma gndola entre os pinheiros de Herat.
        Depois pra no baldio de acesso ao check in e despede-se.
        O check in  um barraco com uma fila de malas ao sol e gente encostada a uma lmina de sombra. Mulheres de Herat a agarrarem os chadris por baixo do queixo.
Crianas, bebs, velhos tajiques. Um, dois, trs, quatro, cinco estrangeiros, notam-se bem.
        Sentamo-nos no cho e esperamos.
        Eu descarrego fotografias no computador e converso com Khalil, que resolveu ser o responsvel por mim neste contratempo das nossas vidas. Ao lado est a
italiana Rosella, sociloga na ONG InterSOS, pele de ruiva a escaldar ao sol.
        Esperamos e esperamos.
        Vm as 9h e vm as 10h. Algum diz que o avio Herat-Cabul - uma hora de voo - ainda nem sequer comeou a fazer Cabul-Herat.
        Os 50 graus j parecem 55. Uma me afeg d de mamar, cercada por mulheres. Uma finlandesa corrige os seus exerccios de dari num caderno com desenhos infantis.
Ela tem uns 60 anos e em dois meses a trabalhar aqui aprendeu o suficiente para conquistar o menino que ronda o aeroporto a pedir moedas, e agora est pendurado
no brao dela, a rir dos desenhos.
        H rumores de que o avio j levantou de Cabul. A fila avana para contornar o barraco, e tenta colar-se a outra faixa de sombra. As foras afegs, de camuflado
poeirento, comeam a revistar as malas, entretanto poeirentas. Querem confiscar carregadores, baterias e cabos em geral. Dizem que no podem ir na bagagem de mo.
- Security, suicide bomb. Nem sinal da tripulao Kam Air. Estes senhores so tropa.
        Consigo escapar a esta. Depois, a fila arrasta-se e arrasta as malas pela terra at ao terminal. No terminal, as mulheres tm direito a revista  parte,
numa cabine onde foras femininas afegs sem camuflado apalpam tampes e auscultadores.
        Escapo a mais esta, mas no  prxima, que mete mquina de raio x e foras treinadas pelos alemes. A mquina denuncia todos os carregadores, baterias e
cabos ilegais, e os passageiros recebem um pedacinho de papel com um nmero, que  o check in do material confiscado.
        Despeo-me do meu saco de cabos e baterias.
        A finlandesa no protesta. Toda a gente diz que os polcias afegos so corruptos, mas o que a finlandesa diz  que tm dez e 12 pessoas para sustentar,
ganham 6o dlares por ms e este  o trabalho deles, incluindo o risco dirio de serem os primeiros a ir pelo ar, literalmente. Muitos aceitam dlares de quem paga
muito melhor, tal como muita gente no Sul do Afeganisto aceita dlares para trabalhar nas papoilas - dlares e droga  discrio. Foi o que o filho da minha empregada
fez, diz a finlandesa.
        Em Cabul, carregadores, baterias e cabos so espalhados no cho,  espera de quem os reclame. Cada um tem uma etiqueta. Tudo bate certo.
        Quando revejo as minhas rosas, cai a tarde. Uma hora de voo, um dia de viagem. E estamos bronzeados.
        Chego ao Kabul Lodge quase s quatro da tarde.
        Fico l a trabalhar como quem volta a casa. Haider e Nahim so encantadores. Ismaq e Earhad tambm. E o sonolento Abdur traz-me roupa lavada, muito sorridente.

        O Kabul Lodge  uma casa de rapazes. Os rapazes cozinham, guardam, limpam, servem.  comum no Afeganisto. Se as raparigas no mostram a cara tambm no
vo servir estranhos. Nas capitais ditas de conflito internacional h sempre trs grandes tipos de estrangeiros: humanitrios, contratados e jornalistas.
        O tipo dominante no Kabul Lodge  o contratado. Fazedores de estradas, tcnicos de barragens, formadores da UE. Alojam-se em stios baratos para poupar os
12 mil euros que recebem por ms e partilham tcnicas de capacity building ao pequeno-almoo.
        Farhad preside ao pequeno-almoo, olhos afiados como uma faca e cicatriz por baixo do olho esquerdo. O po  seco, o ch amargo, o queijo pedra, mas Farhad
est ali a sorrir. Durante o dia afunda-se no sof a ver televiso at reemergir para o jantar, e a hspedes novatos e veteranos distinguem-se pela arte da fuga.
Os novatos so aqueles sentados  mesa quando os veteranos saem a acenar para um kebab l fora, tashakor*, porque a comida no  o forte do Kabul Lodge.
        Mas de manh o jardineiro anda em torno das rosas, e essa  uma boa razo para no fugir do pequeno-almoo. O jardineiro e Hassan so os nicos mais-velhos
no Kabul Lodge.
        Os domnios de Hassan no tm limites. Arranja, desentope, carrega, cozinha e o que se ver.
        Entre o pequeno-almoo e o jantar h ainda Soher, o magrinho, de camisa justa e malares salientes como num pster de barbeiro; Rahman, o gordinho, que reza
cinco vezes ao dia;
Ismaq, o subchefe, que parece demasiado novo para ter acabado o liceu mas j tem mulher e um beb no vale do Panshir; Haider, o chefe, parente de todos estes rapazes
tajiques, porque num pas que no funciona  assim, quem pode d trabalho aos seus. Pouco  mais que nada.
        E Nahim vem da universidade com os olhos piscos, doce como quem est quase a adormecer. Com os 200 dlares que ganha no Kabul Lodge sustenta irmos que estudam
em Nova Deli. Espera tornar-se informtico.
        Ao fim da tarde deso ao jardim para beber ch e chega John - mais um engenheiro, mais um contractor ao servio da USAID.
         sombra do alpendre, conta-me a histria da sua vida e do Afeganisto.
        - O Afeganisto  a auto-estrada da droga na sia Central. Os agricultores sempre cultivaram papoila. Eu constru estradas, reconstru um sistema de canais
para impedir as cheias em Nangahar, no Khyber Pass. Uma vez, 50 aldees de Bagram vieram dizer-me que queriam ajudar a acabar o canal. O sol a pr-se nas montanhas
do Hindu Kush e eles deram-me um casaco  Karzai. Tiveram gua pela primeira vez em 17 anos. Se j tivermos feito bom trabalho para eles, eles tomaro conta de ns.
H tanto dinheiro que vai ao ar, em falsos fins, no realistas. Cada projecto no pode ser uma rvore de Natal. Cada projecto no deve dirigir-se ao ambiente e s
questes de gnero. E no, no  preciso muito trabalho de papel. Esse  o problema da Unio Europeia, da USAID, do Banco Mundial. Esto paralisados com papel, muito
pouco trabalho real  feito, e  por isso que os taliban esto reemergentes. Eu vim c de frias em 1962, 63 e 64. Em 1976 projectei uma barragem. Depois levei a
famlia numa volta ao mundo e passmos a Aco de Graas de 1977 em Cabul. Cabul era muito agradvel. Havia umas 300 mil pessoas e no havia tantos carros. Tinha
um sabor europeu, boa comida, o vinho bebia-se bem. Podamos ir ao cinema e coisas assim. Eles no gostam de estrangeiros. Tanto nos podem matar como no. Mas agora
a minha luta  com os estrangeiros. Esto preocupados com as promoes e lutam uns com os outros. H demasiadas pessoas aqui que vm para escapar de um problema.
H pessoas que foram expulsas de outro pas.  muito triste. Muitas frmulas de ajuda aqui so frmulas fracassadas noutros lugares.

                                          CABUL
                                        9 de Junho

8H30. Sede da Cruz Vermelha em Cabul. Hoje  segunda-feira, e todas as segundas de manh h uma multido neste ptio. So familiares dos presos de Bagram.
        Bagram - uma hora a norte de Cabul -  uma criao da era Bush, mas por baixo tem 2500 anos de histria. A primeira cidade que a existiu ter sido fundada
pelos persas. No sculo IV a.C, Alexandre, o Grande,
baptizou-a como Alexandria-do-Cucaso. Entre os sculos I e III d.C, o Imprio Kushan fez dela a sua capital de Vero e chamou-lhe Kapisa. Foi um ponto vital da
Rota da Seda.
        * Obrigado, em dari.

A actual Bagram resulta do domnio sovitico. Uma aldeia afeg com instalaes militares adjacentes, que depois do 11 de Setembro foi transformada numa gigantesca
base area dos Estados Unidos, com 15 mil homens. E dentro da base os americanos fizeram uma priso onde, ano aps ano, centenas de homens aguardaram sem julgamento
nem visitas da famlia, antes de, eventualmente, serem transferidos para Guantnamo. Na sequncia de espancamentos e torturas, houve mortes denunciadas pelas organizaes
de direitos humanos, e admitidas em relatrios do exrcito. Um desses relatrios, divulgado em 2005 pelo New Tork Times, descreve como dois
afegos foram pendurados no tecto e espancados mltiplas vezes, at morrerem*.
        Centenas de afegos continuam presos em Bagram, sem que as famlias os possam visitar. O que a Cruz Vermelha conseguiu, para j, foi montar um sistema de
vdeo-chamadas que permite aos parentes verem-se enquanto se falam".
         para isso que aqui esta Niaz Mohammed, um homem de turbante e barbas grisalhas que no sabe bem a sua idade ("40 ou 45 anos"), tem o sobrinho de 22 anos
preso em Bagram, e fala comigo atravs de um intrprete da Cruz Vermelha.
        Para chegar a Cabul, Niaz Mohammed veio de Helmand, no Sul, uma provncia em guerra, bastio de papoilas. A sua aldeia chama-se Nasraj. Saiu de l no sbado,
de autocarro para Lashkar Gah, onde apanhou outro autocarro para Cabul. Dois dias a viajar para ver o sobrinho num ecr, e mais dois dias para voltar.
        - Vim sozinho. A situao no  boa para trazer a famlia. Perto da nossa casa h uma base americana. Os americanos disseram s pessoas para deixarem as
casas. Isto foi h um ano. Pusemos as roupas em tractores e deixmos a casa. Os americanos comearam a bombardear e 13 pessoas morreram. Foi um grande ataque. Anunciaram
na BBC. Perdi dois sobrinhos, quatro sobrinhas, a mulher de um irmo. A minha famlia foi a que mais sofreu. E houve sete feridos. As tropas afegs e estrangeiras
estavam no caminho. Queramos levar os mortos e os feridos, mas depois eles levaram os feridos. E depois s vi o meu sobrinho no ecr.
        Aponta para dentro, onde esto os sistemas de vdeo-chamada. O sobrinho ferido tornou-se um dos detidos em Bagram.
        - H seis meses ouvi no rdio que podia falar com a famlia em Bagram, e esta  a terceira vez que venho.
        Que faz o sobrinho?
        -  agricultor. Plantamos trigo, milho, temos vacas. Porque  que est preso?
        - No sei. J lhe contei a histria. Ficou ferido na mo, no brao e no ombro.
        Tem advogado?
        - No. Um advogado no nos ajudaria.
        Vai passando as contas do tero islmico entre os dedos.
        O intrprete diz-me que hoje esto inscritas 43 famlias, e cada uma ter 20 minutos para falar com o seu parente. Tudo isto se prolongar at s cinco da
tarde.
Entretanto, Niaz j est sentado diante de uma espcie de televiso arcaica, com um auscultador na mo, a falar muito sorridente.

* Um deles, um condutor de txi, inspirou o documentrio Taxi to the Dark Side, que abriu o DocLisboa em 2007.
** Em 2009, algumas dezenas de famlias por ms esto a conseguir visitar Bagram, com o auxlio da Cruz Vermelha. Mas o nmero de vdeo-chamadas continua a ser esmagadoramente
superior.
        H postos individuais, como este, e cabines privadas, protegidas por um vidro, onde cabe uma famlia, resguardando a intimidade. Numa dessas cabines, um
homem, um rapaz, uma rapariga vestida com um esplndido verde-lima e uma menina vestida de igual esto todos voltados para o ecr, onde aparece um rapaz barbudo.
        Quando o tempo deles acaba, aceitam falar no ptio. So uma famlia pashtun das zonas tribais de Nangarhar, junto ao Paquisto. O homem, Khanistan, 40 anos,
 sogro do detido. Veio a Cabul com um filho, Rabbani, 20 anos, uma filha, Ghuti, 15 anos, e uma neta. Mina, sete anos. A mulher do detido ficou a tomar conta das
crianas.
                - Viemos num carro de oito passageiros, no sbado, e depois em dois autocarros.
        Ao todo, em casa so 12. Trabalham a terra, trigo, tomates, batatas. Como  que o genro de Khanistan foi preso?
        - Os americanos foram perguntar por ele e ele no estava. Mais tarde foi ter com os americanos ao aeroporto de Jalalabad e prenderam-no. Vai fazer dois anos
neste Ramado. A sade est boa, descansada. Mas perguntei-lhe "Quando virs?" e ele disse "No sei."
        Como est a situao em Nangarhar, zona de combates?
        - A segurana  boa, mas a economia  m, no h trabalho - diz Khanistan.
        Ghuti, a rapariga, diz:
        - Eu tenho medo dos taliban. Eles esto a matar gente e a atacar sem razo.
        - Eu tambm - diz o irmo, Rabbani.
        Ghuti pe a burqa, apagando a luz dos seus trajes verde-lima, e saem.
        No ptio, sentado num velho sof de napa, espera um rapaz de turbante, com trs crianas. Tem sardas e ao mesmo tempo um olhar afiado, de lmina. Chama-se
Hamdullah, tem 21 anos e uma loja.  um pashtun de Zabul, perto de Kandahar.
        - Vim ver o meu tio no ecr.
        - E as crianas?
        - So filhos dele.
        E toca-lhe o telemvel.

Vou ao outro lado do ptio ter com Graziella, a assessora de imprensa, para ver se h novidades sobre Kandahar. H. Ela arranja-me autorizao para voar com a Cruz
Vermelha se eu quiser fazer uma reportagem sobre o hospital de Mirwaiz.
A Cruz Vermelha voa para Kandahar s segundas e quintas. Posso ir na segunda e voltar na quinta. A nica coisa que pedem  autorizao para pr o texto no site deles.
Deduzo que h algum tempo que nenhum reprter l vai, e que para eles tambm  bom que algum conte o que esto a fazer.

Quatro dias em Kandahar. Finalmente.

Antes dos encontros da tarde vou comer uma piza ao Bocaccio, de que falam os meus vizinhos do Kabul Lodge. Para os estrangeiros em Cabul, o stio-dos-stios  o
Atmosphere, mas a seguir, na "lista segura", h uns cinco ou dez restaurantes mais baratos, como este.
        Segurana  porta, grades e a pior piza que j comi na vida por 15 dlares. O kebab que Nahim me trouxe ontem era dez vezes melhor e custou quatro vezes
menos. As empregadas so da Quirguzia. Blusas justas, jeans justos, cabelo louro. Uma tem a barriga de fora, os braos de fora e uma tatuagem. Vai cuidar do papagaio
na gaiola que est no ptio. E, l dentro, um grupo de contractors com uma chinesa de manga curta, blusa justa e calas. Tudo isto ao som de intragvel pop de uma
qualquer repblica ex-sovitica, que depois muda para Et si tu n'existait pas? As empregadas falam russo ao telemvel. A que me atendeu est c desde Setembro. Construo
significa operrios, significa segurana, significa restaurantes com hambrgueres e pizas e raparigas para os servir, que certamente no sero afegs. A prostituio
em Cabul  sobretudo chinesa.
        E tipos de malares quadrados e cabelo rapado chegam para almoar, com bestsellers de capa brilhante.
Sigo em direco ao Alto-Comissariado das Naes Unidas para os Refugiados (ACNUR). Vou fazer uma reportagem entre os deslocados do Sul e do Leste, e preciso de
uma srie de dados. Na despedida, o assessor de imprensa Nader Farah remata a cortesia com que me atendeu:
        - Bem, claro, o nosso alto-comissrio  portugus *.

Depois, estdio de Cabul, para continuar a ver as meninas de Tareq. Hoje pem mscaras e pela primeira vez lutam. Ele improvisa um ringue com fitas vermelhas. E
vai gritando:
        - Du! Sei! Du! (Dois! Trs! Dois!)
        - Afarim (Bom trabalho!)

        Ou:

        - Time! (Tempo!)
        Quando  para parar.

Venho do estdio no meu quinto txi, entre carros de mula e poppy palaces para alugar, com arabescos, cores e relevos. Em Cabul, chamam poppy palaces aos casares
de mau gosto que simbolizam dinheiro sujo, a comear pela droga.
        Vou encontrar-me com Claire, uma jornalista free lance francesa que vive c, mas a viagem para o centro  um engarrafamento intermitente. E estou nisto quando
me telefonam do Pblico a dizer que dois militares portugueses foram feridos ontem  noite, entre Kandahar e Cabul.
        Telefono para o Estado-Maior e ficam de me ligar com novidades. Espero no Flower Street Caf, onde Claire marcou. Uma casa, um jardim, mesas c fora, um
mac aberto, cerca de bambu, flores, caf. Claire ainda no tem 30 anos e parece uma liceal. Veio a Cabul depois da faculdade fazer um trabalho para a ARTE e ficou.
Est h dois anos no Afeganisto. Vive com o namorado aqui perto. Fala como uma militante, com desdm pela "bolha" dos estrangeiros. Esteve h meses em Kandahar.
Dormiu na Continental Guesthouse, o stio de que a Jane McKenzie me tinha falado. De resto, parece no haver outro em Kandahar.
        -  seguro - diz Claire. - Eles tm os seus acordos com os taliban.
Venho para casa escrever. O Estado Maior d-me novas dos feridos, dois, numa emboscada. No os posso ver esta noite, mas amanh  10 de Junho, e j estava combinado
que eu assistiria  cerimnia dos soldados portugueses em Cabul. Podero contar-me a histria com pormenores.
        Est muito calor. A Internet arranca lenta e depois falha. Tento o telemvel portugus, mas no consigo que envie o e-mail. Farhad vai acordar Nahim, o mais
gentil, que vem, com a cara amarrotada de sono, mexer no endereo IP at a Net voltar.


* Antnio Guterres


                                        1O de Junho

S OITO DA manh tenho de estar no Centro Ortopdico de Cabul. Fica longe, noutra ponta da cidade.

Todos os dias algum pisa uma mina no Afeganisto. Ainda h milhes de minas por todo o pas. E 50 mil pessoas foram amputadas. Perderam uma perna, ou as duas.
        Rosi Gul foi apanhar lenha  montanha.
        - Sempre fui e nunca tinha acontecido nada.
         E ento a mina rebentou.
        - Perdi a perna abaixo do joelho - diz, batendo na coxa esquerda.
        Abaixo do joelho tem agora uma costura repuxada.
        Parece um sbio, Rosi Gul, agricultor, pai de oito filhos. Um sbio oriental, delgado e alto, de longa barba, a sorrir como se sorrisse de outro tempo. Est
a aprender a andar com a sua prtese, e isso di, mas ele sorri.
Perdeu a perna h sete meses, em Parwan, uma provncia no centro do Afeganisto, a uma hora de distncia, e agora dorme provisoriamente aqui, em Cabul, no maior
centro ortopdico do pas, que tambm  o maior centro ortopdico da Cruz Vermelha em todo o mundo.
        A minagem comeou com a invaso sovitica, no fim dos anos 70, e continuou com a guerra entre mujahedin e depois contra os taliban. Por toda a parte no Afeganisto
se vem campos, colinas ou caminhos com marcas brancas. So lugares desminados, um trabalho perigoso e moroso.
        Marca vermelha significa mina. Mas todos os anos as neves mudam as minas e as marcas, e muitos lugares no esto marcados.
        Por isso, h 900 novos acidentes por ano. D mais de dois por dia.
        -  muito difcil limpar as minas - dir Najmuddin, o director deste centro. - Em todas as provncias, rapazes de 12 ou 14 anos vo buscar lenha e pisam
uma mina.
        Num stio no marcado.
        Aconteceu isso mesmo a Rosi Gul.
        -Foi o primeiro acidente ali, ningum falava em minas. A que lhe levou a perna era "dos velhos tempos", ou seja, dos soviticos.
        - O msculo est bom, mas ele  preguioso, tem medo de cair sem a muleta - diz, aproximando-se, o fisioterapeuta Sayed Musa, que  magrinho e tem as feies
mongis dos hazaras.
        Repete isto em dari a Rosi, que sorri e repete:
        - Sem a muleta tenho medo.
        Mas enfia a perna nova no que resta da perna antiga e assenta os dois ps no cho. Usa uns tnis pretos. De um sai um p, do outro um ferro.
        Musa ampara-o, ajusta o joelho da prtese, ambos sorriem, agarrados um ao outro. H uma regra. Toda a gente que aqui trabalha tem uma deficincia. Operrios,
funcionrios, fisioterapeutas - sem pernas, sem ps, cegos.
        A excepo  Alberto Cairo, o italiano que veio h 18 anos para Cabul coordenar o programa ortopdico da Cruz Vermelha e neste momento est fora do pas.
Foi ele quem tornou um lema a discriminao positiva dos deficientes, nos mais de 250 postos de trabalho deste centro. Que significa isto?
        Por exemplo, Rosi Gul sabe que a sua dor tambm  a dor do fisioterapeuta Sayed.
        No se nota nada, porque Sayed no usa muletas, mas uma das suas pernas debaixo da bata no  verdadeira. Sayed bate na perna esquerda e sorri.
        - Isto foi h 20 anos, em Kandahar. As pessoas dizem-me: tenho esta dor assim, no posso andar. Mas quando vem a minha perna ganham coragem. Eu corro, ando
de bicicleta, ando 13 quilmetros!
        Um homem careca, de grandes barbas e camisa branca, passa por eles a marchar sem muletas, direito como um comandante, com uma perna verdadeira e uma perna
de ferro, bem assente no sapato,
        E por todo este pavilho h homens, mulheres e crianas a ganharem pernas para andar.
        Uma menina sem as duas pernas, com duas prteses, empurra um andarilho junto a vrias mulheres sentadas e deitadas  espera, umas de burqa, outras de leno.
        Mais  frente, uma mulher j velha apoia os dois braos com toda a fora em barras paralelas de ferro, assentes no cho, e tenta andar, afastando-se da sua
cadeira de rodas. A fisioterapeuta Najia est mesmo ali, se ela precisar.
        Najia tem 24 anos, olhos verdes, e jeans por baixo da sua bata.  muito bonita. Alguns dos amputados que trabalham neste centro usam meias por cima das prteses.
 frequente ver-se o p verdadeiro sem meia e o outro com meia. Mas Najia usa sandlias. S olhando para os ps  que se percebe. O da esquerda no  de carne e
osso.
        - Quando tinha sete anos pisei uma mina em Cabul, e perdi a perna abaixo do joelho - conta ela. - Isto foi num caminho, que no era uma estrada, ao p da
minha casa.
        Tornou-se fisioterapeuta em Cabul e trabalha aqui h cinco anos.
        E  sua volta as histrias sucedem-se. Perna direita, perna esquerda, por vezes as duas. Muitas amputaes no so recentes. Mas os amputados voltam sempre,
porque uma prtese dura apenas trs anos.  preciso fabricar prteses constantemente. Este centro fabrica-as.
        E d emprego e crdito.
        - Fazemos reabilitao fsica e reintegrao social - resume o director, Najmuddin, tambm fisioterapeuta, tambm ele apanhado por uma mina.
        Agarra a bengala para ir mostrar as oficinas.
        - Perdi as duas pernas aos 18 anos, numa mina em Cabul, perto do rio.
        Alm deste centro, a Cruz Vermelha tem mais cinco no Afeganisto. S cadeiras de rodas, so aqui feitas cem por ms e distribudas pelos centros nas outras
cidades, tais como os componentes das prteses.
        - Comemos por ajudar vtimas de guerra, mas no era justo no ajudar os outros, pessoas com poliomielite e patologias congnitas ou que tiveram acidentes
de carro. Agora fazemos membros artificiais para todos os que precisam. Mas 8o por cento dos amputados no pas so vtimas de minas.
        O centro de Cabul tambm faz formao de fisioterapeutas e colabora com organizaes no governamentais em zonas onde no h centros ortopdicos, como Kandahar,
no Sul.
        A reintegrao social passa por assegurar educao, no caso das crianas; treino vocacional, no caso dos adolescentes; e microcrditos e emprego, no caso
dos adultos.
        - Quando as crianas tm uma deficincia grave, levamos os professores a casa - acrescenta Najmuddin.
        Os adolescentes podem aprender carpintaria, costura e electricidade. Quanto aos adultos, no havendo emprego num dos centros, a Cruz Vermelha procura coloc-los
em organizaes no governamentais.
        - No conseguimos dar trabalho a todos, mas tentamos. E damos um bom emprstimo, entre cinco e seis mil dlares, para comear pequenos negcios. Temos mais
de seis mil pessoas assim.
        Najmuddin entra na primeira oficina, onde homens em mquinas de costura cosem peles.
        - Esto a fazer cintos para as prteses e assentos para as cadeiras de rodas.
        A sala seguinte  a dos metais, peas que ligam as vrias partes das prteses. Depois a sala dos componentes de plstico e reciclados, onde se fazem cabos
para muletas, e Said Rahim, o homem que os tira a grande velocidade da mquina, perdeu a perna h 20 anos.
        O hazara Delawar tem outro problema,  cego. E aqui est a martelar umas peas de metal num recipiente de borracha. Martela automaticamente, com uma nica
pancada seca, sem nunca martelar o dedo, depois pe fechos num buraco, localizando-os com a lngua.
        Uma banca est cheia de rtulas de plstico, outra tem pernas espetadas horizontalmente. So os moldes em que um jovial operrio de bigode vai aplicando
a massa quente, que acaba de sair do forno. Tem 40 anos, e perdeu uma perna aos 16.
        H pernas encostadas dentro de armrios, e ps e pernas na parede, como um mostrurio.
        Karima apanhou com estilhaos no joelho, h dez anos, em Cabul, e agora pincela uns moldes de pernas, de leno e olhos sorridentes, orientais.
        E o director Najmuddin aproveita para mostrar como uma prtese assenta num sapato de tnis. Pernas para algum andar, um dia destes.
        Enquanto espero txi no ptio, o mdico Wiliam oferece-me uma lata de soda.  libans.
        - Muulmano?
        - No, catlico.
        - Maronita?
        - No, romano.
        Est quase a deixar Cabul. Quando lhe digo que vou a Kandahar, chama um gans que esteve seis meses em Kandahar.
        O txi chega e seguimos na direco de Camp Warehouse, a principal base da ISAF.

        Ainda no  meio-dia. Cabul escalda, numa convulso de carros aos solavancos. De cada vez que os carros param, mulheres e crianas vm pedir dinheiro ou
vender coisas. Um rapaz atravessa a rua com uma pilha de grandes pes espalmados. O po, aqui,  mesa, prato e talher. Alm de ser comido, come-se em cima dele e
com ele.  to comprido que se dobra e leva debaixo do brao. Passa pelas mos de toda agente e sacode-se como um pano.
        Camp Warehouse fica a 15 minutos do centro de Cabul.  l que se encontram os soldados portugueses - quase todos comandos e alguns membros da Fora Area
-, recm-regressados da provncia de Kandahar, ltima misso no terreno deste destacamento, antes do regresso a Portugal, entre Julho e Agosto.
        Chega-se a Camp Warehouse por uma longa estrada repleta de camies, armazns e contentores, que  a estrada que leva a Jalalabad, uma favorita dos taliban.
        A base fica do lado direito e  impossvel no a ver. Uma fortaleza cercada por beto e muros, a perder de vista at ao recorte das montanhas que cercam
Cabul. O txi tem de ficar muito antes da guarita dos soldados. Depois, o visitante vai a p por uma passagem entre blocos de beto at encontrar os vigias, neste
momento franceses.
        Frederico Varandas, 28 anos, mdico da misso portuguesa,  o elemento de coordenao do outro lado. A comunicao demora uns minutos. Abertas as grades
de ferro, passa-se por uma revista sumria e a seguir por uma revista detalhada. Os telemveis ficam  porta. E a partir daqui o tenente Varandas conduz o caminho
pelo terreiro ao sol at ao pedao de Camp Warehouse onde todas as coisas so portuguesas: bandeiras, carros, fardas, msica, clubes de futebol e um totem de placas
de sinalizao, de Oliveira de Frades a Elvas.
        Como  10 de Junho, vai haver uma breve cerimnia antes de almoo. O comandante da fora portuguesa, tenente-coronel Carlos Bartolomeu, recebe-me com um
caf que  quase uma bica, raridade em Cabul.
        - No vamos celebrar o 10 de Junho com toda a pompa porque no sabamos se estaramos c. Era impossvel comprometermo-nos com uma festa. Podamos ter imprevistos
durante o movimento.
        O "movimento" foi a vinda de Kandahar para Cabul, 600 quilmetros numa estrada infiltrada por taliban e gangues. Os afegos comuns deixaram de a percorrer.
Todas as organizaes humanitrias voam por cima dela. Mas os militares tm de deslocar colunas de viaturas. Assim, finda a misso no Sul, os portugueses partiram
numa coluna de 22 viaturas e 92 homens. A 80 quilmetros de Cabul, noite escura, foram emboscados num vale, estiveram 15 minutos sob fogo intenso, e dois militares
ficaram ligeiramente feridos.
        A viagem demorou 24 horas, com vrias paragens.
        Estavam perto do fim quando tudo aconteceu, num vale, em noite de lua nova. No se via nada.
        A t-shirt branca diz "Comandos", as muletas dizem o resto. Este  o cabo Lenate Incio - 27 anos, algarvio de Faro, olhos claros como focos de luz - depois
de ter sido atingido no ataque.
        - Uma muniozita que fez ricochete feriu-me aqui na perna - explica, batendo na coxa. - O meu veculo era o terceiro da coluna, tinha uma avaria e estava
a ser rebocado, com cinco homens dentro. Apercebi-me de que estvamos a ser flagelados  esquerda, com tiros, e gritei pelo rdio: "Inimigo  esquerda!" No caso
de flagelao, o procedimento  responder ao fogo e acelerar. Mas o nosso major, que ia no veculo atrs, tinha sido atingido por RPG*. A partir desse momento a
minha deciso foi mandar desembarcar para o lado direito e responder ao fogo.
        Sem esquecer que a viatura da frente possua pouca blindagem de proteco, por ser um reboque, e tinha l dentro dois militares, um sargento e um condutor.
        - Fui a correr busc-los. E foi nesse momento, entre os dois carros, que eu fui atingido na perna e o sargento Antnio foi atingido no brao. Ele no se
apercebeu, mas eu senti logo, apontei a lanterna, vi um buraco, mas como no tinha muito sangue continuei a responder ao fogo. O meu socorrista fez logo uma avaliao
e eu disse que no era preciso o mdico, para no o estar a expor.
        Ainda com dores nos tendes e dificuldade em abrir a mo, o sargento Custdio Antnio lembra-se de as duas viaturas da frente terem seguido e a dele ter
ficado parada, por estar a rebocar a do cabo Incio.
        - Ele veio buscar-me pelo lado direito, e pelo caminho eu senti como que uma coisa a ferver no brao. Depois comeou a doer-me o tendo. Penso que foi um
estilhao, fez um buraco pequeno e queimou. Deve ter sido o mesmo que atingiu a perna do cabo Incio.
        Alentejano de Grndola a viver em Setbal, 31 anos, casado, sem filhos, diz o sargento Antnio:
        - Isto aqui no h heris: tive medo. A minha especialidade  mecnica, agradeo a eles.
A companhia do cabo Incio.
        - Eles  que so atiradores. Se eu fosse sozinho, no podia fazer fogo. Tive sorte em os levar rebocados.
        * Rocket Propelled Grenade,lana granadas.

O comandante desta fora de 160 homens, o tenente-coronel Bartolomeu - lisboeta, 44 anos, casado, dois filhos,  primeira vez "neste tipo de teatro" -, no revela
em que ia na coluna, por razes de segurana.
        - Estava numa posio que me permitia ver tudo. Houve rebentamentos do lado esquerdo, foi identificado o local de onde vinham os tiros e o pessoal reagiu
eficazmente.
        O ataque  coluna portuguesa no aconteceu de raspo Os militares estiveram debaixo de fogo por duas vezes, a primeira das quais durante 15 minutos, os mais
longos e tensos de toda a estadia no Afeganisto.
        - Foram 15 minutos a sermos batidos e estivemos quase duas horas para sair dali - descreve o cabo Incio. _ O fogo ainda voltou por uns minutos.
        Nunca viram quem disparava.
        - S vamos os tapa-chamas das armas no escuro. Ns estvamos num vale e eles estavam numa linha de gua na montanha, espalhados ao longo de uns 200 metros,
a uns quatro campos de futebol.
        Entretanto, j o tenente Barros, da Fora Area - presente, com sete homens, numa misso em que os comandos so a grande maioria -, chamara um caa.
        O apoio areo demorou seis minutos a chegar. Fez uma passagem baixa com largada de flares** no fez largada de armamento porque no houve identificao positiva
do alvo e havia o risco de danos colaterais.
        Mas quem os atacava no abandonou o local. Quando a coluna recomeou a sua marcha, ainda estava a ser atingida.
        - Aps a segunda vez em que fomos batidos, fomos avanando debaixo de fogo - relata o tenente Varandas, que seguia dois carros atrs do cabo Incio.
        Durante aqueles 15 interminveis minutos soube como reagia numa situao de perigo.
        - Acho que tive medo, mas fiquei estupidamente calmo. A minha preocupao foi com os feridos.
E o cabo Incio?
        - Naquele momento, medo foi coisa que no senti. As coisas fluem naturalmente. Garanto-lhe que estava to calmo como estou agora.
        Avana para o almoo com os seus camaradas, assentando as muletas numa passadeira forrada a malha de ferro, entre bunkers.
        Est prestes a terminar a sua vida de militar contratado. Kandahar foi a sua ltima misso. Em 2001 esteve na Bsnia, em 2004 em Timor, em 2006 no Afeganisto.
E, se tudo correr bem, em Agosto estar de volta a Portugal, para a festa de uma menina que faz quatro anos.  sua filha e chama-se Vitria.
        Estes 140 militares portugueses viveram durante 42 dias numa pequena base na provncia de Kandahar, em zona considerada hostil. Mas a emboscada no regresso
foi o momento mais tenso de toda a experincia afeg, ho-de dizer, um a um, os soldados durante o almoo do 10 de Junho.
        O comandante Bartolomeu vai preparar-se para a cerimnia e o tenente Varandas fica a fazer as honras da base. Lisboeta da Praa de Londres, mdico no Hospital
de Santa Marta, este sorridente surfista de olhos verdes nunca se tinha visto num cenrio de guerra, ainda por cima cercado de terra.
        - O que me custa mais  no haver mar. E comea a descrever o cenrio em que a misso portuguesa esteve, no ltimo ms e meio. Um pequeno grupo ficou na
base area de Kandahar e o grosso da fora, 140 militares, foi acabar de construir e inaugurar uma FOB (Forward Operating
** Luzes
Base), pequena base bastante isolada, a 120 quilmetros de Kandahar, em Maywand.
        - Estvamos junto a uma povoao e o resto eram campos. No tnhamos ar condicionado, dormamos em tendas, com 40 e tal graus  sombra. Nem sei quantos estariam
ao sol! Durante o dia no se podia entrar na tenda. Foram 42 dias a raes de combate e para tomar banho tnhamos um poo de onde tirvamos gua.
        Estas condies so comuns nas pequenas bases avanadas, mas por pouco tempo.
        - Os outros contingentes que ocupam as FOB ficam no mximo uns dez, 15 dias. Ns, como somos poucos, no tivemos possibilidade de fazer rotao.
        Havia uma rotina clara. Todos os dias a fora se dividia em trs.
        - Um grupo fazia a segurana nas torres e no porto, porque estvamos numa zona de ameaa sria. Outro grupo fazia patrulhas pela povoao, comunicando com
os civis, explicando que a nossa misso era para a segurana deles, e nestas patrulhas ia sempre um tradutor e um enfermeiro ou eu. O terceiro grupo ficava de QRF,
Quick Reaction Force, para sair em socorro se algo acontecesse.
        Cumprida a cerimnia do 10 de Junho, com parada e discursos ao sol, agora o almoo  volante, na frescura de uma grande sala. Mais de 150 homens a segurarem
pratos de plstico, entre mesas cheias de camares e salgados, refrigerantes e guas, e de vez em quando um sorriso de mulher no bru masculino e eufrico.
        O tenente Varandas apresenta o soldado Daniel Duarte, 23 anos, que vai na sua segunda misso afeg. Leia-se o que se segue com sotaque de Penafiel:
        - Foram 42 dias complicados por causa do calor, no tnhamos ar condicionado nas tendas. E a rao come-se bem 15 dias, depois o sabor  sempre o mesmo.
        - A guerra era por causa dos batidos - diz o cabo-adjunto Joo Lamela, 30 anos, irrompendo na conversa, com sotaque de Barcelos.
        Os homens do Norte esto em maioria e, com -vontade de soldados, Duarte e Lamela comeam a contar o que viveram no Sul afego.
        - A segurana era o mais aborrecido, ficvamos ali na seca. As patrulhas apeadas e motorizadas era o melhor: o contacto com a populao, as crianas.
        - A zona de patrulha era de forte cultivo da papoila e da canbis, grande parte era mesmo dentro dos campos de papoila.
        - Nunca tinha visto tanta papoila.
        - Eles trabalham 24 horas sobre 24 naquilo, havia l sempre gente. Durante a noite havia a preocupao da rega e durante o dia de limpar a planta, para depois
fazerem a seiva, que este ano estava a 80 dlares o quilo. A cabea de papoila tem umas sementes que so doces e as crianas utilizavam muito isso para comer, a
cabea da papoila depois de seca. Isso e umas rvores com amoras. Sempre que passvamos nessa rvore havia um ou dois pendurados, outros dois c em baixo, eles a
abanar os ramos. Devia ser a nica coisa que naquele dia iriam comer, provavelmente. Ali, a agricultura  baseada na papoila.
        - s vezes l encontrvamos um bocadinho com centeio ou trigo, mas 99 por cento era papoila. No princpio, eles pensavam que a gente estava l para a erradicao,
que era o que se tinha feito anteriormente. Mas a gente tratava de esclarecer que no.
        O tenente Varandas intervm, para contextualizar:
        - A nossa misso era garantir segurana  populao e manter as vias rodovirias ntegras.
        Duarte e Lamela retomam:
        - Se o nosso trabalho fosse erradicar a papoila de certeza que amos ter muito mais problemas. Ainda bem que no foi.  o ganho deles, claro que iam responder.
        -  o nico meio de subsistncia que tm. Trabalham aqueles quatro meses para o ano todo. A nossa FOB era um rectngulo e s um dos lados era junto s casas,
de resto era tudo rea de cultivo.
        - Quase toda a populao ali trabalha nisso.
        - Os homens da zona mais os de fora. Num campo, estavam sempre 18, 20 pessoas na papoila.
        - Havia uma parte da populao que nos aceitava e outra que nos hostilizava.
        - No ramos bem vistos.
        - Eles eram simpatizantes taliban.
        O tenente Varandas intervm, para contextualizar:
        - No era bem. Havia um certo receio, a princpio, de que pudssemos atrair problemas para eles. Mas com o tempo as pessoas foram aceitando.
        Duarte e Lamela retomam:
        - Dvamos-lhes sempre gua, parte da rao.
        - Tambm nutriam alguma simpatia por ns porque tnhamos barba e identificavam-nos como muulmanos. Dizamos salam aleikum e eles pensavam que ramos afegos.
        - O uniforme do exrcito afego no  muito diferente do nosso.
        - Eu tinha uma barba assim {pelo peito}. Eles diziam que a barba era um sinal que no ramos mentirosos, que ramos sbios. Normalmente tentvamos abordar
os homens mais velhos, que so os que tm mais aceitao na povoao, e levvamos um enfermeiro connosco. Na primeira patrulha apeada que fizemos, abordmos um mais
velho para perguntar se estava tudo bem, se precisavam de alguma coisa, e ele para nossa surpresa disse logo: "Precisamos, precisamos." Ento precisa de qu? "Estou
aqui com uma dor nas costas, com uma dor na perna..." A gente queria ajudar, mas ele levou para o lado pessoal.
        - Os adultos no se metiam connosco.
        - As crianas eram mais fceis. Mas perto da nossa FOB, no final da misso, j muita gente dizia "bom dia", "Portugal" e "obrigada", que em pashto  manana.
        - Fora da actividade operacional, tnhamos os nossos tempos mortos, que tentvamos colmatar entre jogar voleibol, ir ao ginsio, jogar futebol, que aqui
a rapaziada  toda virada para o desporto.
        - Pronto, no  bem ginsio.
        -  algo improvisado.
        - Com uns paus, umas redes de camuflagem para fazer sombra.
        - Com uns pesositos.
        - Com umas paletes do avio que trazia as nossas coisas fizemos o cho, com madeira fizemos os bancos, levmos daqui os alteres, tnhamos feito l uma barra,
era uma forma de passar o tempo. Tambm o voleibol, em conjunto, por exemplo, com os elementos do exrcito afego. Jogvamos todos os dias, no final da tarde, uma
equipa deles e vrias nossas. O futebol, era gravilha e tudo, mas pronto.
        - Um bocadito de sangue, pronto.
        - Depois eram as conversas  noite, junto  mquina de caf, no refeitrio.
        - Tambm jogvamos uma suecazinha, que eu dava ali cada coa no Joo {Lamela].
        - Falar para casa, era via telemvel, essencialmente. Se no consegussemos, a fora iria disponibilizar o telefone satlite, mas no houve necessidade.
Era curioso porque s tnhamos rede das cinco da manh s sete da tarde. s sete da tarde em ponto terminava. Havia quem dissesse que era por causa dos IED. Os IED
so engenhos improvisados explosivos. Eles {os taliban] activam o engenho e nisto destroem uma viatura e quem vai l dentro. Havia quem dissesse tambm que aquilo
era a energia solar, e assim que terminava o sol deixava de haver rede. Ah, e tinha uma curiosidade, que era o banho. De incio no tnhamos gua armazenada, e a
era uma diverso. O poo tinha uma manivela, a gente fazia a extraco de gua para um balde azul, e era onde tomvamos banhos. E nos mesmos baldes tnhamos que
lavar a nossa roupa.
        - Mas no lavvamos muitas vezes, o pessoal usava sempre a mesma.
        - E depois havia as refeies. Ao incio, como era novidade, toda a gente queria experimentar, e no final de 15, 20 dias olhvamos para o menu e j sabamos
o que amos comer. Havia aquele menu que tinha o batido, o que tinha os m&m, o que trazia o bife com cogumelos. Porque as nossas refeies de pequeno-almoo, almoo
e jantar eram uma rao americana. Exceptuando ao domingo, que era uma rao portuguesa que a gente j conhece bem.
        - Se abordssemos algum a perguntar se precisavam de ajuda e eles nos respondessem "no, estamos bem, o problema so vocs que andam aqui a assustar as
nossas mulheres e crianas", agente j sabia que havia de ser um simpatizante taliban. Mas contacto directo com quem se afirmasse taliban acho que nunca.
        O tenente Varandas intervm, para contextualizar:
        - Houve apenas situaes em que tivemos de sair em apoio a colunas de civis que passavam na nossa rea e tinham sido atacadas. Por mais de uma vez.
        Duarte e Lamela rematam:
        - Chegvamos a uma rea e vamos vestgios. Por exemplo vrias granadas disparadas junto a umas casas. amos abordar a populao e ningum tinha visto nada.
Taliban nesta zona. No! Eles tinham medo de serem repreendidos pelos taliban. A gente sabia que eles estavam l na zona, agora contacto directo, no.
        - Uma vez fomos l bater uns compounds onde se dizia que eles podiam estar e s vimos umas mulheres que disseram que os homens tinham ido embora porque tinham
medo de serem vistos pelos taliban a falarem connosco.
        Na misso portuguesa est includo um mdulo sanitrio, que alm do tenente Varandas, mdico, inclui dois enfermeiros e dois socorristas.
        Um dos socorristas  Liliana Santos, 26 anos, vinda de Macedo de Cavaleiros para a Carregueira, onde esto os comandos, a sua unidade. J esteve uma vez
no Afeganisto, uma vez em Timor e aqui est em Cabul, a ajeitar a boina ao p da enfermaria de campanha. Era a nica mulher na base de Maywand.
        - Foi um bocado complicado, principalmente acerca dos banhos, lavar o cabelo.
        Mostra o cabelo apanhado por baixo da boina.
        - Enchamos um saco com gua, aquecamo-lo ao sol e algum me ia deitando gua no cabelo.
        E a parte do duche.
        - Tinha um chuveiro de campanha, com cortinas. E no dormia numa tenda.
        - Tinha uma diviso para mim, num edifcio que l havia. Ento, o que custou mesmo mais?
        - A comida!
        Liliana no ia na coluna que veio por estrada para Cabul e portanto no viveu a emboscada. E tambm no fazia patrulhas. Todos os contactos que teve com
a populao foram atravs dos feridos que a enfermaria portuguesa recebeu. Manteve-se dentro da base durante 42 dias.
        Pensando melhor, afinal:
        - O que me custou mesmo foi ter l ficado tanto tempo.
        Durante um ms e meio, uns pais em Lisboa andaram convencidos de que o filho estava a trabalhar num hospital em Kandahar. O tenente Varandas poupou-os 
descrio da pequena base isolada, cercada de papoilas. Neste 10 de Junho j sabem da verdade.
        - Em Lisboa, eu estava assustado porque no sabia o que poderia encontrar. Mas o ser humano  uma mquina muito perfeita. Custa no primeiro dia, ao segundo
j no. Foi uma experincia muito rica como mdico. O desafio foi trabalhar com os meios que tnhamos. Para os dois enfermeiros foi puxado, porque as patrulhas dirias
tinham de ter um enfermeiro ou mdico, e eram patrulhas at nove quilmetros, com colete, armamento, a uns 15, 20 quilos.
        Se o susto da emboscada foi o maior, tratar dos civis  a grande memria.
        - So um povo bravo, corajoso.  impressionante a coragem que as crianas j trazem. Como um menino de 12 anos que me apareceu com a cabea aberta at se
ver o osso, a andar pelo seu prprio p e sem chorar. Disse que tinha levado uma pedrada. Veio sozinho porque sabia que tnhamos mdico.
        O tenente Varandas suturou-o, e no foi o nico.
        - Vinham frequentemente. Quando chegmos, os ingleses tinham ferido dois irmos e garantamos o tratamento deles. Herdei aqueles dois feridos.
        Um tinha 20 anos e o outro oito. Ambos com tiros que tinham entrado e sado.
        - Todos os dias iam l  enfermaria. E as condies de assepsia eram complicadas. Ter uma sala esterilizada  utpico. Felizmente correu tudo bem.
        Alm dos civis, houve aquele "polcia afego que furou o p de um lado ao outro ao limpar a arma".
        - Tive oportunidade de ver ferimentos que em Portugal so raros.
        E deu formao de reanimao e sinais vitais aos 40 soldados do exrcito local que estavam com a fora portuguesa em Maywand.
        - Os afegos so um povo com grande instinto de sobrevivncia. Espertos e rpidos. Muito rpidos.
        No princpio da visita, ao descrever a base, o tenente Varandas dissera que estava cercada de campo, mas no falara em papoilas.  um oficial muito bem-educado.
        E ento, as papoilas? Sorri, sem ir mais longe:
        - Em Abril so bonitas.
        Entradas e sadas de bases militares no so o ponto mais descontrado do Afeganisto. So mesmo uma espcie de ponto de mira. Mas passou tanto tempo que
Mulah, o taxista que me trouxe, adormeceu dentro do carro, no parque de estacionamento.
        Passo a tarde a escrever, tentando no pensar no calor. A Internet volta a ficar lenta, a ir abaixo e a acordar Nahim, que trabalha de madrugada e se deita
muito cedo. A Net volta, mas demoro uma hora e meia para enviar oito fotografias.
        s oito deso para comer uma sopa de couve e duas bananas. Foi Farhad quem fez a sopa. No est m. Farhad promete-me um qabuli para quinta-feira. E fala-me
do casal do quarto 25, um homem ocidental com a sua mulher chinesa, que eu costumo ver ao comeo da noite. Do voltas ao jardim, abraados um ao outro, de cales
e t-shirt.
        - Ele sai de manh e volta s 12h. Ela tem o almoo feito.  boa cozinheira. E o quarto 25  um quarto grande, com cozinha. Durante o dia ela no sai de
casa.
        Volto ao quarto para escrever. Ouvem-se avies e helicpteros at de madrugada. A ventoinha de pouco adianta. Escrevo com as mos transpiradas, a janela
aberta e o ecr do computador cheio de p.

                                        11 de Junho

ACORDO S SEIS da manh por causa do calor. Tomo o pequeno-almoo com John, que me conta dos tempos do New Deal, ele mido no Missouri. Primeiro o pai tinha vacas
e distribua leite, at perderem tudo na crise. Depois foi merceeiro. Havia tickets de racionamento para carne e vegetais. John fez a guerra da Coreia. Esteve 40
anos na Marinha.
        - Four, zero - repete.
        E durante a guerra do Vietname?
        - Estava no Pentgono - sorri. - Planeamento estratgico. Entre 1949 e 1989 a minha vida foi combater o imprio sovitico. Trabalhei 50 anos para isso. E
conseguimos. Vencemos.
        A mulher tem 69 anos.  uma home maker, diz John, e o termo parece-me intraduzvel. A filha  comandante na Marinha, o filho casou com uma colega do liceu
reencontrada quando ela j tinha trs filhos. John ficou com trs netos, mais um da filha.
        Agora,  mesa do pequeno-almoo, pede um mata-moscas. Hassan, o governante, traz o mata-moscas. John usa-o e termina a sua omelete. Depois come uma manga.
Sabe comer mangas maduras. Espetar a faca, cortar, torcer, comer  colher.

Vou ter ao ACNUR s 9h30. Abdullah, o jovem afego que ir comigo at ao acampamento dos deslocados, ainda no chegou.
        Enquanto espero no trio, o porteiro, que  de Ghazni, conta-me que ia no carro em que Bettina Goislard foi morta, em 2003. Bettina, uma assistente humanitria
francesa, tinha feito 29 anos dias antes quando dois atacantes taliban dispararam sobre o carro dela, em Ghazni. Foi o primeiro membro internacional da ONU a ser
assassinado no Afeganisto depois do 11 de Setembro.
        Este homem, agora porteiro, tambm ficou ferido. Mostra-me os stios por onde passaram as balas, nos dois braos.
        - A Bettina, entrou-lhe uma bala no peito, saiu pelas costas. Ainda s vezes vejo aquelas imagens.
        O trio est em obras. Cheira a tinta fresca e a tinta fresca aqui  txica, como estar dentro de um bido de gasolina.

        Abdullah aparece e vamos num carro conduzido por um elegante velho de barbas e taqiyah, a touca branca bordada dos muulmanos, que, tal como o porteiro,
fala ingls e  de Ghazni. J Abdullah,  um pashtun de Jalalabad e passou quase toda a vida em Peshawar como refugiado. Usa o cabelo em tiras para a frente, com
gel. Tem 23 anos e  muito gentil.
        Numa periferia de Cabul, atravessamos bazares cheios de gente at chegarmos a um vasto baldio poeirento. Vemos as tendas cinzentas dos kuchis, que so os
nmadas do Afeganisto, e depois as tendas feitas de bocados de pano, de plstico, de madeira, de zinco, de mantas e lenos, que so as dos deslocados internos,
aqueles a que a assistncia humanitria internacional chama IDP Internal Displaced Person).  em nome deles que Karzai est hoje em Paris a pedir dinheiro.

        Nesta tenda no se dorme.  a tenda dos mais-velhos e de receber visitas. Por isso tem espao suficiente para vrias pessoas estarem de p. Abdullah senta-se
na terra com os filhos e deixa a manta e a almofada para as visitas.
        Se Hamid Karzai aqui viesse, Abdullah recebia-o numa tenda assim. Nunca aconteceu e no acontecer hoje, de certeza. O presidente afego est em Paris a
pedir 50 mil milhes de dlares a enviados de 65 pases e 15 organizaes internacionais. Vai conversar com o lder francs Nicolas Sarkozy o secretrio-geral da
ONU Ban-Ki-Moon, a secretria de estado norte-americana Condoleezza Rice. Ser a Conferncia de Paris, para decidir uma estratgia de ajuda ao Afeganisto.
         volta desta tenda dormem milhares de afegos e  muito concretamente em nome deles, que fugiram  guerra perdendo famlia e quase tudo, que essa ajuda
eventualmente ser dada.
        O centro de Cabul fica a uma meia hora de carro, com trnsito. Passa-se o acampamento dos nmadas kuchi e num baldio batido pelo sol est este acampamento
de gente vinda do Sul, principalmente de Helmand, nos ltimos meses.
        Algumas das tendas so do ACNUR, que est a dar um pouco de assistncia aos deslocados internos. Abdullah conhece os lderes tribais pelo nome e os homens
abraam-no quando ele chega.
        As tendas mais antigas tm uma base de lama seca, ou mesmo paredes, o que refresca muito a temperatura interior. Nas outras, est um calor sufocante e ainda
so s dez da manh.
        As crianas brincam com pedaos de terra molhada em charcos. Amassam-na como po. Correm entre o lixo. Tm as pontas dos dedos pintadas de henna. Tm pequenos
ferimentos, crostas, problemas nos olhos. Quase todas esto descalas.
        As mulheres espreitam por trs de panos, sorriem, recuam. Os homens acocoram-se ao sol, a observar, com os turbantes cheios de p.
        Um velho descansa, deitado no cho,  entrada de uma tenda aberta. Vem-se velhos pcaros e pratos de lata. Passam pintos e galinhas.
        Na tenda das visitas h uma mota estacionada para aproveitar a sombra. Cheira a gasolina por causa da mota. Cheira a comida e a esgoto. O cho  de terra
muito seca. O p sobe no ar e entranha-se.
        Abdullah cr ter uns 50 anos, mas parece ter muito mais. Pele curtida debaixo do turbante, barba grisalha, filhos ainda novos. Como a tenda dele  mesmo
colada a esta, chama a mulher, Gulbibi, e ela vem, com a cabea levemente coberta por um leno.
        A burqa  absolutamente dominante nas partes mais pobres de Cabul, mas todas as mulheres  vista neste acampamento esto apenas de cabea coberta.
        Gulbibi e Abdullah tm oito filhos. O mais novo ainda mal anda, o mais velho tem 15 anos e trabalha na cidade para ganhar algum dinheiro. Vo entrando e
saindo da tenda, ora acocorados, ora sentados na terra.
        Como todos aqui, so uma famlia pashtun. Abdullah conta que vieram da provncia de Helmand, distrito de Sanguin, aldeia de Khasho, deixando as terras.
        Que cultivava Abdullah?
        - Papoilas - responde naturalmente. -  a nica forma de ganhar dinheiro.
      - Eu no era o dono, trabalhava l.
      E ganhava  colheita, de quatro em quatro meses.
      -Um lak.
      O que equivale a 1400 euros.
        Esta era a sua vida, e a vida de toda a gente nas redondezas. At que foram apanhados num combate intenso.
        - Perdemos trs pessoas da famlia, o meu pai, o meu tio e a mulher dele. No sabemos como  que a luta comeou. Os taliban e a ISAF no nos avisaram. Comeou
de repente.
        Abdullah conta que primeiro houve disparos e depois avies.
        - Quando os taliban atacam, a ISAF pede avies. Isto aconteceu no comeo do Inverno passado.
        - Viemos embora porque tivemos medo. Pusemos algumas coisas numa camioneta e fomos para Kandahar.
        Um pouco mais a oriente.
        - Passmos l uma noite, mas continumos a ter medo, porque a guerra estava  nossa volta. Ento ns, alguns dos mais-velhos, sentmo-nos a falar e decidimos
vir para Cabul.
        Porqu Cabul, cuja populao duplicou nos ltimos anos?
        - Porque aqui  que esto as organizaes internacionais que nos podem ajudar.
        Chegaram num grande grupo de 60 famlias, cerca de 300 pessoas.
        - A ISAF, os soldados afegos e algumas organizaes deram-nos comida, tendas e rdios. Mas depois no nos deram muito mais.
        Como arranjam dinheiro para comer?
        - Alguns homens trabalham no bazar e o meu filho engraxa sapatos em Cabul.
        Nenhum dos seus oito filhos foi  escola. Passaram por uma madrassa, escola cornica, mas no sabem ler nem escrever.
        Um homem acocorado a um canto da tenda protesta, ao ouvir esta conversa sobre a escola.
        - Ns perdemos gente de famlia, no podemos pensar na escola!
        Chama-se Junahan. Comea a falar sem parar. Conta que acabou de perder uma parente.
        - Foi do calor, ela j no estava bem da barriga. Que idade tinha?
        - Trs anos. Quando aconteceu?
        - H uma hora.
        Junahan e a famlia esto  procura de um stio para enterrar o corpo.

        Da tenda de Abdullah ouvia-se um som de cordas. Pedimos para ver o instrumento.  uma espcie de guitarra-piano inventada por um rapaz, Malik. Convida-nos
a entrar numa pequena casa de terra semi-escavada no cho, para ser mais fresca, que tem uma nica diviso com duas pequenas janelas onde cabe a cabea de uma criana.
E rapidamente as crianas acumulam-se do lado de fora, a espreitar. So bonitas, mas algumas precisavam mesmo de tratar os olhos, os dentes, a pele. Uma tem o olho
direito completamente convergente. H tapetes no cho e cobertores aveludados nas paredes, com um rebordo a enfeitar. Alm do tocador, esto dois cantores, Obaid
e Said.


O mais jovem, imberbe, acende um cigarro, o que  sempre inesperado porque muito poucos afegos fumam. O mais velho, com barbas, encosta a mo em concha ao ouvido
direito e canta a plenos pulmes.
        Estavam a comer em pratos de alumnio quando chegmos.
        L fora, as mulheres aparecem por trs de mantas a sorrir.

No regresso ao Cabul Lodge, Ismaq d-me o meu novo carto da Roshan para o telemvel. Cada carregamento so dez dlares.
        Entretanto aparece Tareq com um americano da National Geographic, Peter que quer fazer um filme sobre ele e as meninas boxeurs. Vai acompanh-lo a Jalalabad,
para ver a terra dos seus antepassados. Como eu tambm queria ir com Tareq a Jalalabad, iremos juntos, e entretanto fazemos conversa nas cadeiras do jardim.
        Tareq fala sobre os avs heris, as meninas boxeurs que so a juventude do Afeganisto e os mujahedin da Aliana do Norte, que "eram umas prostitutas". Peter
est com jet lag e atordoado:
        - Mas a Amrica no apoiava a Aliana do Norte?
        - Antes apoiou os taliban.
        - A Amrica apoiou os taliban e a Aliana do Norte?

Passo a tarde a escrever no meu quarto com ventoinha, at chegar Michael, o alemo que se ofereceu para me mostrar a noite de Cabul.
        - Vamos ao L'Atmosphere - anuncia ele. - Tom's party.
        - Quem  o Tom?
        - No fao ideia.
        O txi pra diante de uns matules armados. Porto de ferro. Um quadradinho com olhos. Antecmara para revista com detector de metais. Porta blindada. Sala-galeria
com retratos do Afeganisto, incluindo a menina da National Geographic. Porta blindada. Mais um quadradinho com olhos. E quando a porta finalmente se abre  a gruta
de Ali Bab ao ar livre. Um grande jardim com focos de luz, mesas e sofs c fora, ao fundo um bar, atrs do bar uma esplanada com ecr gigante: Portugal-Repblica
Checa.
        - 2-1 - diz Michael.
        Ento este  o stio de que todos os forasteiros falam.
        H gente a jantar l dentro e c fora. Ficamos c fora. Os empregados esto de farda e falam um ingls profissional. Trazem o menu num enorme quadro negro.
Peo um prato de queijo e um copo de vinho branco. Michael pede cerveja. O prato de queijo traz brie, blue cheese e um queijo afego duro e forte, algo entre parmeso
e queijo de So Jorge. O vinho no  mau, mas servem-no em copos de Porto.
         volta h garotas de alas com costas e barriga  mostra. Raparigas altas e esguias, com lenos de pescoo esvoaantes a despedirem-se de rapazes com beijos
na boca. Um rapaz senta--se no sof ao lado de Michael e olha para o menu. Depois apercebe-se de que nos confundiu com amigos e desfaz-se em desculpas. Chama-se
Mustaf e  um daqueles paquistaneses com sotaque de Oxford.
Michael cresceu em Berlim e tem 46 anos. Em Cabul, ganha 12 mil euros por ms, incluindo seguros, como consultor de administrao pblica. Trabalha 26 dias por ms.
J viveu no Kosovo, no Montenegro, na Srvia, na Eslvenia e na China. Tem uma filha de 13 anos em Berlim e outra de ano e meio em Pequim. No tem casa nem em Berlim
nem em Pequim. A filha de Pequim tem olhos de chinesa e cabelo louro.
        Quando chegou a Cabul, em Janeiro, Michael viveu no meu quarto, o 24.
        -  muito quente no Vero - digo eu.
        -  gelado no Inverno - diz ele. - Eu dormia de meias e com um leno  volta da cabea. O aquecimento no funciona.
        Desde Janeiro, nunca saiu de Cabul.
        - E de Cabul conheo escritrios e os restaurantes onde os estrangeiros vo. Pobres, s da janela do carro.
        No Kabul Fodge houve aquela festa em que a chinesa do quarto 25 cozinhou para todos e Michael viu o sonolento Abdur Rahman no sof com Soher, o rapaz magro.
Michael passou pela cena gay de Berlim, embora prefira raparigas, e diz que sabe reconhecer quando something is going on. Ele e os colegas s vezes vo ao Bocaccio
para ver as raparigas russas. Quirguizes, digo eu.
        Samos  meia-noite e meia do Atmosphere e ainda l fica gente.




                                    12 de Junho


DURMO MAL, do calor. A meio da noite tenho de abrir a janela. s 6h, quando volto a acordar, no h electricidade. A ventoinha est parada. A Internet est parada.
O cilindro da casa de banho no acende. Deso para dizer a Farhad, que diz que foi um cabo na rua e que daqui a meia hora. Tomo o pequeno-almoo c fora. J sei
comer mangas, embora continue a ficar com as mos cheias de sumo.
        David sai do quarto para esperar o seu carro das 8h30 e como est sozinho fao-lhe companhia no jardim. Diz-me que vai ter com os filhos a Inglaterra e fala-me
das netas - tem famlia!
        E daqui a uns dias vai para uma base militar no Iraque.

        Tomo um banho de torneira com gua fria. Depois a electricidade volta. Hassan j pode lavar as escadas. O jardineiro j pode regar o jardim. Mas primeiro
apara a relva com um cortador velho e junta os montinhos num carro velho. Ouvem-se pssaros. Est tudo reluzente e vivo.
        Nahim chega da universidade com a sua shalwar kamiz e cadernos na mo. Tem sempre um sorriso nos olhos, Nahim.
        Michael contou-me um segredo. Que ele e Peter, o holands, fundaram uma bolsa de estudo para Nahim. Abriram uma conta no banco e vo-lhe depositando dinheiro.
De vez em quando fazem colectas. Para eles cem euros no so nada, para Nahim  tempo de estudo.

        Mas  segredo porque os outros no podem saber. Teriam cimes.
        Eu fico contente por ser Nahim.

        Vou  Cruz Vermelha conversar com um mdico italiano que acaba de voltar do hospital Mirwaiz, em Kandahar, e me descreve os bastidores do que encontrarei.
Gerir o maior hospital do Sul do Afeganisto  mexer com tudo: guerra, inimigos, tradio, religio, pobreza, iliteracia, direitos humanos.
Princpio bsico:
        - Somos sempre vistos como estrangeiros. Criamos um envolvimento com a equipa do hospital para a mensagem passar de afego para afego.

Enquanto espero txi, reparo pela primeira vez na rvore que h c fora, to grande e viosa. E a elegncia das estudantes de leno branco, com os seus chapus de
chuva abertos contra o sol da uma da tarde.
        Os porteiros da Cruz Vermelha batem o p de um velho cadeiro para eu me sentar e oferecem-me almoo do prato que partilham. Quando recuso e agradeo, eles
pem a mo no peito e repetem todas aquelas frmulas protocolares em dari. Nunca encontrei um povo to invulneravelmente elegante.

Almoo na Kabul Coffee House. Um jardim com rosas, l dentro quase uma coffee house nova-iorquina. Smoothies, bagels, muffins, mas todos de chocolate, e depois a
comida  um fast food enfeitado. A empregada parece chinesa.
        C fora, colegas de uma qualquer organizao internacional festejam um aniversrio com uma vela num bolito. As mulheres voltam a pr os seus lenos na cabea
para sarem, os homens pegam nas suas mochilas com garrafas de gua. No jardim ouvem-se marteladas e o som do gerador, que  um dos sons de Cabul - para aguentar
a electricidade.
        Depois de almoo vou ter com uma afeg que trabalha como quadro superior para uma organizao americana. O nome dela foi-me dado por um amigo. Escrevi-lhe
de Lisboa quando comecei a preparar a viagem e se tivesse seguido os conselhos dela ainda agora estava em Lisboa. Porque tudo no meu plano lhe pareceu difcil -
arranjar alojamento, comunicar com as pessoas, viajar de um lado para o outro. E com o meu oramento, mais que difcil - impossvel. Como  que eu, que nunca tinha
estado no Afeganisto, pensava que as coisas podiam ser assim to fceis?, tinha eu ideia da violncia, da dificuldade - dos preos? No me deu uma nica sugesto
concreta. Todas as suas sugestes diziam: esquea.
        H pessoas assim. Fazemos as coisas apesar delas.
        Mas, por amizade ao nosso amigo comum, ela dera-se ao trabalho de trocar comigo dois ou trs e-mails longos, por isso achei que lhe devia telefonar, apresentar
cumprimentos. Ela marcou um encontro, e c estou.
        Recebe-me num gabinete com vrias pessoas. Param o trabalho e ficam a escutar a nossa conversa, o que  to acolhedor como uma oral. Ela faz-me perguntas
arqueando as sobrancelhas, sem que nada sorria nos olhos. Falo-lhe do Kabul Lodge, dos rapazes, de Ismaq, que me quer levar ao Vale do Panshir.
        - (Conhece essas pessoas? Como sabe que so de confiana?
        Conto-lhe que vou com Tareq a Jalalabad.
        - E avisou o Ministrio do Interior que ia sair de Cabul?
        Fao-lhe algumas perguntas de circunstncia e, mal encontro uma aberta, tashakor, salam aleikum, em busca do tempo perdido.

Rameen inaugura hoje uma exposio do calgrafo de Herat numa espcie de galeria de artesanato, a Ganjina. Vou l ter.
        Os trabalhos de caligrafia esto emoldurados no trio e ao longo das escadas, o que significa que toda a gente que vem  galeria passa por eles. Rameen est
muito elegante, de jeans e gel, contente por ter montado tudo to rapidamente.
        No andar de cima, h vrias salas, cada uma com o seu tpico: tapetes, mantas, lenos, almofadas, pratas, roupa tradicional. Quem quiser vestir-se  Karzai
pode vir aqui.

Mas o grande momento da tarde, depois de voltar de tudo isto,  quando Hassan, o governante, entra no meu quarto com um super ar condicionado que parece um rob
do Espao 1999, ou um play mbil gigante. Abre uma tampa, deita gua l para dentro e mostra que tem duas posies, frio e muito frio. Qualquer uma delas faz tanto
barulho como um furaco no quarto. Vou ligando e desligando. Quando est ligado, seca o suor. Quando no aguento mais o barulho, desligo.

Os rapazes do Kabul Lodge vm anunciar o qabuli. Esto orgulhosos. Deso para comer. Sou a nica. Servem um prato cheio e mais um pratinho de meat balls. Ismaq faz-me
companhia falando do Vale do Panshir. Conta-me que tem l a mulher e filhos pequenos.

        - That's the afghan way. Eles l e ele aqui, a ganhar o que pode. Que sim, que me leva.
        No fim Hassan apresenta-se. Quer saber se gostei. Foi ele o cozinheiro.

                                CABUL - JALALABAD

                                   13 de Junho

AH, A INESQUECVEL viagem Cabul-Jalalabad.

Ontem, Tareq disse que tnhamos de ir pela estrada m. Tareq viveu na Califrnia. Tem saudades de barras de chocolate com menta. A expresso que usou foi shitty
road. Tnhamos de ir pela shitty road, porque a normal no estava aberta. Pela shitty road seriam cinco horas at Jalalabad, calculou Tareq.
        De Cabul a Jalalabad so 150 quilmetros.
        E portanto, s 6h3o da manh, Tareq chega com Farhad, o motorista mais irascvel do Afeganisto com os outros motoristas (no confundir com o Farhad do Kabul
Lodge), e arrancamos.
        No Parque Shar-e-Now preparam-se lutas de galos, um entretenimento de sexta-feira, dia santo. Na Flower Street, que  mesmo uma rua de floristas, h molhos
e molhos de flores no passeio,  espera de serem arrumadas. Compramos um quilo de pistachos sem sal, muitas garrafas de gua, e deixamos Cabul, em direco a leste.

       Jalalabad fica entre Cabul e o Paquisto.  uma cidade pashtun fortemente tribal e dos lugares mais quentes do Afeganisto. Quente-hmido. A malria d-se
bem.

        Rolamos no asfalto. Montanhas cor de areia, cho cor de areia, tendas nmadas cor de areia. De repente, Farhad guina para fora da estrada. Fora da estrada
agora  a estrada. Acabou o asfalto.
        Bem-vindos  shitty road.
        Pedras. Terra seca. O carro salta como uma batedeira. Quando outro carro passa fica tudo cor de p. No vemos nada e Tareq diz que os pulmes vo doer.
        O p dissolve-se e aparece uma vaca morta na berma. Dois meninos abraados em cima de um monte. Pastores, restos de guerra, cadveres de camies. Passam
autocarros oferecidos pelo Japo como se j tivessem 50 anos, bagagem esmagada contra os vidros sujos, cabeas de burqa azul e no tejadilho um homem.
        A roupa cola-se ao corpo, camos para a esquerda, para a direita, batemos com a cabea e Tareq diz que ainda nem chegmos ao precipcio.
        Subimos. E subimos, subimos, subimos. Sempre que algum passa rente, ficamos numa nuvem. De repente, depois de uma curva, l est o precipcio. E abrimos
a boca. Porque no precipcio h um engarrafamento de camies, como s os h nesta parte do mundo, enfeitados com chocalhos, fitas, luzes e imagens do paraso, lees,
paves, drages e casinhas, tigres bochechudos, quedas de gua, olhos de mulher postos em ns, que de repente estamos parados atrs daquilo tudo.
        Mas abre-se uma brecha e os carros vo passando ao longo de quilmetros e quilmetros de camies, carga a transbordar, atada com cordas.
        Aparece um blindado americano em sentido contrrio ao nosso. E depois outro, e outro. Quatro humvees*. Peter grita a um dos soldados.
        - How do you like it here?
        O soldado grita de volta:
        - I'm going to buy a house!
        Tambm passa um carro branco cheio de flores com uma noiva l dentro. Uma noiva de Jalalabad para Cabul.
        Os pistachos so excelentes. Os melhores que j comi.
        Farhad, o irascvel,  melhor que um duplo de cinema. Buzina, insulta, mete-se pela encosta, empurra latas velhas dez vezes maiores que ele.
* O blindado ligeiro polivalente que os americanos usam muito neste tipo de terreno.

At que numa curva apertada est tudo parado mesmo, e a gente olha para o abismo. Caiu um camio.
        Homens de turbante sentam-se como budas. Outros acocoram-se.
        Esperamos. E esperamos, esperamos, esperamos. Depois algo se solta e os carros passam. Curvas, pedras, p, carros, e autocarros, e camies alm dos engarrafados.
Alguns so grandes lagartas trpegas e nas curvas ficam a oscilar, cai-no-cai, sobre o vazio.
        Farhad guina mais uma vez para fora da estrada e esta agora  a estrada secreta, diz Tareq. Um atalho com mais pedras mas mais rpido. L vamos a chocalhar,
com uma fila inteira atrs, na estrada secreta. Passamos aldeias de terra batida e colinas com pontinhos brancos, a marcar o lugar onde estiveram minas.
        E ento, ao fundo, como se tivssemos atravessado para o outro lado do espelho, aparece um lago azul-turquesa levssimo a perder de vista, e depois um vale
frtil ao longo do rio Cabul, entre montanhas.
        O paraso h-de ser assim, fulminante. Se calhar j no estamos vivos.

        Terras frteis com campos de romzeiras. Estrada de asfalto paga pela Unio Europeia. O rio sempre pela esquerda, a correr rpido e verde, com espuma branca.
Um desfiladeiro d western.
        A, antes de uma descida, paramos junto a uma banca sobre o rio.
        De um lado a montanha, do outro a gua. H rapazes sentados no cho a descascarem batatas e uma enorme frigideira negra em cima de brasas, Farhad lava o
carro e ns molhamos a cara.  uma paisagem soberba, indomada.
        Passam motoretas a zunir com pontas de turbante desdobradas ao vento, como se o grande trnsito se tivesse esfumado. O atalho secreto de Farhad, afinal,
ps-nos um pedao  frente de toda a gente.
        E a primeira imagem de Jalalabad so rvores verdes e frondosas.

        Nas convulsas semanas a seguir ao 11 de Setembro, foi nesta estrada que morreram quatro jornalistas estrangeiros. Iam de Jalalabad para Cabul quando os taliban
os emboscaram e executaram. De entre eles, eu conhecera um ms antes Maria Grazia Cutuli, do Corriere della Sera. Li os relatos desta sangria em Itlia, na capa
de todos os jornais, acabada de voltar do Paquisto. E essas mortes acrescentaram-se s muitas que a estrada de Jalalabad j trazia, ao longo das cantantes slabas
do seu nome.
        Num s dia, 16 mil pessoas foram massacradas aqui no tempo do Grande Jogo, esse combate entre a Inglaterra vitoriana e a Rssia czarista pelo controlo da
sia Central. O imprio britnico avanava pelo Sul, o imprio russo avanava pelo Norte, e no meio havia um tabuleiro que era o Afeganisto. Ao longo do sculo
XIX, enviados, infiltrados e espies cruzaram-se nestas montanhas, e muitos acabaram sem cabea, na mo das irredutveis tribos afegs. Mas a maior sangria de todas
foi o massacre da coluna liderada pelo inepto general William Elphinstone.
        Aconteceu a 6 de Janeiro de 1842. As foras britnicas retiraram de Cabul em direco a Jalalabad, acompanhadas pelas famlias. A liderar a marcha, ia uma
guarda de 600 soldados e cem cavaleiros. "A seguir vinham as mulheres e as crianas em pneis, e mulheres grvidas ou doentes em palanquins carregados por criados
indianos. Depois vinha o principal corpo de infantaria, seguido da cavalaria e da artilharia. E por fim a retaguarda, tambm composta de infantaria, cavalaria e
artilharia. Entre o corpo principal e a retaguarda, serpenteava uma longa coluna de camelos e bois carregados de munies e comida." *
        * Peter Hopkirk, The Great Game, Londres, John Murray, 2006
        Na semana seguinte, os vigias do forte britnico em Jalalabad avistaram um homem cambaleante a cavalo. Era o mdico William Brydon, nico sobrevivente dos
16 mil. A meio caminho, nas montanhas de Gandamak, os afegos tinham emboscado a coluna, com o requinte de deixar um para contar.
        Do ponto de vista britnico,  uma derrota dramtica - um general cai numa armadilha sanguinria, arrastando 16 mil pessoas. Do ponto de vista afego, 
uma histria de resistncia - o imperialismo fica to traumatizado que no voltar ao Afeganisto.
        Certamente William Elphinstone no lera, ou no lera bem, o que o seu quase-homnimo Mountstuart Elphinstone, um escocs, escrevera dcadas antes.
        Mountstuart foi o primeiro enviado ocidental  corte de Cabul. O imprio britnico encarregou-o de minar as aspiraes de Napoleo na regio, atravs de
acordos com os lderes locais. Chegou ao Afeganisto em 1808. Tinha 29 anos. No podia confiar em guias nem livros porque simplesmente ainda ningum os escrevera.
E resolveu ele prprio escrever um, revelando inesgotvel curiosidade e poder de observao. No ser
fcil encontrar nas livrarias An Account of the Kingdom of Caubul, mas
vale a pena encomendar*

        Mountstuart Elphinstone debrua-se sobre botnica - "flores inglesas, como rosas, jasmins, papoilas, narcisos, jacintos, nardos, goivos, etc. & etc., so
encontradas nos jardins e muitas delas selvagens" - e contempla as variedades zoolgicas: "O nico stio onde ouvi falar em lees foi nas colinas em redor de Cabul,
e eram pequenos e fracos, comparados com o leo africano. At duvido que haja mesmo lees." Em compensao, os tigres "podem ser encontrados na maior parte das zonas
arborizadas", e "lobos, hienas, chacais, raposas e lebres so comuns por todo o lado". J "os ursos so muito comuns nas montanhas arborizadas, mas raramente deixam
os seus locais habituais, excepto onde h cana-de-acar plantada, o que os atrai para as plantaes".
        Mas sobretudo o jovem escocs compe um retrato histrico, poltico e antropolgico, explicando o sistema de lderes e as assembleias tribais, os cdigos
de vingana e a importncia da honra, e o papel de moeda que tm as mulheres em tudo isso, particularmente no mundo pashtun, como o de Jalalabad: "Entre os afegos
ocidentais {pashtun}, a expiao de um assassinato  feita dando 12 jovens mulheres, seis com dote e seis sem. O dote de cada  60 rupias (7,10 libras), parcialmente
em bens. Por cortar uma mo, uma orelha ou um nariz, do seis mulheres; por partir um dente, trs mulheres; por uma ferida acima da testa, uma mulher; uma ferida
abaixo da testa (a no ser que leve um ano a curar) ou outra qualquer pequena ofensa  expiada por desculpas e submisso. Entre os afegos orientais, so dadas menos
mulheres e mais dinheiro; e, no total, a pena  mais leve. H equivalentes para a mulher fixados em dinheiro, que a pessoa a quem a compensao  devida poder escolher
se quiser."
        A idade comum para casar  de 20 para os homens e 15 ou 16 para as mulheres, informa-nos. "Os homens incapazes de pagar o preo de uma mulher frequentemente
ficam solteiros at aos 40 e por vezes h mulheres solteiras at aos 25. Por outro lado, os ricos s vezes casam antes da


* O meu volume, sem data e sem local,  uma reimpresso feita nos Estados Unidos pela Kessinger Publishing da edio original de 1815 e encomenda-se na Amazon. Uma
outra edio (Akademische Druck-u.Verlagsanstalt, Graz, ustria, 1969) pode ser consultada na Biblioteca de Arte da Fundao Gulbenkian, em Lisboa.




puberdade; as pessoas nas cidades tambm casam cedo, e os afegos orientais casam rapazes de 15 com raparigas de 12, e at mais novas, se podem pagar a despesa."
        As mulheres do campo "andam descobertas" e as da cidade "esto sempre embrulhadas num largo lenol branco, que as cobre at aos ps, e esconde completamente
a silhueta", ou seja, a burqa: "Conseguem ver atravs de uma rede no capuz."
        Mas estas mesmas mulheres "fazem festas em jardins e, embora mais escrupulosamente tapadas, no esto muito mais confinadas do que as mulheres na ndia".
As "das classes altas aprendem frequentemente a ler, e algumas revelam considerveis talentos para a literatura".
        Tudo somado, Mountstuart Elphinstone conclui que a condio das afegs "est longe de ser infeliz, comparada com a das mulheres do pases vizinhos". E diz
mesmo que no viu nenhum pas no Oriente, a no ser o Afeganisto, onde "exista amor como o entendemos".  comum, por exemplo, "um homem ir procurar fortuna  ndia
para comprar uma determinada rapariga".
        Quanto aos homens, o viajante ingls que vem da ndia, descreve Elphinstone, "admirar nos afegos as formas fortes e activas, a compleio clara e as feies
europeias, o esprito industrioso e empreendedor, a hospitalidade, a sobriedade e o desprezo pelo prazer que transparece em todos os seus hbitos; e acima de tudo
a independncia e energia do seu carcter. (...) Defini-los- como virtuosos, comparados com os povos a que tem sido acostumado".
        E o malogrado William Elphsintone teria tirado especial proveito em meditar no que se segue: "Os vcios [dos afegos] so vingana, inveja, avareza, ganncia
e obstinao; por outro lado, gostam de liberdade, so fiis aos amigos, generosos para quem depende deles, hospitaleiros, corajosos, duros, frugais, laboriosos
e prudentes, e prontos a defender o seu spero pas contra um tirano. As sociedades nas quais a nao est dividida possuem no seu interior um princpio de repulsa
e desunio demasiado forte para ser ultrapassado."
        Mountstuart  exemplifica,   citando  um  velho  afego: "Damo-nos bem com a discrdia, damo-nos bem com alertas, damo-nos bem com sangue. Mas nunca nos daremos
bem com um dono."
        O livro foi publicado em 1815. Dcadas depois, j retirado da actividade diplomtica, Mountstuart ter feito crticas  poltica britnica no Afeganisto,
o que no evitou que os 16 mil marchassem para a morte.
        Desdenhando a dor e a morte, os afegos continuaram a combater invasores ao longo do sculo XX, e esta visceral competncia guerreira, aliada  hospitalidade,
bem serviu Osama bin Laden.
        Algures nestas terras tribais entre Jalalabad e o Paquisto estaro os endoutrinados da AL Qaeda e o doutrinador, ele mesmo.

Ao contrrio de Cabul, que fica a grande altitude, Jalalabad est numa regio pantanosa. O calor  peganhento e pica, como se tivssemos bichos por baixo da pele.
        Vamos  casa da famlia de Tareq pousar as bagagens. No  uma construo antiga. Tem um quintal e divises arejadas, alguma boa moblia em madeira trabalhada,
tapetes, espelhos. Mas  uma casa rarefeita, onde s est a dormir temporariamente um primo, e isso nota-se. A cozinha e as casas de banho so um abandono.
        O primeiro compromisso de Tareq  com Gul Agha Sherzai, o governador de Jalalabad de quem se fala como candidato a presidente do Afeganisto.
        Adelino Gomes entrevistou Sherzai em 2001, e falmos dele antes de eu vir para o Afeganisto.
        Foi o ltimo governador de Kandahar antes dos taliban e o primeiro governador de Kandahar depois dos taliban. H quem lhe chame senhor da guerra, homem de
mo dos americanos, um grande mamfero sempre  tona.
        Sherzai  mais do que efectivamente grande,  uma figura de lutador de sumo, com barba por fazer, papada, vozeiro.
        Est a deixar as suas marcas em Jalalabad. Tem conseguido fundos internacionais. Fez um campo de futebol, fez parques, arranjou as estradas. H semforos,
asfalto liso, como no h em Cabul. E este palcio  um mimo de relvados, espelhos de gua e fontes lmpidas, flores e rvores. Um orgulho para Jalalabad.

        Conduzem-nos ao governador por corredores e galerias de retratos a leo, em que guerreiros antigos aparecem ao lado de homens carecas de gravata e culos
escuros. Depois abre-se uma porta e vemos uma longa mesa de vidro com dez lugares postos de cada lado, e s homens.  uma tpica mesa afeg. Do tecto pendem lustres,
mas come-se caril de galinha com Pepsi. Duas longas filas de latas de Pepsi, frente a frente. E,  cabeceira, Sherzai.
        Parece um ogre e move-se como um ogre.
        Convida-nos a comer. Fala s com Tareq, porque no fala ingls. Tareq pergunta-lhe se aceita dar-me uma entrevista. Sherzai diz que sim, e faz sinal para
que eu me aproxime. Prope que a entrevista seja ali mesmo, enquanto acaba de comer. Toda a mesa est em silncio a olhar para ns. Digo a Tareq que talvez seja
melhor depois de almoo. Quando Sherzai se levanta, vrios homens o seguem. Instalamo-nos todos na sala ao lado. No  propriamente um cenrio intimista. Ele parece
perceber as minhas perguntas em ingls e responde em pashtun. Tareq traduz. Nem uma frase se aproveita. Lugares-comuns, ocos. E no me sinto  vontade para fazer
todas as perguntas. No quero embaraar Tareq, p-lo numa posio difcil. Em suma, no h condies para uma entrevista. Sherzai fala e fala, e a nica coisa que
sobressai  Cristiano Ronaldo.
        Quando peo gua, um homem olha-me, hostil. Enxota-me do corredor para a sala.

        A seguir h uma cerimnia a que Tareq tem de assistir. Vai acontecer num pavilho do outro lado do jardim. Mal entramos, separam-me de Tareq e de Peter e
conduzem-me ao canto das mulheres.
         um grande pavilho cheio de rapazes, centenas e centenas, quase todos vestidos de branco ou cores claras, todos de tnica,  espera do governador.
        A poucos quilmetros daqui tropas afegs e seus aliados internacionais combatem taliban e seus aliados internacionais. As zonas tribais de fronteira, onde
no manda a lei nacional mas sim o cdigo pashtun, esto a um pulo, e aqueles que os americanos mais procuram no ho-de estar muito longe. Mas neste auditrio o
ambiente  gnero os-jovens-so-o-futuro.
        Gul Agha Sherzai vai anunciar os vencedores de um campeonato juvenil. Dezenas de bicicletas, algumas motas, ares condicionados e frigorficos dentro das
suas caixas foram empurrados pelo cho polido at ao palco, trofus  espera de serem entregues.
        Os jovens so o futuro e so, em regra, homens.
        No chegam a dez as raparigas a um cantinho do auditrio, todas embrulhadas em lenos que lhes deixam apenas os olhos  mostra.
        Quem  mulher senta-se ali. Quer dizer, aqui, onde estou.
        Uma grande vantagem, porque assim  possvel no morrer de aborrecimento com os discursos que empatam tempo at o governador chegar. Em vez disso, h Malala.
        Malala, 22 anos, devia ter o leno branco por cima do nariz, mas agora o leno est por baixo do queixo, o que significa que a cara dela fica  mostra.
        No  uma concorrente ao campeonato. Est aqui em trabalho, como voluntria de uma organizao de juventude. Cresceu em Peshawar, entre milhes de refugiados
afegos. E, como muitas ex-refugiadas, voltou com mais mundo.
        - Aqui  muito difcil trabalhar. O povo afego no tem educao e nestes 30 anos de guerra no quiseram que as suas mulheres fossem instrudas. Eu ia 
escola e os rapazes perseguiam-me. O meu pai achava que eu no devia continuar a ir  escola, mas o responsvel da nossa organizao convenceu-o.
        Tapa o nariz com o leno, porque se apercebe de que o leno est cado.
        - O meu pai disse-me: "Se vais trabalhar, cobre a cara." E eu estou a seguir o conselho do meu pai.
        Fez o 12. ano, um curso de ingls, um curso de informtica.
        -E agora estou desempregada.  por isso que trabalho como voluntria.
         preciso perceber o que isto significa.  uma deciso de risco. No  comum uma mulher trabalhar em Jalalabad. Menos comum ainda se for solteira. Isso significa
que anda fora de casa, que se mostra. E Malala nem sequer est a fazer isso por dinheiro. Quer tanto ter uma vida de trabalho que se ofereceu como voluntria em
vez de ficar em casa  espera, como o pai, que est desempregado, e a me, que nunca trabalhou fora.
        O Paquisto era mais fcil.
        - Eu era um beb quando emigrmos para Peshawar, e voltar a Jalalabad foi um choque muito grande. O calor. O abuso das pessoas. A perseguio de mulheres
e raparigas. Aqui incomodam as mulheres. Quando vem uma rapariga e um rapaz pensam logo que eles esto a fazer mal e depois no deixam rapazes e raparigas trabalharem
juntos.  completamente verdade que perseguem as estudantes. Quando uma estudante vai para a escola tem de usar a burqa.
        Este  o limite de Malala.
        - Eu disse ao meu pai: "No aceito a burqa, porque sei os meus direitos. Sou instruda e sei." Mas muitos pais e famlias s deixam as raparigas ir  escola
se elas usarem burqa.
        Malala experimentou uma vez e foi suficiente.
        - De repente ca e magoei-me. Jurei nunca mais a usar. A jovem reprter Birshna, que vem entrevistar Malala para uma rdio local, ouve e acrescenta:
    -  muito escuro dentro de uma burqa.
        Mas Birshna e Malala so excepes. S por estarem aqui, num canto, ao p de centenas de rapazes, j so excepes.
        - Quero trabalhar para as pessoas do meu pas - diz Malala, num mpeto, quando Birshna parte. - Quero que saiam da escurido, da ignorncia, que fiquem de
p nos seus prprios ps. No nos ps dos outros.
        Os outros so as tropas estrangeiras e o dinheiro de fora que paga os campos de futebol, as estradas, os parques. E, c dentro,  o vazio de lderes.
        - No Afeganisto no h ningum em quem confiar. Na organizao onde est como voluntria, Malala lida com trabalho infantil, casamentos forados, raparigas
que aparecem a queixar-se da famlia.
        - Casam-nas aos 12, aos 13, aos 14 com homens de 50 e de 60. Muitas delas fogem porque no querem casar. Houve o caso de uma rapariga de 16 com um homem
de 65. Um dos membros da nossa organizao convenceu o pai dela a no a casar e eles aceitaram. Tambm houve o caso de uma rapariga de 18 anos que fugiu com um rapaz
de 22 para Peshawar. Prenderam-nos. Mas depois eles casaram.
        Malala quer casar.
        - Primeiro quero ficar noiva. Depois quero casar e estudar Economia ou Medicina.
        O telemvel toca, ela atende, desliga e puxa o leno para cima do nariz, segurando-o com a mo.
        - O meu irmo est sentado ali. Aponta para a frente. Era ele ao telefone.
        - Disse-me: "Senta-te como deve ser e cobre a cara."
        E este  um de quatro irmos, todos supostamente com autoridade sobre ela.
        - Eu disse aos meus irmos; "Sou responsvel por mim. Tenho o direito de ir trabalhar, conheo os meus direitos." Quando lhes dizia estas coisas eles saam
de casa furiosos. Diziam-me: "Se usasses burqa deixvamos-te ir trabalhar." E eu respondia: "Nem se me matarem uso a burqa.
        Pega no leno branco em que est enrolada:
        - Disse-lhes: "Isto assim est bem, cobre o meu corpo e a minha cara." Eles concordaram, mas disseram: "Tens que te proteger. Somos muulmanos."
        A presso constante, sobretudo nos casamentos, leva raparigas ao suicdio.
        - H muitos lugares onde as raparigas pegaram fogo a si prprias. Quando a filha da minha prima tinha seis meses, o pai foi raptado. A me casou-se com um
primo. Ela cresceu e a me f-la noiva do enteado. Mas ela queria casar-se com outra pessoa. Ento regou-se com gasolina.
        Malala diz tudo isto com o leno na boca, e a mo a segurar o leno.


        Vo trazendo motas, bicicletas, mquinas de lavar roupa e frigorficos, os prmios. Samos depois do discurso de Sherzai, pelas cinco da tarde - mas o concurso
s terminar pelas nove.
        Tareq prope fazermos um pouco da estrada que vai para norte, at  provncia de Kunar, onde a sua famlia tem terras. Atravessamos a ponte, entre riquexs
e motoretas, e deixamos Jalalabad.
        -  melhor tapares a cara - diz Tareq.
        Estamos em plena zona tribal. Enrolo uma ponta do leno  volta da boca e do nariz. Continua a haver placas da Unio Europeia, sinal de que algo foi investido
aqui. Rolamos no asfalto, entre bancas de estrada, carros de bois, mulheres nos campos, e nem uma de cara descoberta.
        At que ao fundo aparece uma barreira na estrada, com homens armados.
        - Um checkpoint taliban - diz Tareq.
Somos dois afegos e dois estrangeiros no carro. O av de Tareq 
um heri pashtun mas estes admiradores do Mulah Omar podem no saber. Tareq decide dar meia-volta.
        O plano seguinte  ir ver a terra onde ele gostava de construir um centro desportivo, na periferia de Jalalabad.
        Neste momento  um baldio junto ao rio, com dezenas de afegos a jogarem crquete, herana da colonizao inglesa da ndia. Antes da independncia, a ndia
comeava a poucos quilmetros daqui, onde agora est a fronteira paquistanesa. E, alm do crquete, debaixo das rvores h mesas de bilhar.
        Tareq est de jeans e camisa Lacoste. Contempla os seus domnios de braos cruzados. De costas,  um atleta americano. De perfil,  um falco pashtun. H
cabras a pastar na erva rala. Um garoto passa por ns a rir, radiante. Ao fundo da rampa que leva ao rio, um homem e um menino esto a lavar-se. O homem est acocorado
com as suas calas de balo, a cabea cheia de espuma. O menino olha para ele. Depois mergulham, E o garoto radiante desce a rampa a correr e mergulha tambm de
cabea, tronco nu e calas de balo. D inveja. O sol est a pr-se, mas o calor no.
        Assim se passa um fim de tarde de sexta-feira, no muito longe do esconderijo de Osama bin Laden.
        Antes de voltar a casa, Tareq ainda pra no Spinghar Hotel, o melhor de Jalalabad, que  uma mistura de art dco e aplicaes soviticas. Como de costume,
h um belo jardim, com rvores de grande porte e flores cuidadas. Tambm h uma pequena mesquita e Tareq quer que Peter filme a depois de jantar, na altura da orao.
O que estamos a fazer agora  uma operao de reprage.
        Quando voltamos a casa, Farhad lava o Toyota Land Cruiser no ptio e eu vou l, pr os meus ps debaixo da mangueira para ele os molhar, e depois tambm
molho a cabea, o pescoo, os pulsos - o possvel. Sento-me na mesa de plstico que est na relva mas vm os mosquitos e lembro-me de que Jalalabad  zona vermelha
de malria.
                Samos para jantar, j noite. Primeiro, h luzes que vm das lojas e gente pela rua, mas depois avanamos na escurido, a caminho do rio. De repente,
o jipe dobra uma esquina e os faris iluminam homens de camuflado com AK47 na mo.  como parar na cena de um filme. Anda-se no Afeganisto sempre  espera que ningum
aparea  frente dos faris, a bloquear o caminho. E agora est a acontecer.
        Nenhum de ns diz nada. Os homens parecem ficar muito tempo parados com as suas armas a olhar para ns, mas deve ser s um segundo.
        At que, de um golpe, um deles abre a porta de trs do meu lado. Tem um bigode faanhudo. No olha para mim, olha para os homens na frente. Depois diz:
        - Yusuf?
        Um segundo de cortar  faca. Todos estamos a olhar para Tareq. Tareq olha para o homem a direito:
- No.
        Outro segundo. Ou cem.
        O homem fecha a porta e os outros afastam-se, abrem caminho.
        Recomeamos a respirar.
        - Houve um rapto - diz Tareq. - Eles esto  procura de algum.
        Depois disto a noite de Jalalabd parece escura demais, cheia de coisas que no se vem.
        Vamos por um caminho de cabras para o restaurante  beira-rio onde era suposto jantarmos. O mesmo, suponho, onde um militar portugus que aqui esteve, Octvio
Teixeira, me tinha dito que comera um peixe ptimo. Mas  Vero.
        - Peixe no  bom para as nossas barrigas - diz Tareq. - Galinha, o.k.?
        Subimos para o tecto do restaurante.  um tecto de cimento daqueles com vigas de ferro espetadas, prontas para se construir mais um andar. H tapetes espalhados.
Sentamo-nos os quatro num, Tareq, o primo de Tareq, Peter e eu. O rio est mesmo  minha esquerda, uma massa escura com risos e chapes de crianas e homens. Os
tapetes  volta esto cheios e no h uma nica mulher. Todos os homens olham para mim. Tareq diz-me que a me dele costuma vir aqui. Eu no digo nada. Penso que
a me dele  afeg, fala a lngua,  senhora de terras, filha de um heri, e  tudo isso que estes homens vero nela, enquanto em mim s vem uma mulher, e isso
 quase nada.
        A espera  desconfortvel. Tareq sugere que eu me sente de costas voltadas para os homens, e eu sento-me. Fico com uma luz de non em frente dos olhos que
me impede de ver a cara de Tareq. Aparece um rapaz que conhecemos no Palcio do Governador. Tareq fala nos bombistas suicidas. Como os midos nas madrassas so violados
por mullah, o que os quebra e humilha, porque passam a ser vistos como maricas, e depois crescem cheios de raiva e vingana e so os bons voluntrios para bombistas
suicidas. Tareq fala disto quase como de um mtodo. Conto-lhe a cena que vi no Jardim Babur, o comandante de mos dadas com o rapaz, e ele diz-me que isso est por
toda a parte, entre os ex mujahedin, no governo, nos departamentos. Um comandante tem os seus rapazes bonitos.
         muito comum. Fala de uma gravao que circulou com uma festa em Mazar-i-Sharif

        - Vestem os rapazes de meninas. Pintam-lhes os lbios. Este relato no melhora o meu estado de esprito.
        A tica contempornea cultiva a verdade como um valor: viver de acordo com aquilo que se . Babur estava mais perto disso no sculo XVI do que os pashtun
agora. Nesta sociedade tribal a verdade no  um valor relevante. Pode mesmo ser um sintoma de fraqueza, e a fraqueza  uma desonra para um pashtun.
        Nada que a antiguidade ocidental no tenha conhecido. Gregos e romanos no perdiam virilidade por sodomizarem efebos. A desonra, a fraqueza, o socialmente
inaceitvel seria serem sodomizados. A diviso do mundo era entre activos e passivos, e os verdadeiros homens eram sempre activos.
        O exrcito de Alexandre, o Grande, esteve instalado em terras afegs e incentivou a mistura de sangue com as locais. O casamento foi praticado como estratgia
imperialista. Ainda hoje muitos pashtun pensam que vm da os seus olhos verdes. Mas tudo o que era claro e exposto nesse mundo helnico,  esquivo e escondido nas
tribos afegs. O mundo de Alexandre era o do poder imperial, o mundo das tribos  o do poder pulverizado, em que cada cl estabelece as regras da sua sobrevivncia.
Os imprios fazem-se com sbditos, mas o Afeganisto  um mundo de homens que se habituaram a no precisar de ningum. Primeiro o cl, depois a tribo, depois a etnia,
depois a nao, e no fim o estrangeiro - que de sculo em sculo vai cometendo os mesmos erros a lidar com eles.
        O cdigo de comportamentos, aquilo a que os pashtun chamam pashtunwali,  mais do que a lei,  o alicerce. Derrub-lo  destruir o cl, a tribo, a etnia.
        Tudo neste mundo desafia a capacidade relativizadora da antropologia ps-ps-colonialista.  um mundo activamente tribal, em que os dceis, os diferentes,
os homossexuais e as mulheres pagam um alto preo para continuarem vivos, e muitas vezes morrem.
        E este  o mesmo cdigo que honra os mais velhos, que no teme o sofrimento, que protege pobres e doentes, que faz da hospitalidade um santurio e une o
cl em todos por um.
        No tecto do restaurante em Jalalabad, o rapaz que conhecemos no Palcio do Governador conta que est noivo. Tem 21 anos e vai casar na prxima sexta-feira.
Est de camisa cor-de-rosa, bem barbeado e com gel, mas  um filho da sua tribo.
        - O casamento custa pelo menos 20 mil dlares, porque  preciso convidar toda a gente que sabe o nosso nome.
        Claro que ele no tem esse dinheiro. Os noivos continuam a tradio apesar de no terem dinheiro, e comeam a vida de casados cheios de dvidas  tribo.
        E, como muitas tradies afegs, isto no acontece s entre os pashtun.
        Antes de voltarmos definitivamente para casa, Peter e Tareq vo filmar na mesquita do Hotel Spinghar. Tareq diz que  melhor eu esperar no hall com o primo,
porque os homens que rezam podem no gostar de me ver na mesquita.
        No hall, mais sovitico que art dco, peo ch e  um espanto. No h um sorriso. Mas olham para mim de forma abusiva at me fazerem ir l para fora.
         enfurecedor.
        Enquanto estou no jardim, aparece um holands auditor do Banco Mundial a fumar um cigarro. Conheci o colega dele em Herat.
        Durante a noite o calor continua peganhento. Ventoinhas no tecto, uma mquina infernal a deitar ar, e nada atenua a sensao de ter um melao picante por
todo o corpo. Tareq oferece-me um dos quartos da casa com duas ventoinhas. Mas est to quente que no respiro bem. Tareq deita-se noutro quarto, de cales, to
nu como eu no posso estar. Vou para a sala. Mudo duas vezes de sof. O primo de Tareq traz a cadeira de rede que estava no jardim. Toda aberta faz uma cama. Ele
e Peter estendem-se nos sofs e eu na cadeira, os trs em frente  mquina de ar condicionado, que certamente  j uma boca do inferno. H o barulho e h o sobressalto
constante de que algum salte o porto ou o abra. Sonhos maus, dores no corpo, exausto. De repente ouve-se um barulho e o primo de Tareq salta, com algo na mo.
        - Em caso de emergncia - diz ele, mostrando o revlver, quando se volta a deitar.
                                 JALALABAD - CABUL

                            14 de Junho

O TENENTE VARANDAS tinha dito que o corpo humano  uma mquina perfeita, e s vezes  verdade. Acordo como se tivesse dormido.
        Ainda vamos ao terreno de Tareq, aquele onde ele quer construir um centro desportivo. Peter e Tareq filmam planos. Fora do enquadramento, duas meninas de
vestidos floridos apanham erva para animais. Leio dentro do carro. Farhad concertou o ar condicionado. Faz muita diferena.         Voltamos pela shitty road, sem
engarrafamentos e faz-de-conta que sem calor. A piece of cake.
        Mas quase em Cabul rebenta-se algo no carro e temos de esperar na estrada que uns primos de Tareq nos venham buscar.

        Chego a casa com notcias de Kandahar. Ontem  noite, os taliban entraram  bomba na priso e libertaram mais de mil prisioneiros. Foi o mais forte ataque
desde 2001. A cidade est em estado de emergncia. Ponho-me ao telefone.
        Membro de uma ONG e filha do presidente da Cmara, Rangina Ahmadi no se lembra de sentir medo assim:
        - Em seis anos a viver aqui, nunca assisti a nada que parea to perto da guerra - conta ao telefone, de Kandahar.
        Quando os taliban atacaram a priso da cidade, libertando mais de mil prisioneiros, e matando entre nove e 15 pessoas, segundo as primeiras avaliaes, Rangina
estava suficientemente perto para os vidros da casa terem rebentado com as exploses, granadas e tiros.
       E a tenso ia em crescendo.
         - Tenho muito medo em relao a esta noite, no sei se vai acontecer algo,  muito assustador saber que h centenas de criminosos e taliban  solta.
        Ao anoitecer, Kandahar continuava em estado de emergncia, com as foras governamentais afegs concentradas numa "operao massiva" para encontrar os fugitivos,
com a colaborao da ISAF. Tropas canadianas e americanas estavam a fazer uma busca casa a casa.
        Os taliban reclamaram o atentado de forma triunfante. Num comunicado colocado online e em declaraes  AFP informaram que demorou dois meses a preparar,
envolveu um camio-cisterna, 30 motociclistas e dois bombistas suicidas.
        Desde a interveno americana no Afeganisto, esta  a investida urbana mais forte e consequente levada a cabo pelos taliban.
        - Nunca assistimos, nem remotamente, a uma aco to forte - resume Jean MacKenzie, do Institut for War and Peace Reporting, baseado em Cabul.
        O governo afego reconheceu que se tratou do "mais sofisticado" ataque at agora. Reforando a ideia de que o Sul do pas est fora de controlo, representa
um golpe para o presidente Karzai e as tropas nacionais e internacionais.
        Tem havido ataques sistemticos s foras de segurana e bombistas suicidas em vrias partes do pas.
        Em Abril, com grande repercusso meditica, foi atacada uma cerimnia pblica, tambm em Cabul, onde Karzai estava. Morreram trs pessoas. Mantm-se at
hoje um certo cepticismo quanto a quem estaria por trs da operao e se Karzai esteve efectivamente em perigo.
        Mas agora os taliban conseguiram, numa operao incisiva e mortfera, recuperar 400 dos seus homens, entre eles vrios acusados de se prepararem para ataques
suicidas, e as descries tm o ritmo de um filme de aco.
        Primeiro, o camio-cisterna cheio de explosivos rebentou com a esquadra da polcia e o porto da priso. Depois, um bombista suicida a p rebentou com outra
entrada. Montados em motas, os taliban entraram no edifcio e venceram os guardas em combate. Carrinhas  espera c fora levaram os taliban fugitivos. E os outros
prisioneiros desapareceram entre pomares de roms, contam os lojistas da zona.
Tudo no ter demorado mais do que 30 a 40 minutos, conta Rangina.
        - Comeou pelas 21h3O. Eu tinha ido visitar o meu tio, que vive no bairro da priso, e estava a telefonar para me irem buscar quando tudo aconteceu. Houve
uma grande exploso que abanou tudo. A maior parte dos vidros partiu-se. Pegmos nas crianas e fomos para longe das janelas, porque no havia nenhuma cave. Ouvimos
tiros e granadas durante uns dez, 15 minutos. Houve uma pausa e os tiros recomearam mais uns cinco minutos. Depois ouvimos pessoas a correr e tiros a aproximarem-se.
        Mais tarde, por telemvel, colegas disseram-lhe que era a priso que estava a ser atacada e que os prisioneiros tinham fugido.
        - Ficmos com medo que alguns fossem para o telhado ou para o quintal.
        Rangina passou a noite em casa do tio e no dia seguinte foi trabalhar.
        - Mas esto a dizer-nos para no andarmos na rua. A rdio e a televiso locais dizem que foram 1200 os que fugiram! H rumores de que a ISAF est a entrar
na cidade, o que at agora nunca aconteceu.
        Esta hiptese  vista de duas formas, diz Rangina.
        - As pessoas pensam que pode ajudar, mas tambm que a presena deles pode trazer mais ataques.
        Kandahar, que foi a primeira capital taliban,  um centro de insurreio armada, e  difcil identificar as fronteiras de controlo dentro da cidade e quem
est de que lado.
        Nas prises afegs,  frequente os detidos passarem meses e anos sem irem a tribunal ou terem defesa, e as condies no so boas. No ms passado, os prisioneiros
de Kandahar tinham estado em greve de fome. O ministro da Justia admitiu ontem que as condies na priso de Kandahar no esto de acordo com os padres internacionais.

Janto no Sufi com Laurent, jovem suo ambicioso, jornalista de televiso. Acaba de chegar a Cabul para uns dias de reportagem e Graziella deu-lhe o meu telefone.
No h arroz, dizem os empregados. Laurent avalia um tapete. V se cabe na bagagem.

                                    Cabul

                                  15 de Junho

ESCREVO PARA O JORNAL quase todo o dia.
Saio para umas pequenas compras, escoltada por Soher, o magrinho do Kabul Lodge. Vamos pela rua do Ministrio do Interior, depois Chicken Street, at  esquina.
Buscamos a French Bakery, mas mudou de instalaes. Soher pouco fala ingls. Desodorizante, pasta de dentes, chocolate, dez dlares. Um frasco de mel, cinco dlares.
As bananas so maduras de mais. Ningum vai s compras em Chicken Street.
        Volto a escrever e s sete saio para jantar com o Joaquim no Intercontinental.  um hotel dos antigos, daqueles onde nos anos 70 havia gente de fato-de-banho
na piscina. Fica no cimo de uma colina, e promete grande vista.
        Subimos com o cu a mudar para um amarelo com neblina. Lua a meio em cima das montanhas com as casas de terra em prespio. Vrios controlos de segurana
at l acima.
        O jantar  buffet e as mesas so  volta da piscina. Quando chegamos ainda h pouca gente, mas depois vo chegando famlias afegs. At Tareq e a sua delicada
namorada, muito bonita, que param uns minutos a cumprimentar.  um lugar de afegos chiques e afegos com dinheiro. E h homens a comer sozinhos, gordos com relgios,
gente das ex-repblicas soviticas.
        Um gigante de feies mongis e bigode passa a falar nisso com uma loura platinada.
        Temperatura perfeita para a noite.
        Pela segunda vez, arrumo todas as minhas coisas para deixar o quarto.
                                        CABULA - KANDAHAR
                                           16 de Junho

Vou ACORDANDO desde as 3h30 com medo de perder o avio. Antes das sete j estou na Cruz Vermelha. Escrevo sentada no sof onde as famlias dos prisioneiros de Bagram
costumam esperar a sua vez. Aparecem duas italianas de ONG, e uma delas  Rosella, com quem vim de Herat para Cabul. O avio vai primeiro a Kandahar, uma hora de
voo, e depois segue para Herat. Elas vo para Herat. Falam italiano e, por causa de mim, falam do italiano cujo guia foi morto *.
        Rosella  radical: os jornalistas no devem ir a Kandahar pr afegos em perigo.
        Samos s 7h30 do escritrio da Cruz Vermelha para o aeroporto. Agora so 8h30 e estamos sentados neste pequeno avio a hlice para 18 pessoas. Somos nove.
Da janela vejo um aviozinho do Programa Alimentar Mundial, outro das Linhas Areas do Tajiquisto e dois de companhias afegs Ariana e Pamir.
        Sobrevoamos as montanhas em direco a sul. Parecem pele de elefante. Castanho-ocre, ar cheio de poeira. L ao fundo um pequeno vale verde, depois montanhas
e montanhas. Agora um grande vale verde. Outra vez montanhas. A voar baixinho, assim, v-se a geografia. Restos de neve nas montanhas mais altas.
        Ontem  noite liguei para a Continental Guest house de Kandahar. Em ingls o homem disse-me que eram 70 dlares incluindo pequeno-almoo, bebidas quentes
e frias, lavandaria e Internet. Perguntei se havia mais jornalistas e ele disse que havia um da Al jazeera e um holands consultor de agricultura. No h nenhum
jornalista ocidental em Kandahar.

        Um holands consultor de agricultura?
        Nunca conseguirei distinguir os espies.

Estamos a descer e agora parece o deserto. Kandahar surge no meio do deserto.

No aeroporto h uma bandeira do Canad, o pas que tem o comando militar da regio, outra dos Estados Unidos e outras aliadas, ao longo de uma estrutura moderna.
        Afinal no sou s eu que saio aqui. H tambm Karen, uma enfermeira inglesa. Um dos motoristas da Cruz Vermelha oferece-nos bolinhos enquanto esperamos debaixo
de uma rvore. A Cruz Vermelha anda sempre com dois carros. Falta o outro. O ar  quente mas seco. Sopra uma brisa. Um alvio, se eu pensar em Jalalabad.

A caminho da cidade, Karen diz-me que  melhor eu no tirar fotografias.

Espalhada por uma paisagem plana e desrtica, Kandahar parece uma interminvel aldeia. Ao longo dos 22 quilmetros entre o aeroporto e a cidade, a estrada  asfaltada,
inclui dois checkpoints com tropas afegs e tem trnsito: camies, velhos txis, bicicletas. No h rvores. Dezenas de camelos muito magros pastam devagar num baldio.
Passam rebanhos de ovelhas e cabras dos nmadas kuchi, que so de etnia. pashtun. As kuchi, de cara descoberta, grandes lenos e saias muito coloridas, so as nicas
mulheres que se avistam.
        Depois, nos primeiros bazares da cidade comeam a ver-se algumas mulheres, todas com burqas de vrias cores, violeta, verde, castanho, o que no  comum
noutras zonas do Afeganisto, onde geralmente as burqas so azuis.
        Entrando pela cidade, as ruas esto vivas, mas num cenrio de ps-guerra ou de h 30 anos. Muitas casas destrudas ou abandonadas, em runas. Muitas casas
de terra batida em pleno centro. Canais sujos, lixo.
Mas homens de turbante e mantos s costas e crianas por toda a parte, entre riquexs motorizados e carros de burro.
Kandahar  to antiga como Alexandre, o Grande. Em rabe, Alexandria  Iskandaria. Deu Kandahar aqui. Os taliban fizeram dela a capital-smbolo

*Em Maro de 2007, Daniele Mastrogiacomo, jornalista do La Republica, foi raptado pelos taliban na provncia de Helmand. Esteve duas semanas cativo e a cabea do
tradutor afego foi cortada  sua frente. Os taliban libertaram-no depois de terem obtido a libertao de vrios dos seus militantes.
        do mais incompreensvel regime que o Ocidente conseguia imaginar no ps-11 de Setembro. Foi a primeira cidade que ganharam e a ltima que perderam, em 2001.
 o grande centro do Sul do Afeganisto, onde toda a gente diz que ningum sabe quem  quem, quem faz o qu, realmente, e de que lado est.
        Tm vindo jornalistas embedded com as tropas canadianas, mas no h muita cobertura da vida civil.

A grande aldeia desemboca numa espcie de avenida e pouco depois estamos na delegao da Cruz Vermelha, aquilo a que se chama compound. C dentro vivem 15 internacionais,
que trabalham com 130 afegos no residentes. O queniano Arthur faz-me uma visita guiada, incluindo o subterrneo cheio de latas de cerveja e garrafas de vinho.
Durante o ataque taliban  priso, os internacionais refugiaram-se aqui.

        Neste compound h pequenos jardins, estantes com livros, piscina e barbecue, mas tambm barricadas de sacos de areia, rede antigranadas, rolos de arame farpado
e um bunker.
        Um dos sinais de que tudo podia rebentar no Afeganisto foi o assassinato deliberado de um membro da Cruz Vermelha, o engenheiro suo-salvadorenho Ricardo
Munguia, em 2003, pelos taliban.
        O Comit Internacional da Cruz Vermelha no  a ONU. No representa partes, no envia tropas. Tem um mandato de neutralidade perante todos num conflito.
E o Afeganisto representa uma das suas maiores operaes humanitrias.
        A morte de Ricardo foi, assim, alarmante. Se a Cruz Vermelha estava a ser atacada, toda a gente podia ser atacada. Os Mdicos sem Fronteiras, com dcadas
de trabalho local, abandonaram o Afeganisto depois de membros seus serem mortos. Outras organizaes concentraram pessoal internacional em Cabul.
        A Cruz Vermelha manteve as delegaes, incluindo projectos de longo prazo como o apoio ao Hospital de Mirwaiz, e at reforou a equipa de internacionais.
Mas,  semelhana de todas as organizaes no Afeganisto, estabeleceu regras de movimento.
        Em Kandahar, a cidade onde Ricardo foi morto, os membros internacionais tm recolher obrigatrio s seis da tarde, andam sempre com walkie talkies, nunca
andam a p na rua e, mesmo que s tenha de sair uma pessoa, saem pelo menos duas carrinhas com bandeira, rdio e intrpretes, alm dos condutores.

Turid, uma enfermeira norueguesa pequenina, ruiva e sardenta, irrompe no gabinete de Arthur com queixas em relao ao enfermeiro-chefe afego do Hospital de Mirwaiz,
que no  enfermeiro e est numa vendetta - expresso dela.
        Kaz, o cirurgio hngaro,  divertido, como uma personagem egocntrica de Woody Allen. O suo, Christophe, mantm-se opaco durante o almoo.

Todos lhe chamam Kaz.  um veterano, Kazmer Szabo, o hngaro. Chegou a Kandahar em 1997, no tempo dos taliban.
        - O hospital estava meio vazio. No havia medicamentos nem pessoal. A Cruz Vermelha tinha de fazer tudo. Comemos a formao de mdicos e agora fazem eles
as coisas. O resultado  muito positivo. H cinco cirurgies especialistas e ao todo 20 mdicos no departamento de cirurgia.
         Kaz esteve na Tanznia, no Qunia, no Sudo, no Darfur, em Timor Leste e diz que " muito especial conseguir-se um resultado destes". Aos 48 anos, regressa
ao Afeganisto depois de uma dcada. Acha Kandahar "mais ou menos na mesma" e a grande emoo  reencontrar os mdicos.
        - Alguns fizeram a primeira operao comigo.
        J o queniano Arthur Aseka, que a Cruz Vermelha contratou para este projecto, vai em ano e meio aqui, depois de Uganda, Tanznia, Qunia, Gana, Malawi e
Paquisto. Como gestor de projecto,  um diplomata, 60 por cento do tempo no Hospital de Mirwaiz e 40 por cento no Ministrio da Sade em Cabul, onde esto em curso
reformas, incluindo formar parteiras e equipas mveis para zonas remotas.
        - No  dizer como as reformas devem ser feitas, mas dar bases. Apoiar  mais sustentvel que substituir. Quando formos embora eles podero continuar.
        O que  fundamental, porque "os afegos no vem nada como permanente" e "sabem que os internacionais esto aqui por seis meses ou dois anos".
        Indisciplina e corrupo "tm de ser vistos no contexto do pas".
        - No h formao. A tica  pobre. Podem pedir 20 dlares a uma mulher prestes a dar  luz. E muita coisa no  escrita. Muitas instrues so orais, no
h uma ideia verificvel do que se d a cada paciente, e as drogas encontram o seu caminho para fora. Estamos a tentar montar um sistema para verificar o percurso
dos medicamentos, mas ainda  fcil serem roubados.
        E h "mdicos que receitam fora da lista do hospital para os doentes irem ao bazar".
        Vindo da Etipia, o suo Christophe Menu, 37 anos, chefia a delegao. Em ano e meio de Kandahar, diz que "conheceu cinco jornalistas", o que o leva a concluir
que "no h interesse no Afeganisto", pelo menos fora de Cabul, apesar de "as necessidades humanitrias serem gigantes e no estarem a ser atendidas".
        Alm de Mirwaiz, a Cruz Vermelha assiste quatro mil famlias de deslocados, com o Crescente Vermelho, e apoia a evacuao de feridos. Ainda  vista "como
ocidental, o que no  verdade, aqui tem japoneses, africanos, australianos". Mas Menu no pensa que seja um alvo.
        - Temos o crdito de uma longa presena. H bom entendimento da populao quanto ao que fazemos. Das partes em conflito tambm, mas isso requer constante
explicao sobre como trabalhamos mantendo-nos imparciais.

Arthur leva-me ao hospital, para uma primeira visita. Vrios edifcios espalhados por um jardim fatigado. Enfermarias pobres como em Gaza - mas em Gaza respira-se
melhor ar. Cho sujo - mas sujo de terra e lixo.
        Voltamos  delegao.
        De acordo com as regras, s posso andar nos carros da Cruz Vermelha entre a delegao e o hospital. Mas, se em Cabul no h estrangeiros pelas ruas sozinhos,
em Kandahar menos ainda. Arthur sugere-me que pergunte a Christophe como saio daqui. Pergunto e Christophe pede a Kabir, o assessor de imprensa, para chamar um carro
da guest house. Enquanto espero converso um bocadinho com Kabir, que acende um cigarro e  arrogante. Vem o carro com um barbudo impassvel. Sobe o som de um mullah
no auto-rdio, allah-u-akbar, deus  grande, e a vamos por Kandahar, eu sozinha no banco de trs com as minhas vistosas roupas kabulis e a minha cara  mostra.
Num minuto penso que no fao ideia para onde estou a ser levada, mas no minuto seguinte penso que de qualquer forma no h nada a fazer. A verdade  que foi Kabir
quem chamou o carro, e Kabir trabalha para a Cruz Vermelha. Portanto este carro vai levar-me  Continental Guesthouse.
        E abre-se um porto, e o carro entra na Continental Guest house.
        Vrias casinhas, um jardim magnfico cheio de rosas de todos os tons, romzeiras, relva fofa e aparada, pssaros.
        Tudo isto seria muito agradvel no fosse esta sensao de ser a nica mulher e de toda a gente olhar para mim. No  s no haver mais nenhum jornalista
ocidental.  no haver mais nenhuma mulher. Da recepo  limpeza de quartos, passando pelos hspedes, no h uma nica afeg.
        O meu quarto fica numa fiada de quartos com portas e janelas para o jardim.  confortvel. No tem stio para escrever, mas um dos rapazes traz-me uma mesa
de plstico e a Internet funciona como em Cabul, por cabo, em cada quarto. A casa de banho  daquelas em que h duche mas no h banheira nem polib. A gua cai
no cho, junto  sanita. A sanita  um monumento barroco cor-de-rosa. Em cima da cama est o inevitvel cobertor de peluche. O rapaz que trouxe a mesa traz-me latas
de Pepsi geladas.
        ltimas notcias: os taliban tomaram um distrito junto a Kandahar. O combate com as tropas internacionais parece iminente.

        De manh, Kandahar parecia uma aldeia longe da guerra, com, bancas de legumes nas ruas, o bazar aberto e crianas a chapinhar em canais. Mas a tenso disparou
quando se soube que centenas de taliban tinham ocupado uma regio 30 quilmetros a norte e se preparavam para um assalto a Kandahar.
        Ao comeo da noite, tropas canadianas e o exrcito afego estariam a formar um cordo entre a cidade e a zona controlada pelos taliban.
        Essa zona  Arghandab, um distrito da provncia de Kandahar. De acordo com os reprteres da Al jazeera English, o lder tribal de Arghandab concordou com
a presena dos taliban. Recebida esta luz verde, os taliban pediram  populao que sasse e tomaram dez aldeias do distrito.
        Em Kandahar conta-se que os dois principais opositores aos taliban em Arghandab foram assassinados recentemente.
        No  claro se as tropas internacionais e afegs se preparam para avanar na direco dos taliban ou se esto posicionadas apenas em defesa da cidade.
        Esta tenso em Kandahar acontece trs dias depois de os taliban terem assaltado a priso. A operao demonstrou como lhes foi fcil irromper pelo centro
da cidade.
        Ao mesmo tempo, reforou aquilo que os kandaharis chamam "clulas taliban adormecidas" no meio da cidade. Ou seja, alm de terem cerca de 500 homens a ocupar
Arghandab, os taliban contaro com vrios operacionais dentro da cidade. A sequncia de acontecimentos leva a um receio de atentados suicidas, para alm de um eventual
ataque.
        H dias, o presidente afego Hamid Karzai ameaou atacar os taliban refugiados em solo paquistans, um discurso que irritou o Paquisto.
        Em Kandahar, a actual demonstrao de fora taliban  interpretada tambm como uma espcie de resposta ao que Karzai disse.  comum a ideia de que o Paquisto
pode estar a colaborar com o avano taliban.

                                        KANDAHAR

                               Noite de 16 para 17 de Junho

2h30.
        O cu treme. Trnsito de avies, talvez exploses, ao longe. Ces a ladrar, carros na estrada mesmo por trs da minha cama, e mais um avio l em cima. No
sei o que est a acontecer. No sei em quem confiar. Ningum diz quem , nem o que faz. O que estou aqui a fazer?  como se o cu a todo o momento fosse explodir.

                                  17 de Junho

        ACORDO S SEIS. O jardim est deserto e tranquilo. Tomo o pequeno-almoo  sombra, enquanto o jardineiro rega as rosas. Da noite para o dia  o paraso.
Vem Anton, o holands descalo, com roupas de afego. O afego Qais, simptico correspondente da Al jazeera, vai sair em reportagem e leva-me at  priso que os
taliban rebentaram.

Plantados  volta de uma rotunda, soldados do exrcito afego vigiam os pontos cardeais em Kandahar, de arma em riste. E, seguindo pela estrada da priso, dezenas
de soldados ao longo das bermas. O perfil de uma montanha levanta-se no cu empoeirado, como uma grande bossa. Chamam-lhe a Montanha do Elefante. Do outro lado ficam
as aldeias ocupadas por taliban em Arghandab, de onde centenas de habitantes saram entretanto, buscando refgio na cidade. Mais um grupo de deslocados internos.
        Kandahar adormeceu e acordou na expectativa de um confronto entre os taliban e as tropas internacionais e afegs, entretanto reforadas num cordo  volta
da cidade.
        - Passei a noite aqui, sem dormir - diz o soldado Mahmud.
        Tem 20 anos, arma, capacete e colete  prova de balas, e botas  beira do vo onde se acumula o lixo e correm guas sujas.
        O cho treme  passagem de uma coluna de tanques canadianos. Durante toda a noite foi o cu que pareceu tremer, num incessante movimento areo, rasando a
cidade.
        Por trs do soldado Mahmud h entulho, restos de cimento e tijolos, pavimento partido, paus. Andando um pouco mais, entra-se no terreiro junto  entrada
principal da priso. O porto e parte do muro foram pelos ares. H carcaas de carros e edifcios esventrados. As precrias lojas de estrada ficaram desfeitas. E
as exploses chegaram ao outro lado da rua, onde vrias lojas foram parcialmente destrudas.
        Ainda assim, as que se mantm esto todas abertas, no meio dos escombros. Aqui bicicletas, ali uma oficina, madeiras para andaimes, janelas, pneus, refrigerantes,
cermica. E um movimento aparentemente tranquilo de homens a ir e vir.
        Os habitantes de Arghandab contam histrias mticas da resistncia  ocupao sovitica, nos anos 80. Arghandab tem um canal que divide a parte norte da
parte sul, e os mujahedin ocupavam o Norte. Os russos nunca puseram o p nessas terras de vinhas e romanzais que facilitam o esconderijo - onde agora estaro os
taliban.
        O porta-voz da NATO diz que h indicaes de actividade taliban. Mohammad Farooq, o lder governamental em Arghandab, fala em cerca de 500 combatentes. Alguns
dos residentes que deixaram a zona contam s agncias que eles rebentaram pontes e plantaram minas, para dificultar o avano das tropas aliadas. Um homem que se
apresentou como comandante taliban, Mullah Daoud, disse que se juntaram em Arghandab porque querem "conquistar uma cidade importante como Kandahar".

A seguir esperam-me na Cruz Vermelha, e Qais deixa-me l. Vou passar boa parte do dia no hospital.

Sari vem da Europa e isto  Kandahar.
        - Aqui vejo coisas que s conhecia dos livros.
Mes que andaram anos com o tero de fora. Todas as semanas bebs com espinha bfida. Todos os dias bebs que j morreram.
        - A maior parte das mulheres tem os filhos em casa e vem ter connosco muito tarde, com os filhos mortos.
        Coisas que atiram o Afeganisto para o fim do mundo.
        Mortalidade materna? Pior s na Serra Leoa.
        Em Kandahar esto uns 40 graus  sombra. A finlandesa Sari puxa o leno do pescoo e cobre o cabelo porque chegou a hora de voltar ao hospital. Continua
a parecer uma nrdica demasiado loura e robusta para parecer afeg. Mas, escada acima, escada abaixo, e sem ar condicionado, no deixar descair o leno at ao fim
do dia.
        E o mesmo faz a outra nrdica das redondezas, Turid.
        Sari Silventoinen  mdica obstetra, Turid Andreassen  enfermeira peditrica e ambas integram a equipa do Comit Internacional da Cruz Vermelha em Kandahar.
Vieram, como todos os dias, almoar  delegao e agora vo regressar ao hospital que, alm de servir a cidade, serve todo o Sul, trs milhes de pessoas.
       O Hospital de Mirwaiz  o eixo da vida e morte nesta parte do Afeganisto disputada ao governo e seus aliados estrangeiros.
        At na Cruz Vermelha o ar est tenso como um balo.
        Sari e Turid sobem para a carrinha da frente, acompanhadas por um fantasma azul.  a tradutora-parteira Shaqiba*, que acaba de cobrir a risonha cara de lua
cheia com a burqa que todas as mdicas, enfermeiras e parteiras afegs usam.
        Mirwaiz fica a 50 metros, "no, 87!", corrige Turid, mas sempre que algum l vai  esta operao rodoviria. Na carrinha de trs segue Arthur Aseka. Quando
um grupo misto tem de ser transportado, as mulheres vo num carro e os homens noutro.
        O Afeganisto  um pas altamente protocolar. H todo um cdigo com consequncias diplomticas. A separao de homens e mulheres representa um sinal de no-afronta
a esse cdigo.
        Para alm disso, permite s afegs que trabalham com a Cruz Vermelha no serem acusadas de se misturarem com homens. Torna-se socialmente mais aceitvel
para as famlias deix-las trabalhar.
         a mesma lgica de um dos investimentos em curso, a construo de um bloco operatrio para mulheres.
        - No  possvel fazer um hospital, mas ter um bloco j  um passo, e  algo que toda a sociedade quer - resume Christophe Menu.
        Se o objectivo  que mais mulheres sejam assistidas, em vez de lutar para que elas sejam assistidas entre homens e por homens - e ter a populao contra
-, luta-se para que sejam assistidas entre mulheres e por mulheres - e tem-se a populao a favor.
        E em menos tempo do que leva a explicar isto j as duas carrinhas da Cruz Vermelha estacionam no hospital.
        Da maternidade  morgue, Mirwaiz  um circuito humano completo. Pe-se como uma lupa no mapa e v-se o Afeganisto.
        As mulheres nmadas no jardim a darem sumos de pacote a recm-nascidos. Os homens sem perna, com uma perna das calas de balo presa na cintura. Os velhos
grisalhos de turbante parados como ascetas. As mes de beb e bibero e mo na burqa para que no levante com o vento. O menino inteiramente nu, inteiramente queimado,
que vem pelo prprio p.
Os edifcios esto espalhados entre pinheiros, mato e jardins, e pelos caminhos vai e vem gente, cadeiras de rodas, riquexs, bicicletas, motoretas, carros.
        Arthur leva-me a dar uma volta rpida.
        A farmcia - com os medicamentos fornecidos pela Cruz Vermelha, que tenta combater os desvios e eliminar a corrupo dos mdicos.
        A lavandaria - com mulheres de lenos e roupas coloridas, descalas

* Os nomes das mdicas e parteiras afegs foram substitudos para proteger a identidade.
nos tapetes, a bebericarem ch entre pilhas de lenis verdes e batas de hospital.
        A cozinha e o refeitrio - com trs geraes masculinas, um velho, um homem, um menino, entre tachos gigantes e mesas ainda com restos de comida.
        A mesquita - com muitos sapatos  porta e muita gente deitada l dentro, a dormir ou a salvo do calor.
        E a morgue - com seis frigorficos para as mulheres e nove para os homens, porque "a shura diz que at na morte os corpos tm que estar separados" e a shura
de Kandahar  uma assembleia de 21 eminentes,

        No caminho, duas mulheres de burqa cumprimentam Arthur em ingls. Ele fica confundido. Pergunta-lhes quem so. So duas parteiras que ele conhece. Mas como
reconhec-las assim?
        - Se for ao departamento delas, convidam-me para um ch sem burqas, mas aqui os homens olham.
        E l est o letreiro com uma cruz por cima da metralhadora a dizer No weapons,  porta do edifcio principal.
        Arthur cumprimenta e recebe as tradicionais frmulas de cortesia afegs, longos se-deus-quiser, de mo no peito.
        No interior, velhos em cadeiras de rodas com barbas ruivas de henna. Homens descalos, de pernas flectidas num banco. Meninas ainda de leno que j parecem
adolescentes melanclicas. Mulheres de burqa com crianas e bebs no cho. Bebs a gritar com os olhos pintados de preto. Bebs embrulhados como mmias com os olhos
pintados de preto. Bebs todos iguais a pequenos tutankhamons esborratados. Uma instituio, khol* nos bebs, henna nos velhos.
        H macas com tinta estalada nos corredores e patamares com restos de lixo. Um homem cospe para o cho junto  ala onde esto feridos do assalto taliban 
priso.
        Essas exploses partiram muitos vidros em Kandahar, incluindo os da Unidade de Cuidados Intensivos, que continuam partidos. Aqui cabem 20 camas e numa delas
est Abdelkhaled, que veio de Helmand, provncia aqui ao lado, de vasto cultivo de droga, basties taliban e intenso confronto.
        E um rapaz com uma intensidade de messias, cabelos negros revoltos, dedos muito longos pousados sobre o penso. Tem o abdmen cheio de estilhaos, explica
Said, o simptico enfermeiro, barbudo como um mullah.
        Abdelkhaled diz que  agricultor e estava a trabalhar na terra, h uma semana.
        - Veio um avio e bombardeou.
        Isto passou-se na zona de Musa Qala, palco de grandes batalhas entre os soldados britnicos e os taliban. Com o abdmen rebentado, Abdelkhaled viajou durante
dois dias, em vrios carros, at Kandahar. Chegou ao hospital na noite em que os taliban atacaram a priso.
        No meio destas 20 camas de um hospital do governo no h condies para lhe perguntar, atravs de tradutor, se a sua aldeia apoia os taliban e qual  a sua
prpria posio.
        Muitos feridos taliban so evacuados para o Paquisto, mas alguns
vm aqui ter. A posio da Cruz Vermelha  que todos os feridos sejam assistidos e tem encontrado formas de tratar taliban neste hospital.
        De resto, quando no passam a fronteira,  para Mirwaiz que convergem feridos e mortos de todo o Sul, o que leva a frequentes situaes de emergncia.
        As vtimas de guerra so uma das grandes prioridades, diz a directora, Sharifa Sedeliqi, 39 anos, cirurgi de Cabul que ainda se est a tentar habituar 
burqa sempre que sai.
* Pigmento com que se sublinham os olhos a preto

E alm das doenas sazonais - "no Inverno, gripe, pneumonia, meningite, no Vero, diarreia e por vezes clera" -, a outra grande prioridade so "problemas ginecolgicos
e infantis".
        Sharifa cita um dos nmeros de sade materna que fazem do Afeganisto o fim do mundo.
        - Em Kandahar, por cada cem mil partos morrem duas mil mulheres.
        Em Portugal morrem cinco.
        Sempre de leno preto na cabea, Sari est a apalpar uma barriga de cesariana.
        A paciente contorce-se de dor, mas a situao  boa, diz-lhe a obstetra, e a parteira Shaqiba traduz, com a burqa levantada sobre a testa, porque nesta zona
no h homens.
        As burqas esto sempre  mo. A da mulher que fez cesariana, por exemplo, est meio enrolada na cama. Mais  mo s o recm-nascido, todo enfaixado e com
um laarote, no seu bero de tinta lascada.
        Na cama seguinte, senta-se uma velhinha mnima, de tornozelos muito finos, muito bem-disposta.
        - Estou a ensinar a equipa a fazer operaes vaginais - explica Sari, pondo a mo no ombro da paciente.
        - E o resultado  este, ela est sentada e vai para casa amanh.
        A velhinha chama-se Bibi e tem 60 anos.
        - Quando a esperana de vida de uma mulher no Afeganisto  42 - lembra Sari.
        Porque  que foi operada?
        - Porque tinha o tero de fora. Andava assim h 15 anos e s agora veio ao hospital.
        Quantos filhos?
        Bibi responde, atravs de Shaqiba:
        - 12.
        A caminho da obstetrcia,  preciso passar por patamares com homens. Shaqiba tapa a cabea com a burqa e segue  frente de Sari. Nas escadas esto uma av,
uma me e uma beb deitada no cho, aos gritos.
        Aberta e fechada uma cortina, os corredores voltam a s ter mulheres e Shaqiba atira a burqa para trs da cabea. Sari apresenta uma mdica afeg, Gulbibi,
burqa dobrada no brao como um casaco. E depois outra, Ftima, que tira a burqa a rir.
        - No gosto disto, sou de Cabul!
        Num pequeno quarto sombrio, uma rapariga sozinha deitada de lado olha para a parede, palma das mos pintada de henna e um pulso cheio de pulseiras.
        Chama-se Zallaja, tem 25 anos e  de Kandahar.
        - Teve dois filhos em casa e este segundo parto deve ter sido muito difcil porque o msculo entre a vagina e o recto rompeu e ela ficou com problemas nos
intestinos - conta Sari. - Isto j foi h meses, mas o marido no a deixou vir ao hospital mais cedo. Este pas est cheio de mulheres como esta. No as deixam vir.
H trs semanas vi uma mulher com um buraco no recto, e ela vinha em segredo.
       Shaqiba pergunta a Zallaja se quer falar e ela acena que sim. Porque no veio antes ao hospital?
        - Ningum nos ajuda e eu no tinha dinheiro para o transporte. Foi a minha me que me trouxe. O meu marido disse que eu no podia mostrar o corpo a um mdico
homem.
        -  o grande problema - diz Sari. - Se elas precisam de uma operao, o anestesista  homem, o cirurgio  homem, os enfermeiros do bloco operatrio so
todos homens. H mulheres que precisam de operaes e desaparecem daqui.
        No Afeganisto, 81 por cento dos partos acontecem em casa e a maior parte das mulheres no tem acesso a qualquer acompanhamento. E, num pas em que apenas
14 por cento das mulheres so letradas e a cultura prevalecente faz com que estas matrias no sejam faladas, a maioria no sabe sequer identificar problemas. Segundo
um estudo citado pela organizao Save the Children, mais de um tero das mortes maternas so por sangramento e a maior parte das mulheres no sabe sequer que sangrar
na gravidez  sinal de perigo.
        Mais  frente, num quarto com vrias camas, h mulheres a gemer com contraces.
        - Imagine uma mulher ocidental assim - prope Sari. - Aqui os partos so feitos sem qualquer anestesia, sem epidural, nada.
        Na porta seguinte, a casa de banho tem um cho de ladrilhos imundo.
        - E quando cheguei no havia gua corrente.
        Ainda no h ar condicionado na maior parte do hospital. As janelas esto abertas e as testas transpiradas.
        Noutro quarto, vrias avs pegam em bebs enquanto as mes recuperam. Os bebs tm todos khol nos olhos.
        -  para ter olhos bonitos no futuro - diz uma av. Mesmo que no haja futuro.
        Sari destapa um beb que est num bero, com restos de coco seco nas ndegas e os olhos esborratados. Chora e com razo. Nas costas tem uma bossa de carne
em ferida. Sari toca em redor.
        - Espinha bfida. Acho que no vai sobreviver.
        Esta grave deformao ocorre nas primeiras semanas de gestao. Quando no leva  morte, o risco de paralisia  muito elevado. Nos pases desenvolvidos "
facilmente detectvel em qualquer ecografia e em 99,9 por cento dos casos  alvo de interrupo voluntria da gravidez", resumir o obstetra Miguel Oliveira da Silva,
do Hospital de Santa Maria, quando o contacto mais tarde.
        No Afeganisto, mesmo que a deformao seja detectada, "no h interrupo da gravidez", diz Sari.
        - S se a me estiver  beira de morrer  que a famlia pode aceitar. Se se soubesse que a Cruz Vermelha fazia interrupes seria muito complicado continuar
a trabalhar aqui.
        E isto no so casos excepcionais.
        -H muitos bebs assim, numa base semanal ou mais - acrescenta Sari.
        - Bebs com graves anomalias, talvez porque as mes tomam medicamentos que no se podem usar em grvidas. E h muitos casamentos entre parentes.
        Aos quatro dias de vida, alm de ter os olhos pintados, o beb chama-se Khatai, e est rodeado de vrias mulheres da famlia. Nem a me, deitada na cama,
nem as mais velhas exprimem algo de dramtico.
        No choram. Aqui, so as estrangeiras que choram, mesmo Sari, aps seis meses de Mirwaiz. Tambm no fazem perguntas a Sari. Entre os muitos nmeros impressionantes
da sade materna no Afeganisto h este: cada mulher perde em mdia, no seu tempo de vida, dois filhos. Isto para uma taxa de fertilidade que ultrapassa os sete
filhos por mulher.
        Uma das causas de morte  o ttano, evitvel com uma vacina, e a mortalidade infantil foi at h pouco tempo a mais alta do mundo, a par da Serra Leoa. Morriam
165 crianas por cada mil. S no ano passado foi anunciada uma melhoria, para 135. Mas o Afeganisto continua nos fundos estatsticos. Tambm pela idade em que as
mulheres comeam a ter filhos, antes de estarem amadurecidas.
        Neste mesmo quarto onde o beb Khatai chora, um beb muito saudvel repousa nos braos de uma menina chamada Gulalei, vestida de cor-de-rosa.
        - Tem 14 anos, e este  o segundo filho.
        O primeiro nasceu aos 13, e ela casou aos 12.  comum.
        - Tanto o primeiro como o segundo nasceram em casa, mas a placenta ficou l dentro e tivemos que vir ao hospital tir-la - responde a sogra em vez dela.
        Como as mulheres se mudam para casa do marido, a sogra  quem manda no mundo feminino caseiro, e estes quartos esto cheios de avs-sogras a decidirem coisas.
Esta tem um perfil agudo e aperta a boca quando a tradutora volta a dirigir-se  rapariga, para perguntar porque teve os filhos em casa.
        - Era de noite e no tinha transporte, a minha sogra e a minha me ajudaram - diz ela, a sorrir.
        No bero, o beb fica a dormir em cima da burqa dela.
        As equipas de emergncia esto a tentar arranjar espao para uma possvel enchente, resultante do confronto entre taliban e tropas, e o espao que h  este,
onde Sari agora tem as mos na anca.
        - Querem pr gente aqui? Mas como? Nem sequer h uma casa de banho!
        Aqui  o edifcio do futuro bloco operatrio para mulheres. Sari anda a ver as obras, quartos com paredes e cho partido ou cheios de equipamento empacotado,
acabado de chegar de Genebra. Um estaleiro.
        Hoje, alm de Shaqiba, est outra parteira tradutora, Naseema. Usa culos e ouve reparos por isso. Os culos notam-se atravs da rede da burqa, pelo volume
e pelo reflexo. Parece um fantasma ainda mais pungente. Depois levanta a burqa e aparece uma rapariga esperta a sorrir.
        - As pessoas vm ter comigo quando no conseguem ter filhos e eu digo que ambos tm de ir fazer os testes, mas alguns homens no querem, porque na nossa
cultura no  bom saber-se que um homem no pode ter filhos. Se o problema  dela, ele casa com outra mulher. Se o problema  dele, continuam com o tratamento. Se
tiverem dinheiro vo  ndia. Mas uma mulher no se pode separar do marido se o problema for dele.
        A prpria irm dela no consegue engravidar, e o cunhado recusa-se a fazer testes.
        Porque trabalha e continua solteira aos 36 anos, Naseema no  uma afeg comum.
        - Ainda no consegui uma pessoa simptica. Sempre trabalhei e quero continuar. S casarei com quem concorde com isto. A maior parte dos homens no quer que
as mulheres saiam de casa e trabalhem.
        O pai de Naseema  pediatra e no  um problema para a famlia que ela trabalhe.
        - O problema  que eu trabalhe com uma organizao internacional. No  bom por causa da segurana.
        Ou seja, mesmo a Cruz Vermelha pode ser um alvo. Naseema tambm faz aconselhamento, incluindo como espaar os bebs. A falta de intervalo traz complicaes
e leva a que as mes parem de amamentar um filho quando engravidam de outro.
        - Usamos contraceptivos, injeces, plula, preservativos... Mas as mulheres dizem que os homens deitam os preservativos fora.
        Ela prpria no desistiu de ter filhos, apesar de estar numa idade de av afeg.
        - Queria ter dois, mas no mximo vou ter quatro. Porque quatro  o mnimo admissvel.
        - E se uma mulher tem s filhas o marido pode casar outra vez para ter um filho.
        Educada em Cabul e formada como parteira em Peshawar, Naseema nem sabia usar a burqa quando chegou a Kandahar, e h muita coisa a que no estava habituada.
        - Conheci uma mulher que tinha a vagina muito aberta por causa dos partos e o marido dizia-lhe: "A tua vagina  pior que a de uma burra." Eu disse que ia
cos-la, mas ela nunca voltou. Nas zonas rurais a vida  muito dura, o que o homem diz tem de ser feito. E por causa da violncia nenhuma parteira, nenhuma mdica
l vai. A maior parte das pessoas no traz as mulheres para o hospital. E  impossvel uma mulher guiar carros, motas ou bicicletas em Kandahar.
        Como  que Naseema vem trabalhar.
        - O meu irmo traz-me.
      Mas nada disto faz dela uma revoltada.
      - Eu gosto do meu pas. Gosto da cultura. Eu espero, eu rezo ao meu Deus para que nos traga paz.
      Do que  que gosta na cultura?
        - Do respeito pelos mais velhos. Se as pessoas o seguissem no havia mortes.
        Quanto s mulheres, sim, podia haver mudanas.
        - So muito mais respeitadas no Paquisto, que tambm  islmico. Aqui, quando uma mulher anda na rua os homens falam, e no podemos responder porque isso
quer dizer que no somos decentes. No Paquisto, se isso acontecer, as pessoas vm e batem no homem.
        Foi por escolha da famlia que Naseema se tornou parteira.
        - Para trabalhar com mulheres, porque h falta de mulheres e h quem prefira deixar morrer uma mulher a lev-la a um mdico. Algumas mulheres nem para uma
injeco num brao querem um homem. Vm pedir-me que lhes d injeces. E mesmo em frente a uma mulher no querem tirar as calas para uma injeco.
         verdade que num hammam h afegs que se despem, mas no aqui.
        - A minha famlia no me deixa ir ao hammam. Os pashtun no gostam que as mulheres vo aos hammam. H uma cultura da vergonha.
        O pai de Naseema trabalhou no Paquisto at ao derrube dos taliban e depois voltou com os seus pacientes, quando eles deixaram de estar refugiados, mas ganha
muito pouco em Kandahar. Um dos irmos dela no passa dos 60 ou 70 dlares por ms num comrcio. O salrio dela so 400. No casou e hoje  a nica com salrio fixo
numa casa de dez pessoas.
        Shaqiba, a parteira com cara de lua cheia, tambm  quem sustenta a casa, mas a histria dela  muito diferente. Casou to nova que aos 27 anos j tem um
filho de 13. S viveu quatro meses de casada.
        - O meu marido morreu durante a guerra civil, quando os mujahedin atacaram Cabul.
        Mais concretamente, Gulbuddin Hekmatyar, um dos vrios senhores da guerra que ainda mexe. Agora Shaqiba vive com o filho e com o pai, viva.
        Ningum imagina isto, porque ela est sempre a sorrir, e sorri mesmo quando diz, de repente:
        - Queria tanto ir embora para qualquer lado. Para qualquer lado.  muito difcil para as mulheres afegs, sobretudo vivas. Se algum me desse a mo eu ia.
Sari aprova o estado das obras do bloco operatrio:
        - Vai ficar um belo bloco, 18 camas, com possibilidades de expandir.
Faltam coisas bsicas como ligaes elctricas.
        -  difcil encontrar engenheiros que queiram vir a Kandahar, por razes de segurana - explica Sari. - Mas quando isto estiver aberto, as mulheres vo aceitar
muito mais tratamentos.
        Ela no ver o resultado, ajudou a constru-lo.
        Pode ser uma escolha de vida. Turid, a norueguesa, trabalhou muito tempo como enfermeira no seu pas e depois decidiu mudar para a Cruz Vermelha. Agora,
aos 49 anos, vai na terceira misso internacional, incluindo no Sudo, de onde reconhece coisas.
        - As crianas aqui tambm no choram e passam pelo mesmo. A coragem  como em frica, e tambm tomam conta dos bebs uns dos outros.
        Mas aqui "a higiene  pior, e h outra coisa que a impressiona:
        - No do de mamar em pblico. A criana chega com diarreia, eu pergunto pela amamentao e a me mostra aquele leite horrvel do bazar. As nmadas kuchi
do de mamar, e as pessoas do campo tambm, mas na cidade parece que no  natural. Em frica a av mostraria  filha o que fazer, vem da tradio. Aqui, no. Tambm
pode ter a ver com a roupa. E so surpreendentemente ignorantes quanto a ter leite, no bebem o suficiente, comem as coisas erradas. E h tantas crianas no vacinadas!
        Enquanto Turid fala, Sari tem os olhos vermelhos porque parte em breve.
        - O meu trabalho aqui  formar pessoas, mas o que aprendi  espantoso. Tambm no  fcil para mim ver o que voc viu, no estou habituada a ver espinha
bfida.
        Uma das ltimas tarefas de Sari ser escrever cartas sobre o beb Khatai, o da espinha bfida, para os pais levarem a hospitais de Cabul.
Vai voltar  Europa sem saber se ele sobreviveu.
        Combinei encontrar-me a seguir com Rangina Hamidi, a responsvel por uma ONG. Tnhamos trocado e-mails quando eu estava em Cabul. Agora, ao telefone, prope
enviar o carro dela a buscar-me.
        No  longe. Um porto, um quintal, uma casa. Tapetes e bordados tradicionais. Esta ONG trabalha com mulheres. Rangina leva-me para o escritrio.  uma mulher
muito feia e dinmica. As fotos dos sobrinhos mostram crianas lindas, de olhos azuis e bocas polpudas.
        - As minhas irms so todas lindas, eu  que sou o pato feio - diz ela.
        Viveu no estado da Virgnia boa parte da vida e fala como uma americana, mas uma americana que escolheu usar hijab*. Apresenta-me o marido, Abdallah, afego
de Kandahar, careca, barba grisalha, sorriso tmido.  claramente ela quem d as ordens dentro de casa, firme e despachada. Pem o almoo no cho enquanto acabamos
de falar: almndegas, iogurte caseiro com pedaos de pepino, curgete estufada, arroz, po, gua fresca. Muito bom.

Em Kandahar espera-se um combate a qualquer momento, mas em casa de Rangina est tudo a bordar, como de costume. Treze mulheres penduraram as burqas e aviam toalhas,
tnicas, panos de parede.
        Na verdade, Rangina no vive aqui. Esta  a casa que Rangina ps a mexer quando voltou da Amrica.
        Aqui est Rangina Hamidi, 30 anos, embrulhada num grande leno. O leno j vem da Amrica,  uma deciso individual.
        Ela voltou ao Afeganisto depois de 2001 e impulsionou esta associao, Afghans for Civil Society Sociedade civil num pas que ainda no  um Estado. Quer
dizer, est tudo por fazer.
        Por exemplo, em Kandahar manda oficialmente o governo local, apoiado por tropas afegs, canadianas e americanas, e o governador local  um jovem de 33 anos,
mas o que as pessoas dizem  que um dia destes ele aparece morto.
        * Leno islmico que cobre a cabea.
        Para Rangina tratava-se de voltar a casa, como ela vai contar, agora que o marido trouxe bebidas e se retirou.
        No  o que um marido afego normalmente faz.
        Outra coisa que as pessoas dizem em Kandahar  que Rangina  o chefe da casa. No Afeganisto isso  uma espcie de escndalo.
        Conta ela:
        - Nasci em Kandahar e quando tinha meses fomos para Quetta*. Vivi l os primeiros sete anos e depois partimos para a Amrica, para a Virgnia. Mas os meus
pais nunca nos deixaram falar outra coisa em casa que no pashto. Ns odivamos, porque queramos encaixar na sociedade americana, mas hoje estou-lhes muito agradecida.
        Regina cresceu assim, com seis irmos, a falar pashto. E tambm sabia dari.
        Quando chegou  Universidade da Virgnia combinou dois cursos. Estudos de Mulheres e Estudos Religiosos.
       - A minha tese  sobre os direitos das mulheres e os taliban. O assunto interessou-me desde 1998, e no fim desse Vero fiz uma viagem ao Paquisto. Tenho
famlia em Quetta, e foi l que percebi que a forma como o Ocidente via esta realidade era completamente errada e naive. Tudo era to mais complicado.
           Por exemplo?
        - As pessoas em Quetta no viviam sob os taliban mas tinham o mesmo estilo de vida. As mulheres usavam burqa, no podiam trabalhar nem sair de casa. Tudo
era igual,  excepo dos espancamentos pblicos. E isso levou-me a concluir que no havia concluso para a minha tese. Ento pensei que se havia uma coisa que queria
fazer era dedicar a minha vida a pessoas que vivem de forma to sufocante.
        Vinda de fora, podia trazer outras possibilidades.
        - Considero-me muito sortuda por ter ido para a Amrica e poder voltar a uma vida que podia ter sido a minha.
        Mas como voltar?
        - Eu no sabia. Os taliban ainda estavam no poder.
        Trabalhou um ano e meio numa organizao no governamental. E ento aconteceu aquilo.
        - Cheguei ao escritrio, l na Virgnia, e toda a gente falava no avio.
        O primeiro avio, na primeira torre.
        - No 11 de Setembro soube imediatamente que o Afeganisto ia mudar. E em Dezembro, quando ainda havia bombardeamentos, o meu pai comprou-me o bilhete para
o Paquisto. Tirei trs semanas de frias e fui para Quetta. Ainda planeei vir aqui, mas aconteceu sempre qualquer coisa. Vi muitas mulheres e crianas a chegarem
do Afeganisto, campos de refugiados, hospitais. Trouxe dez mil dlares em doaes. Fiz envelopes de dinheiro para as famlias e comprei camisolas, lenos, coisas
para as crianas.

       No voo de regresso teve um clique.
        - Pensei que o pior que se pode fazer por algum  dar dinheiro e ir embora. Foi nesse avio que prometi no dar nada, "mas criar oportunidades de trabalho.
        Comeou a enviar currculos, at que recebeu um telefonema de Pat Karzai, irmo de Hamid Karzai. Os Karzai so daqui mesmo, de Kandahar.
        - Ele ligou-me a falar do projecto da Afghans for Civil Society A 24 de Janeiro apanhei um voo para o Afeganisto.
        A me ficou na Virgnia, mas o pai tambm voltou e hoje  presidente da cmara de Kandahar.
                Naquela altura, logo a seguir ao derrube dos taliban, o Afeganisto era um lugar que podia ir em todas as direces.
        - Os primeiros seis meses foram s para aprender e reaprender. Ajudou-me saber as lnguas e ter estudado religio. Usar o leno, que  uma escolha. Tudo
isso fez diferena. As pessoas viam que eu cobria a cabea, rezava com elas, jejuava. Isso trouxe-me confiana da maior parte

* Cidade paquistanesa no sul da fronteira, onde milhes de afegos se refugiaram da guerra.

ao fim de seis meses. Depois as mulheres perguntaram-me: "Vais embora como toda a gente?" Foi a que fiz o meu compromisso.
        Eram mulheres como aquelas 13 que esto l dentro.
        Treze mulheres so 13 burqas menos uma, porque a mais velha  to mais velha que j pode no usar burqa, diz ela, com os seus cabelos brancos tingidos de
henna.
        Esta  a roda de mulheres que trabalham com Rangina.
        Uma sala cheia de janelas, carpete no cho, burqas de vrias cores penduradas, e grandes almofadas junto  janela, onde as mulheres se sentam e cosem e bordam.
        Esto de ps descalos e tm as unhas dos ps e das mos tambm tingidas com henna. Vestem cores claras e cores vivas.
        Todas tm a cabea coberta com lenos, mesmo aqui, dentro de casa e entre mulheres. H trs solteiras e trs vivas, mas a maioria so casadas e mes. E
o que se comea a compreender quando a conversa d a volta  que so elas que sustentam a casa, alm de tudo o mais.
        A mais viva de todas  Shelah, que est a prender uma linha entre o dedo grande e o dedo mdio do p, para a meter na agulha.
        - Podamos vender os nossos maridos, os preos da comida subiram muito.
         todo um outro olhar sobre a crise da alimentao.
        - Mas quero vend-los por dlares, no por afganis. Riem-se s gargalhadas. Shelah acha que tem 30 anos, mas no tem a certeza.
        - Aqui ningum sabe a idade.
        Nasce-se em casa, sem registos. Shelah, por exemplo, j teve sete filhos e engravidou oito vezes. No primeiro tinha uns 17 anos, acha ela.
        - s mais velha! - desafia outra bordadeira, parando de bordar.
        Passam caas canadianos l no cu e os vidros tremem. Talvez seja o combate, j. Que faz o marido de Shelah?
        - No trabalha- responde ela, cortante. - Diz que no tem capital para comear um negcio e tem vergonha de trabalhar manualmente.
        Mais avies. Toda a gente discute o avano dos taliban a norte de Kandahar.
        - Quando os taliban vierem digo que tu s a minha irm mais velha e me obrigaste a trabalhar - lana Shelah para Rangina.
E Rangina:
        - A ameaa tornou-se parte da vida at  anedota. Quanto ganha Shelah aqui?
        - 90 dlares por ms. Mas no pago renda. E tem medo dos taliban?
        - Sim, eles matam-me aqui. Pe o indicador na cabea:
        - Tactactac.
        Helicpteros da ISAE largaram panfletos nas aldeias de Kandahar, instando a populao a ficar em casa por causa dos taliban. Mas os taliban tambm "puseram
cartas nas mesquitas a dizer para as pessoas pararem de trabalhar com o governo e com os estrangeiros", diz uma mulher.
        - Claro que temos medo, os taliban podem entrar na cidade - continua outra.
E por a fora.
        - Onde eu vivo, os taliban andam por toda a parte - diz Mani.
        - Todos os pomares e vinhas perto de onde eu vivo esto controlados pelos taliban - diz Nafaz.
        E Shelah, novamente:
        - Ontem o meu marido disse: "Se sares para trabalhar e te matarem no sou responsvel."
        Como reagiram os maridos quando elas comearam a trabalhar?
        Mani:
        - O meu marido sabia que eu tinha de trabalhar. Precisvamos de dinheiro.
        Nafaz:
        - Nos primeiros 15 dias no disse ao meu marido. Menti-lhe. Disse que ia ajudar a comear um bordado. At que ele perguntou porque  que eu demorava tanto
todos os dias. E eu respondi: "Porqu? Porque tenho de alimentar as minhas crianas." E ele disse: "Se alguma coisa acontecer no sou responsvel."
        Que faz o marido de Nafaz?
        - No trabalha. Fuma haxixe. Tornou-se um drogado.
        E Rangina:
        - A maioria dos homens fuma haxixe e a herona est a tornar-se um problema grande. Mesmo entre as mulheres. H um pequeno grupo de mulheres drogadas, familiares
de homens que se drogam.
        No s fumam como usam seringas.
        E a toda a roda as 13 mulheres vo contando histrias.
        Uma desenha uma linha na mo e inspira:
        - Snifam cocana do Paquisto.
        - No, a cocana  daqui - replica outra.
        - Fumam haxixe no cachimbo de gua.
        - O meu cunhado ficou viciado no Iro.
        E esses homens tomam conta dos filhos enquanto as mulheres esto aqui?
        - No. A mulher do meu irmo toma conta dos meus filhos. Comecei a trabalhar aqui com um beb de seis meses.
        Para quem so estes panos que tm nas mos, nos quais bordam e cosem lantejoulas?
        - So encomendas - responde Rangina, que os vai vender regularmente  Amrica. - Criamos amostras aqui e levamos a casa das outras mulheres para elas reproduzirem.
        As outras mulheres so 450. Ou seja, estas 13 esto a produzir originais para depois 450 mulheres que trabalham em casa poderem executar em srie.
        - Quase todas as mulheres em Kandahar aos sete anos j sabem bordar - diz Rangina. -  algo que tm de saber para casarem. So as mes que escolhem as noivas
para os filhos e vo ver como  que a rapariga borda. como  que limpa a casa.
Aos sete comea-se a bordar e pelos dez, 11 comea-se a usar burqa, Quem decide?
        - O pai, o marido, os irmos. Mas  a me que a pe na filha. E muitas mulheres dizem que j no esto habituadas a ver o mundo de olhos nos olhos, que tm
vergonha.
        - Numa viagem ao Paquisto eu disse que no a ia usar, tirei-a - conta Shelah. - Mas senti-me to nua que voltei a p-la. Em Kandahar no  possvel viver
com liberdade, sem nos dizerem o que fazer: no faas isto, no faas aquilo.
        - E as nossas mulheres entre os 30 e os 40 anos comeam a cair como folhas - diz Rangina. - Enquanto na vossa cultura elas florescem.
        - Em Kandahar, se uma rapariga aos 20 anos no est casada, s os vivos a querem - acrescenta uma mulher de roxo, j velha.
        E isto num dia-a-dia de guerra, desde que elas se lembram. Mas, numa ronda das coisas mais difceis, a coisa mais difcil  a falta de segurana.
        - De um lado os internacionais a matarem-nos, do outro os taliban - comea Shelah. - Estamos fartas.
        De que precisam mais?
        - Segurana.
        - Segurana.
        - Segurana.
        E a palavra repete-se. Em pashto  amniat.
        - Segurana, porque se eu quiser mandar as crianas para a escola no posso, e o meu marido diz-me que se eu for morta no caminho no vai buscar o corpo
- diz Shelah.
        Destas 13 mulheres, s duas sabem ler.

Falam, e  medida que vo ficando mais  vontade falam cada vez mais. Algumas tm uma energia transbordante. Podiam estar a fazer coisas l fora, tal como bordam
minuciosamente sem olhar para os dedos.
        Depois, desaparecem dentro das burqas e parece que comeamos a falar com um boneco. Elas desaparecem mesmo. Aquele pedao de pano azul mexe-se e de l sai
uma voz abafada.
        Escreveu Robert Byron em 1933, quando chegou a Herat, vindo da Prsia: "De vez em quando um capuz de apicultor com uma janela no cimo atravessa a cena. Isto
 uma mulher."
        Nos anos 70 podia haver afegs de minissaia em Cabul, mas no era assim antes, nem era assim no resto do Afeganisto.
      Ainda no encontrei descrio melhor para uma burqa. Um capuz de apicultor at aos ps.

        Mdicas entram e penduram a burqa. Professoras, analfabetas, costureiras entram e penduram a burqa. Qualquer entrada em Kandahar est cheia de "burqas pendentes,
como lenis de fantasma sem fantasma. Tm a gradezinha de croch na zona dos olhos e muito nylon plissado para os braos se poderem movimentar por dentro, incluindo
beber gua ou comer um gelado. De Cabul a Herat, passando por Jalalabad, os acabamentos variam no bordado da cabea. E, alm do azul dominante, Kandahar oferece
ainda uma gama de burqas verde-pardo, castanho-pardo, malva-pardo, branco-pardo.
        Na paisagem ocre de Kandahar, s as mulheres kuchi so manchas vibrantes, rubi, turquesa, esmeralda, a esvoaar em mantos  volta da cabea e nas saias rodadas,
contrastantes. Mas as kuchi so nmadas de tendas e rebanhos, no contam.
        No sendo kuchi, se outra cara de mulher for vista em Kandahar h-de ter rugas e cabelo tingido de henna, sinal de que embranqueceu, secou, e tambm j no
conta como perigo. A estao das burqas  entre os 11 e os 40 e muitos anos. Depois  possvel sair sem elas, embora raro. Na maior parte do tempo, a maior parte
das mulheres simplesmente no sai.
                Em Kandahar, uma mulher pode morrer porque o homem que decide a vida dela no a quer levar a um mdico homem, e ao p disto uma burqa  uma burqa
 uma burqa.
        No deixa de ser m por haver pior, e no passa a ser boa com o hbito. E quente.  claustrofbica. Respira-se e v-se mal l dentro. E as mulheres que usam
culos ainda ouvem reparos.
        Uma estrangeira parece ter trs opes.
        A primeira  usar burqa, com a vantagem de ficar invisvel e a desvantagem de no poder andar muito tempo nem poder falar.
        A segunda  usar os punjabi que as afegs usam por baixo da burqa, e que em Cabul e noutras zonas urbanas so roupas de rua, tnica, cala larga e leno
grande, com a vantagem de poder andar e falar e a desvantagem de ser to visvel como um non - no s porque h poucas mulheres, e em muitos stios nenhuma, mas
tambm porque quase no h estrangeiros.
A terceira opo  o trompe Voeil. Foi a escolhida pela americana Sarah Chayes quando se cansou de ser to olhada.

Chayes chegou ao Afeganisto depois do 11 de Setembro como reprter da National Public Radio, um bastio da cobertura liberal. Colaborou com a Afghans for Civil
Society e acabou por ficar a viver em Kandahar, onde hoje produz sabo arte-sanal, feito com ervas locais. Escreveu entretanto um livro, The Punishment of Virtue
- Inside Afganistan after the Taliban*, e nele conta o momento em que decidiu vestir-se de homem. Grande parte dos afegos usa tnica e calas largas, turbante ou
barrete, sempre em cores neutras, cremes, cinzas, castanhos. Ao longe, ou de raspo, escreve Sarah, algum vestido assim passa sempre despercebido. A rua  dos homens.
O espao pblico  dos homens. Um homem a p ou ao volante de um carro funde-se com a paisagem. Ento Sarah vestiu-se de homem, mas, como diz Anton, o holands meu
vizinho de quarto, Sarah  magra como um homem magro.
        Mantive os meus punjabis comprados em Cabul. A cintura d para uma barriga de nove meses.
Rangina e o marido deixam-me na Continental, onde os rapazes da Al jazeera English vo fazendo directos no jardim. Alm de Qais, a equipa  formada pelo afego Kabuli,
o libans Raed e o sofisticado marroquino Hashem, que fala francs e ingls perfeitamente. Tambm c est o palestiniano que  o chefe da delegao em Cabul da Al
jazeera rabe.
        Comeo a sentir-me em casa, apesar de no haver mulheres. Comeo a no sentir que sou a nica mulher. Os rapazes so simpticos sem serem intrusivos. Uma
camaradagem.
Anton continua descalo, nas suas roupas locais, leno, bon e shalwar kamiz. Parece mesmo um afego, incluindo unhas dos ps amarelas e ps secos.
Jantamos os dois no jardim. Ele conta histrias de Angola e de Moambique, como a dos pianos que a Gulbenkian tinha enviado para vrios lugares de Moambique, at
um Steinway de concerto. Depois da independncia, Anton acabou por conseguir transport-lo para o Centro Cultural Francs, onde deve estar at hoje. Foi carregado
por dez homens a quem ele disse que iam carregar uma caixa. As teclas estavam impecveis, um dos ps e os pedais estavam numa casa de banho. Anton transportou-o
porque queria organizar "um concerto com a Carmina Burana" e andou a recolher cantores, quem quer que pudesse cantar. E o concerto fez-se.
        Tambm fala dos filhos, da primeira mulher irlandesa e da segunda mulher russa, que est no Cazaquisto.
        Os kuchi chamam-lhe Haji Anton. Em rabe, haj  o homem que j foi a Meca, mas tambm se usa para um mais--velho. Ele disse-lhes que era um kuchi de avio,
nmada como eles, e acha que foi kuchi noutra vida.
        Pergunta-me quanto custam os quartos e depois diz que no sabe se tem dinheiro. No parece ter muito dinheiro. Mas quando o manager vem falar com ele tudo
se arranja.

        18 de Junho

ACORDO COM TIROS atrs da parede da minha cama, como se estivessem no quarto. Levanto-me e mais tiros.
        Ouo Qais a sair do quarto para o jardim e a dizer:
        - Hashem, stay in the room! Alexandra stay Inside!
        Saio embrulhada no meu leno e ele est de mos na cintura, a olhar para o tecto por cima dos nossos quartos.
        - Some suspicious guys - diz.
        * Penguin Press, 2006.

Mais estampidos. Qais vai perguntar aos seguranas da Continental e eles dizem-lhe que so as tropas paraquedistas britnicas, chamadas para reforar o controlo
militar em Kandahar. Esto espalhadas na estrada e em cima dos telhados, a impedir o trnsito numa determinada zona.
        Mais estampidos. Um grito:
        - Go back!
        Depois passa uma meia hora e a tenso dissolve-se. Qais vem dizer:
        - It's o.k., they're gone.
        E ouve-se o trnsito voltar  rua.

Tomo o pequeno-almoo com Anton, que vai deixar a cidade. As formigas na Continental so gigantes, metade de um dedo.
Andam por toda a parte.
        A rdio liga-me a dizer que a operao comeou. Ou seja a batalha.

Nur Khan apanha-me s 2h30.
- Don't worry, you are with Nur Khan.
- Fala de si prprio na terceira pessoa.
        Se s redaces do mundo esto a chegar takes da Associated Press com as ltimas de Kandahar, foi Nur Khan quem os mandou. Recomendaram-mo como o melhor
jornalista da regio. Pago-lhe 200 dlares por cinco horas de guia-intrprete a partir de agora. No tenho medo, estou tranquila.  tranquilizador algum dizer:
         -You are with Nur Khan.
        Como uma proteco mgica.
        Neste mundo tribal, o apelido Khan  um indicador de poder. Os Khan so os lderes. Nur no tem nada de os tensivo, chega num carro velho, ele prprio ao
volante. Mas conhece todos os soldados do exrcito afego nos checkpoints at Arghandab.

A estrada vai ficando deserta  medida que se aproxima a dramtica
Montanha do Elefante, escarpada contra o cu. Do lado de c, a cidade de Kandahar. Do lado de l, os pomares e vinhas de Arghandab, onde tropas afegs e internacionais
combatem os taliban.
        Na base da montanha, a estrada comea a serpentear entre dois macios rochosos. No h carros, no h gente. Um checkpoint da polcia afeg fortemente barricado,
depois outro. E a estrada desemboca num vale luxuriante.  Arghandab.
Monumentais escarpas ocre por trs, um brao de rio  esquerda, pomares de romzeiras e vinhas a perder de vista Uma barreira com carro blindado, armas pesadas e
vrios homens no deixa ningum avanar a partir daqui.
        -Os taliban andam nestes pomares, h combates - diz o militar Mirwaiz, lder da unidade.
        Um, dois, trs, quatro helicpteros Apache aparecem a zumbir no cu, vindos de Kandahar. Ficam a sobrevoar o grande vale verde.
        So trs da tarde. O sol queima. De um lado da estrada h tendas nmadas, mas nenhum vestgio dos nmadas. Do outro lado da estrada h casas de lama seca,
com homens velhos e crianas encostados  sombra. Alguns rapazes rondam os soldados, com os lenos enrolados  volta da cara, por causa do sol.
        Ouvem-se rebentamentos.
Turjan, 23 anos, est de p em cima do pequeno muro que separa a estrada dos pomares. Tem uma pequena loja aqui e no a quis deixar.
       - Fui pr a minha famlia  cidade porque os taliban esto nestes pomares. O meu irmo viu-os porem minas, no outro lado do rio.
        Esta primeira zona de pomares vai at ao rio Arghandab. Do rio para l,  domnio taliban.
        Vm-se tanques em movimento entre as rvores muito verdes. E mais  rebentamentos, l  frente. - Esta manh houve grandes exploses - conta Turjan enquanto
os tanques canadianos passam pelos soldados afegos, na direco de Kandahar.
        - A batalha comeou s nove e meia da manh - diz o militar Mirwaiz, um kandahari de 28 anos, h sete no exrcito afego. - Os nossos homens entraram nos
pomares. A NATO s est a apoiar com Apaches.
        Pelas suas contas, a esta hora as tropas j conseguiram recuperar trs aldeias.

        Mohammed Wali est montado numa bicicleta, a observar o movimento militar. Tem 26 anos, mulher e dois filhos e  agricultor, ou seja, cultiva roms e uvas.
        - Alguns dos nossos parentes que estavam nas aldeias do outro lado do rio foram para Kandahar. Esta batalha  muito m porque ns dependemos da terra, 
com isto que alimentamos as nossas famlias e agora est na altura de colher as uvas e regar as romzeiras. As pessoas esto muito assustadas.
        Tm medo dos talibans? Apoiam-nos?
        - Estamos confusos, o governo aqui, os taliban do outro lado... No sabemos, mas  mau.
        Por cima dos helicpteros ouve-se o zurrar de um burro que um velho arrasta junto ao rio. Um garoto de cabea rapada que nunca foi  escola empurra um carrinho
de mo at aos soldados.
        Junto s casas de lama seca est Ahmed Zer, um mecnico de 18 anos, que esta manh veio do lado de l do rio, onde esto os taliban.
        - Eles chegaram na segunda-feira, vi uns 20 - conta, enquanto roda o tero islmico nos dedos. - Tinham armas automticas AK47, lana-rockets, metralhadoras
pesadas. Disseram para nos irmos embora. As mulheres saram h trs dias, eu e o meu pai viemos hoje.
        J h um bando de crianas  volta dele, mas nem sombra de mulheres. Em todas estas imediaes dos pomares, no se v uma nica mulher, nem o relance rpido
de uma burqa.
        Ahmed diz que a sua aldeia ficou vazia e que entre os taliban havia no-afegos. A expresso que ele usa  peshawaris, ou seja, paquistaneses das zonas tribais
junto a Peshawar.
        Sentados no p,  sombra, velhos de barba e turbante miram o vaivm militar no cu e em terra, com as mos em pala nos olhos.
        - Eu vim esta manh, a nossa famlia veio quase toda embora - diz um velho de barbas muito brancas, cercado de crianas.
        Prefere dizer o nome mais tarde e acaba por no o dizer, embora no se importe de ser fotografado.
        - S l ficou algum por causa das nossas casas e terras.
        Tambm este mais-velho tem romzeiras e vinhas. E, desde que os taliban chegaram, segunda-feira, tambm ele notou vrios paquistaneses.
        - So taliban das zonas tribais. Sabemos que peshawaris pelo estilo da roupa e pelo sotaque. Vi uns 70 ou 80 taliban, mas h mais, noutras aldeias.
        De novo o som de rebentamentos, l  frente, nestes pomares que o exrcito sovitico nunca conseguiu conquistar.
        Para quem conhece a regio,  um ptimo refugio. Para quem vem de fora, um terreno muito difcil.
        Continuam a ouvir-se rebentamentos, mas o grosso da batalha de hoje parece ter terminado.
        Rebentamentos e helicpteros Apache, mas crianas a tomar banho no brao do rio. Porque no? Est calor. E tudo aqui  to menos assustador por ser a vida
de todos os dias. Cabul parece perigoso visto da Europa, depois Kandahar parece perigoso visto de Cabul, depois Arghandab parece perigoso visto de Kandahar. E no
fim de tudo h sempre homens que vendem bebidas de lata ou tm pomares, homens e crianas descalas a tentarem viver num pas sacudido por 30 anos de guerra fria
e quente.

A estrada para Kandahar continua deserta, ao cair da tarde, e mal entra na cidade enche-se de carros, bicicletas e motoretas. Quando passa uma patrulha americana,
tudo pra e encosta.
Os Kandahar disparam e encostam, mas no gostam. Sentem-se humilhados. As colunas militares, canadianas ou americanas, atravessam a cidade de armas apontadas, e
disparam se algum se aproximar.
        Rahila tira a burqa. Um grande leno continua a disfarar a barriga, mas por baixo de todos estes panos est um beb de quase nove meses, quase a nascer.
        - Na nossa cultura no  aceitvel mostrar que temos barriga, por isso agora uso este leno grande.
        Esta madrugada sentiu dores mas de susto.
        - Era uma e meia da manh. Acordmos com uma batalha por cima de ns. Estvamos a dormir c fora, por causa do calor, e de repente vamos as balas a passar.
A casa de Rahila fica num bairro  entrada de Kandahar, quando se vem de Arghandab.
        - No sabamos o que estava a acontecer, pensvamos que fossem os taliban a atacarem a esquadra da polcia, ao lado da minha casa - conta ela, no ingls
fluente de quem estudou no Paquisto e agora trabalha com a ONU. - Mas era o exrcito afego a responder a algum.  a primeira vez desde que voltei do Paquisto,
em 2002, que assisto a uma batalha assim. Nunca tinha visto balas a passar por cima de mim.
        Rahila tem medo dos taliban, mas, como muitos kandaharis, no s dos taliban.
        - Quando as foras militares passam, tambm temos medo. Quando as tropas passam, temos que parar, seno disparam. Ns, as pessoas, estamos no meio desta
guerra. Temos medo de toda a gente.

Nur Khan conduz-me ao edifcio do governador, onde vai haver uma conferncia de imprensa. Os rapazes da Al Jazeera esto l,  espera, entre todos os outros jornalistas
afegos. Hashem diz-me que sou a nica jornalista ocidental. E sou a nica mulher.
        O governador  jovem e charmoso. O general canadiano senta-se com ar de quem est farto de estar ali.
        Khaled Asadullah no pode ter idade para ter lutado com os russos, mas lutou.
        - Era um mido - atalha, sorridente.
        Aos 36 anos, Asadullah no parece governador da provncia de Kandahar, a dura. Parece um sofisticado jovem afego, to desenvolto a responder em pashto como
em ingls.
Senta-se  cabeceira da longussima mesa cerimonial com o general Thompson para um balano da ofensiva: 20 taliban mortos e 40 feridos, dois soldados afegos mortos
e trs feridos, quatro aldeias recuperadas, de entre as dez que os taliban tinham ocupado.
        Asadullah sublinha que no h qualquer baixa civil, e que "a operao vai continuar, lenta, de forma a impedir vtimas civis".
        De resto, o governador corrobora o que a populao diz, "muitos destes taliban so paquistaneses".
        O general Thompson faz questo de dizer que "esta  uma operao planeada e executada pelo Exrcito Nacional Afego e apoiada pela ISAE" e, insiste:
        - Vai prosseguir de forma metdica e lenta para assegurar que no sejam mortos civis. Hoje estou certo de que no foram.
        Embora haja um ferido civil a registar, um jornalista embedded com as tropas canadianas, que os militares da ISAE evacuaram entretanto.
        Na provncia de Kandahar esto neste momento 2500 soldados canadianos, e chegaram recentemente paraquedistas britnicos. H uma presena regular e constante
dos americanos.
        De acordo com o general e o governador, alm dos 20 taliban mortos em Arghandab, outros 14 foram mortos em Maywand, o distrito de Kandahar onde estiveram
os soldados portugueses.
        Mas o sorridente governador Asadullah cr que "o pior j passou" e que a ocupao de Arghandab "foi uma espcie de suicdio" para os taliban.
        - Esto mais fracos do que em 2006 e 2007.
Assim falou o poder oficial. Mas que pensam os cls?
        Nur Khan leva-me a um lder tribal. No telefonamos antes, no  necessrio. A esta hora estar no jardim de sua casa, a receber gente.  assim que tudo
sempre foi e tudo continua a ser. Os homens sabem e vo.
        A lua est cheia no cu e o muezzin chama para a orao quando Haji Mohammed Issa Khan, todo vestido de branco, enrola o turbante preto  volta da cabea
e se pe de p para rezar, no jardim da sua casa de Kandahar.
         o lder de uma grande tribo pashtun. Os homens continuam a vir pedir-lhe conselho para tudo. Antes do muezzin chamar, havia seis homens de alguma imponncia,
sentados  sua volta, no grande tapete vermelho estendido no jardim, entre chvenas de ch e doces.
        Noutra parte do jardim, uns 20 homens sem turbantes e com tnicas pobres - guarda-costas e trabalhadores.
        Ao chamamento do muezzin todos eles, pobres e ricos, se levantam e curvam, em orao.
        Enquanto eles se levantam, eu continuo sentada, a olhar para a lua cheia, perfeita no cu. H um vento leve no anoitecer. O calor de Kandahar  bom.

E  j noite quando Haji Mohammed Issa Khan, 54 anos, sete filhos, expe o que pensa que est a acontecer entre a sua gente, numa voz gutural e incisiva, como a
de um actor
        - Estamos preocupados. Se isto continua assim, no penso que consigam derrotar os insurrectos. O governo no conseguiu conquistar as pessoas. As pessoas
no apoiam os taliban de corao, mas acabam por apoiar porque tm medo deles. Esto confusas. Penso que a comunidade internacional no leu a histria do Afeganisto.
Devia ler e aprender. Em Kandahar h disputas tribais. As autoridades deviam ser daqui.  muito difcil impor uma mentalidade s pessoas.

O grande chefe sentado tinha-me cumprimentado com a cabea quando chegmos, corts, mas depois no olhou mais para mim. Fala para Nur Khan, e Nur Khan vai fazendo
resumos em ingls.
        Mais uma vez, sou a nica mulher.

De volta  Continental, escrevo, janto po e queijo, e converso com os rapazes da Al Jazeera no jardim. Vou-me embora amanh, mas agora podia ficar. Continua a no
haver mulheres, mas os homens que no primeiro dia olhavam atravs de mim agora cumprimentam-me.


                                KANDAHAR - CABUL

                                      19 de Junho

O JARDINEIRO EST a regar as rvores e as flores, e h pssaros. Sento-me a escrever  sombra, depois do pequeno-almoo, enquanto a manh se organiza. Assad passa
com tabuleiros, lenis lavados, o aspirador. Traz-me uma coca-cola fresca. Sorri muito. Abdullah, o tradutor da Jazeera, fuma  sombra da romzeira. Hashem sai
do quarto com uma grande tnica e chinelos, como um rabe verdadeiro, ele o das camisas s risquinhas, o queque de Doha.
        Tiramos uma fotografia todos juntos. Quando a olho parecemos to contentes como se estivssemos de frias. E depois fotografo o meu quarto, os rapazes da
guest house, o jardim. No me quero ir embora.
        Vou pagar  recepo. Um contractor estrangeiro de shalwarka-miz e barretinho vem  recepo perguntar se lhe recomendam seguranas armados para dar uma
volta de duas horas na cidade.

Talvez as uvas e as roms no estejam perdidas. Centenas de afegos preparam-se para voltar aos seus pomares e vinhas em Arghandab, depois de o governador de Kandahar
ter dado como "erradicada" a presena taliban.
        A zona da batalha  fortemente arborizada e as buscas dos corpos podem demorar.
        - Os taliban mortos so principalmente paquistaneses e esto ligados ao comandante Baitullah Mahsud - apontou o porta-voz do governador Khaled Asadullah,
referindo-se a um lder tribal paquistans que apoia os taliban.
        H uma tenso crescente entre Afeganisto e Paquisto por causa deste apoio.
        Do ponto de vista do exrcito afego, que empenhou quase mil homens em Arghandab, era crucial conseguir um sucesso, depois de os taliban terem aberto  bomba
a priso de Kandahar e capturado vrias aldeias. Os feitos agora reclamados pelo exrcito afego podero ter o efeito de um salvar-a-face.

Mas, se a linha da frente em Arghandab era clara e clssica - uma zona densamente arborizada com um rio no meio, do lado de l taliban, do lado de c tropas governamentais
-, as fronteiras entre apoiantes do governo e apoiantes taliban em Kandahar so muito mais fluidas.
        H quem diga que o apoio taliban  maior nas zonas rurais do que na cidade de Kandahar.
        Mas Siamak*, que vive em Arghandab e trabalha em Kandahar para uma organizao internacional, ressalva que "as pessoas da cidade esto fortemente ligadas
s das zonas rurais", sugerindo que na cidade o apoio aos taliban tambm existe.
        Este homem de barba espessa, como tantos em Kandahar, escrupuloso cumpridor das cinco oraes dirias, no diz que apoia os taliban, mas tambm no o nega.

Na Europa ou nos Estados Unidos, o seu discurso sobre as mulheres, por exemplo, seria considerado extremista.
        Em Kandahar, no  incomum, mesmo entre a elite de afegos que falam outras lnguas e trabalham com internacionais.
        O que Siamak mostra  como os apoios, aqui, so volteis. Numa regio tribal que passou por 30 anos de guerra e privaes, a segurana e a economia so as
prioridades, e as pessoas tendem a penalizar quem no
* Por razes de segurana, o nome verdadeiro foi substitudo.
lhes garante isso e a valorizar quem garanta. Corre o ditado: o meu inimigo de ontem era melhor que o meu inimigo de hoje.
        Kandahar  uma antiqussima cidade na rota dos mercadores. Tem tribos que continuam a funcionar como h centenas de anos, e a tradio prevalece - mesmo
sobre a religio: confunde-se com ela.
        - No princpio do regime do presidente Karzai, as pessoas tinham esperana de que algo fosse feito, mas cedo se percebeu que era um poder contra as pessoas.
- diz Siamak.
        Como?
        - Isto  uma zona tribal. Os americanos recebem uma informao e atacam uma casa. Entram, vem as nossas mulheres e no se importam com a tradio. Isto
est a espalhar-se, tal como prenderem pessoas sem provas significativas.
O governo no se importa e as pessoas esto a ficar zangadas.
No significa que apoiem os taliban por causa dos taliban, mas sim porque esto fartas do governo.
        A ponto de dizerem que no tempo dos taliban era melhor?
        - Sim, toda a gente diz que no tempo dos taliban havia a melhor segurana do mundo, sem crimes, sem raptos.
 verdade que a economia no era boa, mas agora ainda  pior. No h trabalho, as pessoas tm que pagar subornos por causa da corrupo. O governo  corrupto, como
podem confiar no governo?
        Siamak viu os taliban chegarem s aldeias de Arghandab. Mesmo antes de as ocuparem, j l iam.
        - Foram aparecendo e disseram que davam oito dias s pessoas para fazerem as colheitas.
        As pessoas receberam-nos?
        - No  que os tenham recebido, aceitaram.
        Alm da segurana e da economia, Siamak quer acrescentar que tambm a cultura era melhor no tempo taliban.
        - Agora  aquilo que vemos na televiso. E a lei tambm era melhor.
        - Agora prendem um ladro e depois libertam-no. Siamak preferia que lhe cortassem as mos, como faziam os taliban?
        -  a punio islmica, se um ladro rouba, deve ter as mos cortadas.
A no ser que se prove que era muito pobre.
        - E, se matou, deve morrer.
        Enquanto Siamak fala h uma cassete de msica afeg a tocar. No tempo taliban podia ser?
        - No - admite Siamak. - Os taliban fizeram algumas coisas muito radicais. Mas  verdade que no Coro a msica  haram, proibida.  excepo dos casamentos,
ou no sufismo. Os taliban diziam que a msica leva  dana e a dana  prostituio. A prostituio  haram, como a homossexualidade ou o vinho.
        Siamak contacta diariamente com gente de todo o mundo, mas a sua mulher usa burqa sempre que sai, e ele acha que tambm  haram uma mulher mostrar a cara
depois da puberdade e at ser velha.
        - Porque, de acordo com o Islo, as mulheres so fracas, fisicamente.

No avio para Cabul vai tambm um casal de uma ONG. Um italiano e uma finlandesa que passaram seis meses em Lashkar Gah, um dos pontos mais violentos do Afeganisto.
Parecem muito apaixonados. Vo de mo dada durante o voo, e ele estende as pernas para o colo dela.

Quando volto a Cabul, ao quarto 24, j no tenho candeeiro nem frigorfico. Mas Hassan, o governante, logo vem despejar gua no playmobile, que me vai fazer um tsunami.
        So trs da tarde e estou esfomeada. H um restaurante libans aqui perto, o Cedar. Experimento ir l comer um hummus e  um grande erro. Estou absolutamente
sozinha na sala. Ao balco h um homem gigantescamente gordo e rapazes com maus risos. Telefono a Haidar, o gerente do Kabul Lodge, e Nahim vem ter comigo. Deixam
de olhar para mim.
         noite saio com Michael, o alemo, para continuar a lista dos lugares-onde-os-estrangeiros-vo. Vamos ao La Cantina. Segurana armada, porto, caminho,
segurana armada, porto, e ento o jardim.
        A casa  encantadora, redonda, com janelas de madeira e paredes de cores fortes, vermelhos, laranjas. Mas cheia de gente de meia-idade a falar demasiado
alto, por cima das piores sobras da msica dos anos 80. Quando nos sentamos no jardim, chegam raparigas de jeans com lenos por cima, entre gritinhos. Pergunto a
uma delas em que trabalha e ela fala em development e capacity building.
        Michael fala-me de workshops e powerpoint.  interessante a parte da China, e da mulher chinesa. Como Pequim pode ser uma cidade agradvel, com o nosso caf
da esquina, apesar de se demorar meia hora a atravessar a rua.
        Bebemos dois copos de vinho branco e comemos um prato de nachos com galinha e pickles.
        Pelas dez vamos para o Gandamack Lodge, a mais cara guest house de Cabul, onde aparentemente h uma festa. No me ocorre perguntar se lhe chamaram Gandamack
em homenagem aos 16 mil britnicos massacrados em 1842, mas calculo que sim. Dois portes de segurana e guarda armada, tambm, e depois agradeo aos cus no me
ter ocorrido ficar aqui alojada, ainda que tivesse 125 dlares mais taxas para pagar.
        Jipes estacionados no jardim. trio com jias e tapetes  venda. Um tipo diz-nos que temos de pagar 20 dlares  entrada. Decidimos ir embora. E ento, 
esquerda, vejo uma sala de jantar cheia de estrangeiros, homens de smoking e mulheres de braos nus, cercados de bandeiras inglesas. Riem s gargalhadas e sopram
fumo de charuto. Alguns esto vermelhos a rebentar. Um tem um turbante de cetim.
        Tudo parece terrivelmente errado. Errado estarmos aqui. Errado estarmos aqui no meio deles.
        Michael prope eu ir ver o jogo  guest house dele. Errado.
Portugal-Alemanha, sim, mas Portugal vai para a sua guest house.

                                        Cabul
                          20 de Junho

SEXTA-FEIRA. A minha primeira em Cabul. At aqui escapei a isto. Cheguei num sbado, na sexta seguinte fui para Herat, e na seguinte para Jalalabad.
        Cabul dorme. Ningum na rua do Kabul Lodge, a Passport Lane. O Museu de Kabul est fechado. Telefono a Sofia e convido-a para almoarmos. Combinamos no Safi
Land-mark, o hotel ao lado do stio onde estivemos juntas a comprar roupa. Ela chega escoltada pelo irmo mais velho, um nico de homem com 17 anos, porque uma rapariga
afeg no sai sozinha, mesmo que estude nos Estados Unidos e trabalhe. Sofia est satisfeita porque conseguiu trabalho para o Vero que vai passar em Cabul. Est
a ganhar 900 dlares por ms numa empresa. A me ganha 60 a trabalhar para o procurador-geral. Um professor ou um polcia tambm. D para um almoo a quatro no Safi.
        O buffet  bom.
        Fica combinado que mais tarde me vo buscar para irmos a um casamento da famlia, mas entretanto deixam-me na livraria mais clebre de Cabul, a Shah M Books,
num dos cruzamentos de Shar-e-Now.

Shah Mohammed no gostou de O Livreiro de Cabul, o livro em que  a principal personagem, mas antes e depois da polmica esto os livros que vende h 40 anos. A
histria recente do Afeganisto vista da loja de Shah, na primeira pessoa:
        - A famlia  muito importante. Casei com a minha primeira mulher e tive trs filhos e uma filha. Casei outra vez e da minha segunda mulher tive duas filhas
e dois filhos. Tenho cinco irmos e cinco irms. O meu pai morreu h 14 anos, a minha me ainda est viva. A minha me  de uma tribo pashtun, o meu pai  de uma
tribo tajique. O Afeganisto  um cruzamento de civilizaes.
        Quando vou ao estrangeiro, acham que sou rabe, uzbeque ou chins. Cresci em Cabul, perto do Palcio Real. Estudei Engenharia Civil na Universidade de Cabul,
mas nunca trabalhei como engenheiro. O meu pai era construtor e queria que eu trabalhasse com ele, mas eu insisti em abrir esta livraria em 1970. Nessa altura no
havia uma livraria de livros gerais, para os estudantes, em muitas lnguas.
        O Afeganisto foi e  um pas muito importante. E infelizmente o mundo tem muito pouco conhecimento do Afeganisto, e repete erros. No entende os afegos.
Ento tentei juntar tudo o que estivesse relacionado com o Afeganisto sob um nico tecto: arte, poemas, tradies, filosofia, poltica, em qualquer lngua. Juntei
mais de 17 mil ttulos em todas as lnguas que encontrei.
        Os livros mais antigos so manuscritos. O mais antigo foi escrito em persa h 800 anos.  sobre as aventuras de um viajante na sia Central. As primeiras
pginas desapareceram, mas percebe-se que ele vem de Bukhara, hoje Uzbequisto e vai para a ndia oriental. Ficou muito tempo no Badakhshan e em Cabul.
        Eu nasci no dia 4 do 4 de 1944.
        Tinha 15 anos quando comecei a viajar. Na minha primeira viagem fui sozinho ao Iro e voltei com muitos livros. Comprei o Otelo, de Shakespeare, em persa.
Martin den, de JackLondon. Depois Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram. Dostoivski, O Idiota e Os Irmos Karamazov. Ana Karenina, de Tolstoi. Li todos estes livros
em persa. Fiz mais viagens ao Iro e ao Paquisto e de cada vez voltava com mais livros. E assim comecei a livraria.
        Esta  a loja original. Nessa altura no era difcil encontrar lojas. Aluguei-a e agora  minha. Alm dos 17 mil ttulos sobre o Afeganisto, temos muitos
livros para crianas, e sobre agricultura, medicina ou literatura.
        A minha livraria esteve sempre aberta desde 1970, mesmo durante o tempo dos taliban radicais. S fechou por um curto perodo, quando fui preso pelo regime
comunista. Prenderam-me porque eu coleccionava folhetos dos mujahedin para a minha coleco. Tinha folhetos, jornais, livros escritos pela oposio. Os comunistas
avisaram-me de que eu no devia vender essas coisas. Eu dizia que eram coisas relacionadas com o Afeganisto. Um dia, em 1979, vieram e prenderam-me por um ano.
Nesse tempo no havia julgamentos, eram uns radicais, mais do que os taliban, at.
        Quando fui solto, recomecei. Em 1984 fui preso pela mesma razo, e passei outro ano na cadeia.
        A crise no Afeganisto comeou quando o regime comunista veio para o poder, em 1977. Destruiu completamente a oposio. Assassinou cinco mil intelectuais.
A cidade estava cheia de medo, toda a gente temia pela vida. Muita gente fugiu para o Paquisto, mas a mentalidade fundamentalista, l, tambm era contra os valores
afegos e muitos fugiram para pases ocidentais. A cidade ficou vazia de intelectuais.
        Mas sempre tivemos clientes.
        Tnhamos a universidade, escolas, diplomatas, jornalistas, as Naes Unidas. Importei livros para toda a gente. Todos os dias estudava, aprendia o que devia
importar. Mantenho sempre a minha coleco actualizada. De 1974 a 1984, importei trs mil livros de Shakespeare em persa e vendi-os todos. De 84 a 94, importei sete
mil livros de Shakespeare e vendi-os todos. E de 94 a 2002, vendi s 165 livros de Shakespeare. Havia guerra civil e depois vieram os taliban. De 2002 at agora,
vendi mais de 12 mil cpias.
        Adoro Shakespeare porque  como um professor. Ensina-nos em cada pgina a ver a sociedade, as pessoas  nossa volta. Em Otelo, o heri  preto, a mulher,
Desdmona,  branca, e  volta h muitos hipcritas. Shakespeare apresenta-nos cada face.
        Felizmente a nova gerao de afegos est muito interessada na literatura estrangeira. L e estuda.  uma grande esperana para o futuro. E a honestidade
cresceu muito na gerao jovem.
        No tempo do rei Zahir Shah [dos anos 1930 aos anos 1970], o Afeganisto era conhecido no mundo como um pas moderno, especialmente a cidade de Cabul, e tnhamos
uma universidade moderna, com professores da Alemanha, dos Estados Unidos, de Frana, que treinavam os afegos intelectuais. As mulheres vestiam-se como hoje na
Europa, tinham minissaias e no cobriam o cabelo. O nmero de mulheres na universidade era um pouco menos que 30 por cento. Tnhamos mais de 30 por cento de escolas
de raparigas na cidade. E estavam to cheias como as dos homens.
        O rei foi derrotado pelo seu primo Daud. Daud tinha um plano para apoiar o turismo, dar educao aos afegos. Um verdadeiro Afeganisto moderno estava a
caminho. Mas quando os russos vieram tudo parou.  como um carro. Se as pecas forem originais, funciona normalmente. Se alguns elementos no funcionarem, toda a
mquina falha. Os elementos da administrao do rei eram instrudos e sabiam como governar
        Quando veio uma mudana sbita, a capacidade do engenho era muito baixa. O governo russo no tinha quadros suficientemente experientes. No sabia como lutar
contra fundamentalistas, mullah, etc. E em algumas provncias comeou o conflito.
        Os russos eram extremistas e matavam quem se lhes opusesse Vieram para o Afeganisto e em dez anos mataram milho e meio de afegos. Seis milhes emigraram.
As ruas estavam muito vazias. Muitos amigos me sugeriram emigrar para o Canad. Mas quando o sistema comunista j estava experimentado e queria reparar os seus erros,
conciliar-se com a oposio e oferecer vias pacficas, a mquina quebrou-se
        Najbullah {ultimo presidente da era comunista] queria reformar o sistema governamental e trabalhou muito trouxe gente nova, mais instruda, confessou os
seus erros. E o governo de Najib no era como o de hoje, corrupto. Tenho uma boa imagem do governo de Najib. Negociou uma paz com as Naes Unidas, os pases vizinhos,
os Estados Unidos, toda a gente. Trabalhou para um governo de unidade nacional com os mujahedin. Os mujahedin s tomaram o poder e em 1992 estalou civil.] A seguir
a NajibuUah, veio uma mquina muito inexperiente, que nunca teve capacidade de liderar o governo  como se eu estivesse sentado numa sala de cinema,

a ver o filme. Penso que estas coisas a acontecerem diante dos meus olhos so artificiais. Vejo os heris, os viles, o sangue, as exploses.
      A minha mente est programada para pensar que isto no  real.
        Mas, quando a BBC noticia que 20 ou 50 taliban foram mortos ontem em Arghandab, sabe o impacto que estas mortes tm na sociedade afeg? Vivas, rfos, todas
as escolas fechadas. Com cada morte de um afego o sofrimento  muito longo, seja Massoud, Hekmatyar, ou mesmo um taliban.
        Quando os taliban vieram, em 1996, eu estava em Cabul. Ouvi que o dr. Najibullah fora morto e enforcado e fui ver o corpo {os taliban castraram-no e exibiram-no
enforcado no meio da rua, ao lado do irmo). Os corpos estavam pendurados em frente ao Hotel Ariana, na esquina do Palcio Real. Vi-os e voltei para a minha livraria.
Estava habituado a resistir e decidi resistir outra vez. Pensei que tinha de manter esta livraria aberta para os afegos.
        Deixei crescer uma barba.
        Os taliban vieram aqui e viram imagens. As imagens de seres vivos estavam banidas, at a fotografia de uma borboleta. Avisaram-me muitas vezes: destri estes
livros. Eu disse que sim e ignorei. Ao fim de alguns anos, fizeram uma grande pilha de tudo o que tinha imagens, livros, revistas, jornais, postais, e queimaram
tudo, aqui  frente. Prenderam o meu irmo, selaram a minha loja. Eu estava em Peshawar. Uma semana depois, voltei, fui ao Ministrio da Cultura e eles disseram
que lamentavam muito, mas que eu devia ter parado de imprimir postais do Afeganisto com imagens de seres vivos.
        Perdi muitos livros. Era uma grande pilha. Na rdio dos taliban anunciaram que materiais anti-islmicos tinham sido confiscados e destrudos. Depois reabri
a loja e comecei outra vez. Nunca tive medo.
        Agora muita gente pergunta quem ser o prximo presidente. Digo sempre que  muito difcil prever. Porque quando os taliban foram derrotados, 90 por cento
dos afegos, incluindo eu, acreditavam que o rei Zahir Shah ia voltar. Mas de repente uma figura muito impopular como Karzai veio para o poder e toda a gente ficou
surpreendida.
        Se as pessoas agora dizem que os taliban eram bons  porque pelo menos eram afegos. Os afegos rezam para que afegos estejam no poder. Gostam da segurana
que havia durante os taliban. A pobreza est a aumentar muito, isso tambm  uma grande ameaa  segurana do Afeganisto. E o governo  muito corrupto, no faz
nada pelos afegos.
        Os afegos so a melhor gente do mundo se tiverem bons lderes e so os piores do mundo quando no tm boa liderana. Quando os taliban vieram para o poder
e disseram aos mujahedin para no fumarem haxixe, os mujahedin corruptos tornaram-se anjos nas cidades. Os afegos precisam de liderana.  por isso que nunca devemos
confiar nos afegos numa crise de liderana. Mudaro a sua opinio, nunca sero honestos.
        Tenho a certeza de que Karzai no est a ser honesto com os americanos, est a engan-los, e a enganar os estrangeiros, toda a gente.
        Se for  histria, os britnicos estiveram aqui no sculo XIX, e uma faca foi espetada no peito do comandante. Os estrangeiros deviam aprender com a histria.
        Cada afego observa aquilo que est a acontecer. Se os estrangeiros forem honestos e realmente quiserem ajudar, os afegos acolhem-nos de corao e ajudam-nos,
mas, se os estrangeiros vem com outras ideias e interesses, os afegos tambm percebem.
        Porque cresceram na guerra com armas, com mos vazias, com palavras.
        A maior parte dos afegos nunca ver o contedo da ajuda internacional. Agora, quando 21 mil milhes de dlares foram prometidos para a reconstruo do Afeganisto,
tenho a certeza de que 20 mil milhes voltaro para os estrangeiros, um milho ser para Karzai e os seus, e para os afegos nada. Isto  uma guerra de mfias. A
mfia da droga, a mfia da ajuda, a mfia das Naes Unidas, a mfia dos servios secretos. No  uma guerra contra o terrorismo.
        Karzai  apenas uma pequena parte do sistema. Quando falhar, substituem-no por outro, mas o sistema  o mesmo.
        H empresas fornecedoras para a ISAF, para os americanos.
        No se imagina quanto dinheiro est envolvido nesta mfia poltica.
Muita gente  responsvel pela tragdia do Afeganisto. Os americanos, os europeus, os russos, a AL-Qaeda e Osama bin Laden. Esta no  uma guerra de sete anos,
 longa de h trs dcadas. E o resultado so dois milhes de mortos, seis milhes de refugiados, centenas de milhares de vivas e de mutilados, entre 60 e 70 por
cento de iletrados e dez milhes de minas.

Shah Mohammed  um homem muito eloquente mas fecha-se mal a entrevista acaba. Mantm-se ao balco em silncio enquanto eu estou  porta da livraria, a tentar ver
como volto ao hotel, a p ou de carro, e os homens na rotunda no param de olhar para mim.
        Sofia ficou de aparecer por volta das seis. Escrevo no jardim, enquanto espero, a beber ch com leite, sentada na cadeira que Hassan plantou na relva. Hassan
rega a relva. O ar est manso, sem calor. Os pssaros ainda cantam.
        Debaixo do toldo, trs contractors partilham uma garrafa de vinho branco.

Quando toca o telemvel  Sofia, a ligar de um txi a cair de podre parado numa esquina da Passport Lane. Ao volante, o pai, j a ficar careca, fato ocidental de
trs peas; ao lado, aquele irmo que conheci ao almoo, tambm de fato e culos escuros; no banco de trs, Sofia, a me e agora eu; e ainda por trs de ns, no
espao aberto da bagageira, o irmozinho mais novo. L vamos entre as melancias e as mangas do bazar at ao bairro dos Wedding Halls, no Norte de Cabul. So torres
espelhadas com nons cor de pastilha elstica. A nossa torre tem sete andares. O nosso casamento  no ltimo. A meio da sala h uma espcie de biombo. Do lado de
l esto os homens, do lado de c as mulheres. As mesas so redondas, a luz  de talho.
        Sofia e a me tiram os lenos, descobrindo cabelos, braos e colos. Sofia tem cachos negros falsos, como uma Pompadour, e vestido de princesa cor-de-rosa.
A me tem 36 anos carregados de ouro e dourado, com maquilhagem total, pulseiras nos dois braos, e uns saltos de plstico transparente.
        O casamento  um ponto de fuga para 500 pessoas ao mesmo tempo. Nos dias normais, as mulheres no se vem. Nos casamentos decoram-se como montras. E, na
paz como na guerra, cabeleireiras e costureiras so bens essenciais.
        Sentamo-nos em cadeiras forradas de cetim com ndoas e a banda ribomba. Mau rgo, tambores, cantor, cinco homens ao todo. As mulheres tm em geral a cabea
descoberta, com grandes penteados armados, cabelos de ms cores, peles macilentas, cedo pesadas. Muitas esto vestidas de nylon com lantejoulas, pestanas falsas
e batom a transbordar, traseiro justo e decote. Todos os recursos de um travesti.
        Mas eu  que dou nas vistas: tnica de algodo, mangas de camisola interior, tnis cheios de p, cabelo rente, culos. As crianas arregalam os olhos e escondem-se
umas atrs das outras, a rir de mim. Sou a parente que no se mostra. Um desastre.
        Sofia  um encanto. Vai buscar ch, apresenta-me  prima favorita,  tia e  cunhada da tia. Tiramos fotos no trono de cetim dos noivos, e as crianas querem
todas ser fotografadas. Os rapazinhos esto vestidos  ocidental, com casacos grandes de mais nos ombros, gravatas e coletes, culos escuros espelhados.
        - Esta  uma famlia moderadamente conservadora - diz Sofia.
        Se eu fosse a um casamento de uma famlia mais moderna, veria raparigas de calas e mais mulheres de braos nus como ela.
        Tan-tan-tan-tan, holofotes. Os noivos aparecem com um ar serssimo, de cabea baixa. O noivo tem um ar de pobre diabo, fato branco, camisa verde-alface,
e a noiva est toda de verde-alface, plida como uma gueixa, com um batom cor-de-rubi e pestanas de boneca. Ficam no palco e vo tirando fotos com as vrias mulheres.
        - No  um casamento de amor - explica Sofia. -  arranjado.
        O casamento dos pais dela foi de amor. Sofia no s quer um casamento de amor como quer passar algum tempo com o noivo, no necessariamente partilhar a casa
e a cama, mas passar algum tempo. Na Virgnia vive num campus universitrio onde a propina  de 25 mil dlares. Quase toda a gente  branca e rica, diz Sofia. Ela
tem uma bolsa, num programa que ajuda jovens afegs a ir para o estrangeiro. Est a tirar um mestrado em Gesto. Daqui a trs meses volta para a Virgnia. Tem famlia
nos EUA, em New Jersey, em LA. Quer continuar a estudar em Itlia. Pensa em Roma, Milo, Veneza.
        De vez em quando aparece um homem para cumprimentar.  permitido, se forem parentes prximos. A banda est exactamente a meio do biombo para tocar para os
dois lados. Sofia deixa-me ir espreitar. H bastante menos homens do lado de l do que mulheres do lado de c, e os homens esto sentados com ar aborrecido e fatos
ocidentais tipo Maconde.
        Ento, as mulheres comeam a rodopiar, com os braos ondulantes, como nos filmes de Bollywood. A pista fica cheia de caudas e de taces. Quase todas as mulheres
tm purpurina e ganchos brilhantes com borboletas ou diademas no cabelo que nunca mostram. As meninas pequenas andam com vestidos a cair pelos ombros, coisas cheias
de folhos, sapatos de plstico e khol olhos. E Sofia dana em volta, com as primas.

        Enquanto ela dana, eu alterno as minhas cinco palavras de dari, sentada  mesa com aquele sorriso de quem no percebe nada.
        Mal por mal, s se v metade de como eu estou mal vestida.
        Sou a nica assim, mas no a nica sentada. Porque, se muitas mulheres danam, muitas mais continuam  mesa, a olhar para a pista ou para o colo. As que
tm crianas entretm-se mais. Quase todas parecem mais exaustas que entretidas. E o batom desapareceu com o arroz.

        Na minha mesa est uma mulher muito triste, que no fala com ningum e tem os olhos vermelhos. Como a comida nunca mais vem, d batatas fritas e sumos de
pacote aos meninos sentados em cima da mesa. Ser pobre no Afeganisto, na cidade, tambm  comer fast food desde a nascena.
        No hospital de Mirwaiz vi uma me dar este sumo aucarado ao seu recm-nascido. So as mesmas mulheres que tm vergonha de dar de mamar.
        Um menino empurra as costas da cadeira e a cadeira comea a cair. A me agarra-a e d uma estalada na cabea da criana.
        J se vem vrios homens. E finalmente entram empregados, todos com os braos erguidos como um corpo de ballet, e l em cima grandes tabuleiros. Se servissem
uma vaca assada no seriam menos sensacionais, mas vo s servir latas de coca-cola e travessas de arroz pulao.
        Comemos arroz - com passas, com aafro. Depois pudim e melancia. Cada convidado tem direito a uma caixinha de papel com sugos e gomas.
        Sofia leva-me ao andar de baixo, onde h uma espcie de camarim para a noiva e um camarim para o noivo. Tiro fotografias a toda a gente. Toda a gente pede
fotografias. Meninas lindas em fatos tradicionais azul-turquesa, em cenrios com fontes e florestas e luzinhas a piscar.


Em Cabul, h coisas que s se vem num casamento.
        Nenhum homem de tnica  uma delas.
        Tan-tan-tan-tan, outra vez a banda, outra vez os holofotes.
        Agora a noiva vem de branco em vez de verde, e o noivo de preto em vez de branco. Mas outra vez a marcha lenta de quem d tudo para no estar ali.
        De Cabul a Bombaim,  uma tradio a noiva mostrar-se triste por respeito  famlia que vai deixar.
        Em Bombaim vi uma noiva triste mas o noivo chegou num cavalo em festa.
        Aqui, a noiva  triste e linda, o que torna mais triste o noivo ser triste e feio.
        L sobem ao palco, onde novamente so observados num trono de cetim, at voltarem a abandonar o salo.
        E, num abrir e fechar de olhos, os empregados fecham o biombo como um leque e todos os homens transbordam para o lado de c.
        - J podemos estar juntos, porque os parentes afastados se foram embora - explica Sofia.
        E portanto aqui estamos, eu e os parentes prximos.
        Em Cabul, h coisas que s se vem num casamento.
        A mais rara  esta. Os homens tiram o casaco e danam com as mulheres.


E danam a srio, de braos abertos como dervixes, com os seus fatos ocidentais com colete. A msica melhora muito e depois volta a piorar. O bolo em vrios andares
espera para ser cortado. A menina dama-de-honor agarra-se a mim enquanto escrevo.
         sada, as mulheres enfiam a burqa. No passeio fica uma mistura de burqas e caudas de cetim.
        Os Weddings Halls piscam na noite com palmeiras florescentes. Las Vegas em Cabul.
        Sexta-feira  dia de piquenique e casamento.

                                   21 de Junho

H UMA DVIDA quanto ao meu visto.  um visto para um ms, mas ningum me assegura se esse ms conta a partir da data de emisso ou da data de entrada. Se for a
partir da data de emisso, expira depois de amanh. Tem lgica ser a partir da data de entrada, mas tanto afegos como estrangeiros me contam histrias sem lgica.
O conselho de todos  eu ir ao Ministrio do Interior. E, pelo sim, pelo no, levar fotografias.
        Rameen  o meu ajudante-de-campo nesta misso. E, portanto, comeamos a manh bem cedo na Passport Lane, que se chama assim porque  onde os afegos tratam
dos passaportes, e tem vrias lojecas de fotos tipo passe. Apercebo-me de que algures a fazer e a desfazer malas perdi o bilhete de identidade e a bolsinha com fotos
que tinha trazido. Digitalizamos fotos da minha credencial da ISAF e seguimos para o Ministrio do Interior. Filas de gente, apalpes, revistas. Um departamento
em mudana, outro que pe um carimbo no registration card, outro que ia resolver o visto mas afinal nos diz que temos de ir buscar uma carta ao Ministrio dos Negcios
Estrangeiros.
        Vamos a p at ao Ministrio dos Negcios Estrangeiros.
        Passamos por vrios edifcios, enviados de sala em sala, at ao Gabinete de Media. Batemos  porta, rodamos a maaneta - vazio. O homem da limpeza diz que
esto todos numa reunio. Ningum sabe quando voltam. H uma televiso ligada num filme mexicano dobrado em dari, uma toalha de banho cor-de-rosa pendurada no bengaleiro
e uns psteres de Massoud em cima de uma cama.
        Karzai tem direito a uma moldura.
        Passam 20 minutos. Cinco secretrias vazias. E s estamos aqui para receber uma carta para levar ao Ministrio do Interior.
        Quando a tal reunio acaba e os officials voltam, conto a minha histria, mostro o passaporte, e o homem conclui a evidncia - que no preciso de renovar
o visto, porque s expira um ms depois de eu ter entrado no pas. I'm glad we have the same view, digo-lhe. Mas como vou viajar para fora de Cabul e nem todos os
officials podem estar dispostos a compreender isso, poder ele escrever-me uma carta em dari? No, no pode. E desata a falar em dari com Rameen, at nos mandar
para um gabinete onde j estivemos. Talvez eles possam fazer a carta. E tambm eles no podem. Mas podem dar-me um carto-de-visita com um nmero de telemvel caso
acontea alguma coisa, diz um homem.
So 11h3O da manh. Perdemos trs horas para concluir que sempre estive legal.
Vou com Rameen ao Bab Amir comer um qabuli. Pergunto-lhe como conheceu Sofia e ele explica-me que, alm de comprar e vender arte, est ligado ao programa que lhe
d a bolsa, Iniciative to Educate Afghan Women.
        - Sou uma espcie de representante nos Estados Unidos, Canad e Mxico. O programa so quatro anos de universidade, mais dois de master. Foi fundado por
uma americana chamada Paula Nirschel. Ela e o marido so judeus. Ela queria fazer alguma coisa depois do 11 de Setembro. E com este programa j foram para os Estados
Unidos 50 raparigas. Eu fao recolha de fundos, ofereci-me para ajudar. No fico  espera do que possa ganhar de volta. A minha me e a minha ex-mulher no compreendem.
Perguntam: "Quem s tu? A Madre Teresa? Tens alguma doena?"
         a primeira vez que Rameen fala da sua ex-mulher, l nos Estados Unidos. Era um mistrio, como  que um homem de 38 anos nesta sociedade morava sozinho.
E alm de uma ex-mulher tem uma filha.
        - Elas esto na Califrnia, e eu em Nova Iorque, quando estou l.
        Rameen regressou ao Afeganisto para tentar uma ponte, mas est descontente.
        - A cultura afeg em que cresci j no existe aqui. No  s falar de honra,  viver nela. Generosidade, hospitalidade, famlia. Muitas das pessoas que esto
em Cabul nem so de Cabul. A burguesia, a inteligentsia, foram-se embora. Noventa por cento dos afegos que voltam no conseguiram arranjar um trabalho decente nos
Estados Unidos ou na Europa e por isso vieram para c. A cultura refinada desapareceu - na maneira de falar, de ver a vida. No era comum na burguesia de Cabul os
homens no andarem com as mulheres. Muitos homens aqui pensam que se uma mulher estudou ou foi para o estrangeiro  uma mulher fcil. Mas esta no  uma mentalidade
afeg, pelo menos no entre os tajiques.  o resultado da guerra, da no-educao, dos refugiados. Os pashtun tomaram conta dos empregos nas Naes Unidas e os panshiris
dos arredores de Cabul.
 tarde fico no jardim a ler, de ps descalos na erva. Nahim conta-me da universidade, Hassan passa com roupa lavada e Rahman carrega os caixotes de um ingls que
chega. Est um vento bom. Pssaros.
Sbado  tarde em Cabul.

Hashem, o marroquino da Al jazeera, telefona-me. Est alojado no Safi. Convida-me para jantar esta noite.

Falo com Fauzia Kufi, a deputada, sobre a hiptese de a acompanhar na viagem ao Badakhshan. Por ela, ptimo. Mas  uma viagem longa, e eu no sei se a consigo encaixar
nos poucos dias que me faltam.
        A minha prioridade  ir a Bamiyan, no interior do Afeganisto. Nenhuma companhia afeg est a voar para l. As Naes Unidas voam, mas s a ida custa 500
dlares. Por terra, a estrada no tem asfalto, so pedras e p, oito horas para ir e oito para voltar, e pelo meio  preciso passar zonas taliban.
        Telefono  Afghan Logistics a perguntar quanto cobram. O telefonista passa-me ao gerente:
        - No estamos a fazer essa viagem. No h condies de segurana.
        - E quanto cobravam antes? Ele ri-se:
        - Mais do que a senhora pode pagar.
        - Quanto?
        - S amos com dois carros, cada um com escolta armada. A senhora teria que pagar isso tudo e depois a estadia de toda a gente. J est a ver.

Milhares de dlares.

A jantar com Hashem no Safi percebo que ele  uma estrela. Toda a gente o conhece. Dezenas de milhes conhecem-no.  um dos rostos da Al jazeera English. Teve uma
educao de prncipe marroquino, leva uma vida de ouro em Doha. Fala-me das condies em que trabalham e  como se eu estivesse na Idade Mdia. Eles esto onde querem
e fazem o que querem. Tm muito mais poder do que a Al jazeera rabe. Porque apanham todo o mundo islmico que no fala rabe, a Indonsia, a Malsia, o Iro, a
Turquia. Hashem pergunta-me porque  que no fao televiso em vez de trabalhar num jornal. Fala dos jornais como se j tivessem acabado.
- Devias fazer televiso, porque s a televiso realmente importa.

                                        22 de Junho


MANDO UM SMS a Zubaida, a minha companheira naquele fim de tarde aos ps do Jardim Babur. Tinha ficado de conhecer a famlia dela. Hoje seria um bom dia, enquanto
espero para saber se h avio para Mazar-i-Sharif se acho quem v a Bamiyan para dividir despesas, ou se sempre vou ao Badakhshan.
        Calha que Zubaida est em Herat, mas manda-me logo o nmero de Shaharzad, a irm. Shaharzad convida-me a aparecer de imediato. Vivem perto do Parlamento,
junto  French Bakery, aquela padaria de que eu tinha andado  procura no centro.
        Atravesso a cidade at l.
         mesmo uma padaria-mercearia. Pertence a Alem, um afego que passou 17 anos emigrado no Paquisto. Agora vende manteiga de amendoim, Kellogs K, brownies
e croissants. Embora tudo com ar de ter muito calor h muito tempo. Conversamos at chegarem Shaharzad e a irm mais nova, Parwana.
        Parecem mesmo irms de Zubaida, delicadas e fortes como bailarinas, longos cabelos escuros, culos. E Shaharzad comea logo a falar a mil  hora, to vibrante
que ao fim de uns minutos eu j votava nela para presidente do Afeganisto.
        Ela diz que s quer concorrer ao Parlamento.

Esta histria resulta de uns pais que abriram a casa ao mundo. Uma casa to pobre que estrela ovos numa bilha de gs, mas to rica que l os filsofos sufis e Wittgenstein.
        E quase toda a histria se vai contar no claro-escuro de cortinas contra o sol e raparigas que riem, danam, ouvem msica, mostram livros, vem os deveres
dos irmos, abraam o pai que est doente e a me que chega da escola, pem batom, escovam o cabelo, recebem rapazes com quem vo sair.
        Entra-se por um ptio de cimento com uma corda e uma torneira, partilhado por vrias famlias. A casa dos Akbar fica ao cimo de uns degraus meio partidos.
Afasta-se um pano e eis a cozinha.
         uma espcie de marquise onde h uma bilha de gs pousada no cho, daquelas com um bico para cozinhar, e uma banca com um alguidar cheio de loia. As janelas
foram veladas por um plstico que no parece plstico e d uma luz delicadssima.  uma cozinha pobre elegante.
        Umas portadas de madeira do para a sala de estar, onde a luz chega duplamente filtrada por cortinas.
        Tambm  sala de dormir, como habitualmente nas casas afegs. No h mveis, h tapetes e grandes almofadas a toda a volta. Durante o dia, as pessoas sentam-se,
comem, bebem, recebem visitas.  noite, estendem colches. Um quarto individual  um luxo raro.
        De cada vez que Shaharzad e Zubaida esto de frias, como agora, tm de se reabituar a viver com pai, me, quatro irms, dois irmos, primas e tias.
        Mas Shaharzad diz isto a rir, como se fosse uma festa, e o que se v ao fim de umas horas  que  uma festa. Ningum estava  espera de uma visita hoje,
e todos vo fazendo o que tm a fazer. A me est na escola a dar aulas, os irmos pequenos fazem trabalhos de casa na sala onde o pai descansa de uma crise de asma,
a tia prepara po para cozer, as primas fazem ch, e Shaharzad senta-se e fala.
        - Zubaida  boa em artes, em fotografia.  o que no temos aqui, e os meus pais sempre se preocuparam muito com isso, sobretudo o meu pai, que ela estivesse
num ambiente onde florescesse. Ento ela soube deste liceu na Sua, a Leysin American School. Mandmos uma candidatura, eles disseram que apoiariam, que s teramos
que pagar o bilhete. E os meus pais decidiram mand-la. Foi uma grande deciso. Ela era muito nova, 15 anos, falava bem ingls, mas a Sua  longe, no temos amigos
l. Os meus pais sabiam que ela no voltaria a mesma, mas estavam abertos a essa mudana. Isso  o mais incrvel para mim. Hoje, acho que foi uma coisa gigante.
O meu pai  muito autodidacta, mas nenhum dos meus pais andou na universidade. E no Afeganisto toda a gente interfere nas decises. Os amigos, a famlia, diziam
que ela era demasiado nova, liberal, e seria difcil control-la depois. Mas os meus pais disseram: "No.  nova, estar sozinha, ser difcil, mas aprender muito."
E nunca nos arrependemos. Ela foi e mudou tanto. E foi a primeira a ir. Depois, encontrmos duas bolsas para duas primas que viviam connosco. Foram para a Califrnia.
E seis meses depois eu fui para Massachussetts. Agora estou l. E a minha irm Parvin, que tem 16 anos, ir para a Pensilvnia no prximo ano.
        Parvin vai chegar daqui a pouco. Est nas aulas.
        O pai, Mohammed Ismail, foi jornalista e escreve livros, mas no tem salrio fixo. Quando os pais a incentivaram a partir, Shaharzad era a principal fonte
de rendimentos.
        - A minha me  professora e ganha 50 dlares, e eu trabalhava para a BBC como reprter e ganhava 900 dlares por ms. Quando parti, a minha famlia ficou
sem o meu salrio. Mas disseram que no tinha importncia, que eu tinha de ir. Tive de fazer um emprstimo internacional para estudantes, porque a bolsa no cobria
tudo, mas o meu pai disse para eu no me preocupar.
        E foi assim que, enquanto a irm completava o liceu na Sua, Shaharzad comeava Antropologia na Amrica.
        - Fui para o Smiths College, uma faculdade para mulheres, de artes, muito liberal. Era a Alice no Pas das Maravilhas, entrar num pas de que no sabemos
nada, e no sabemos o que  esperado de ns. Eu li muita literatura ocidental, porque o meu pai me encorajou sempre, e sempre trabalhei com estrangeiros, mas viver
l  diferente. Ir para uma escola onde, sei l, 40 por cento das estudantes so gays,  muito diferente. Quando voltei, tinha vivido num quarto. Mudei, claro! E
este ano mudei mais. Tenho ideias que contradizem as do meu pai, as da minha me. Mas ainda assim eles apoiam. Deixaram-me mudar, ser quem sou. Estou-lhes profundamente
grata.
        A exposio da sexualidade  sua volta foi um choque inicial, mas, depois, o que aprendeu em educao sexual e biologia, "do cancro da mama  gentica, passando
pelos preservativos", partilhou com a me e as irms.
        Abalo mais complexo foi descobrir-se muulmana.
        - A minha famlia no  religiosa. O meu pai sabe muito, est muito interessado no sufismo, mas no praticamos muito. Apenas jejuamos no Ramado. E chego
a um campus americano e bum, sou a mulher muulmana. O que aprendi sobre a minha religio foi com os meus pais. A poesia no Islo. A grande tradio de filosofia.
E de repente  muito chocante a forma como me vem. Ento pergunto-me: "Isto  algo moderno na minha religio ou  s poltico?" Foi doloroso, frustrante. Chorei
muito. Tentei ler tudo o que era crtico do Islo. Mas atacar o Islo no ajuda. Os muulmanos dispostos a viver pacificamente so muitos mais. O que podemos fazer
 iluminar os perodos de co-existncia na histria. H poetas, pensadores islmicos que pem a nfase no novo. Temos a nossa tradio de novidade, abertura, tolerncia.
Esse  o caminho para mim.

Os grandes poetas islmicos, como Rumi, esto na sala onde o pai ainda descansa. A f deste pai na educao comea na desobedincia ao seu prprio pai. Conta Shaharzad:
        - O meu av era mullah numa aldeia em Jowzjan [provncia no Norte]. Ensinava s crianas o Coro. Tinha trs mulheres, uma grande famlia. Mas a ideia dos
filhos partirem para estudar, o sistema de educao moderno, no o entusiasmava; ento pagou ao professor para tirar o meu pai da escola. O meu pai veio para Cabul
aos 14 anos, de certa forma fugindo de casa. Como era pobre, a escola militar pagava os custos.
        Os filhos ajudam na terra e em tudo. No caso das filhas, acresce a tradio de as manter em casa. Quando os soviticos encorajaram a educao das mulheres,
a resistncia foi grande.
- Mas penso que uma coisa positiva de toda a desgraa, da guerra civil, da ocupao sovitica, foi a emigrao. Quando as pessoas foram para o Paquisto e o Iro,
viram como a educao  encorajada l, como  a chave para trabalho, respeito, influncia. E, agora, pessoas da aldeia do meu pai pagam para mandar as filhas  escola.
        O programa Initiative to Educate Afghan Women tem um nmero muito limitado de bolsas. Shaharzad no foi uma delas.

        - Eu andava na Universidade de Cabul, e queixava-me muito da educao, da falta de livros. Tudo o que tnhamos era de h 40 anos, os professores no falavam
ingls, no havia meios, no havia Internet. Muitos eram professores porque tinham sido comunistas, mujahedin ou taliban. Eu era a nica mulher da associao de
estudantes, a tentar convencer toda a gente de que os professores no eram bons. No gostavam de mim.
        At que conheceu uma investigadora afeg-americana que veio a Cabul fazer uma pesquisa, tinha uma filha que andara no Smiths College e a aconselhou a tentar.
        - Um dia chego a casa e tenho o e-mail a dizer que fora aceite. Fui ter com o meu pai e disse-lhe: "Mas agora estou na BBC e podem mandar-me para Londres,
e daqui a dois ou trs anos posso ser produtora..." E ele disse; "Respondes ao e-mail a dizer que vais para a universidade."
        No tinham um tosto.
        - Fizemos uma recolha de fundos: basicamente toda a gente da famlia que vinha despedir-se tinha de pagar algo pelo meu bilhete. Eram 1300 dlares. E Zubaida
tambm precisava de um bilhete. Tivemos de conseguir dinheiro de toda a gente.
        Mas o bilhete seguinte foi Shaharzad quem o comprou, a trabalhar.
        - Trabalhei no refeitrio. Foi uma grande experincia. E as pessoas deram-me roupas quentes de que j no precisavam. Tive muita sorte. Tenho trs famlias
americanas na casa de quem durmo quando o dormitrio fecha. Parte da minha educao nos EUA tem sido ficar com estas famlias.
        Sentamo-nos e cozinhamos e falamos. Eles preocupam-se tanto com o Afeganisto, e agora conhecem a minha famlia.
        Ela tinha 11 anos quando, por causa dos taliban, a famlia se refugiou no Paquisto. Aprendeu ingls, e depois ensinou-o.
        - O meu pai e a minha me davam aulas, mas ramos muito pobres, vivamos com emprstimos de amigos. E, quando eu tinha 14 anos e Zubaida 12, comemos a
dar aulas. Era-mos professoras pequeninas de grandes homens que faziam tapetes e queriam aprender ingls para os negcios no Dubai. Foi a que aprendi sobre o poder
da educao. No princpio, os homens vinham e perguntavam: "Quem  a professora?" E depois diziam: " uma mulher, e  to nova." Mas em trs meses tornavam-se fs
da nossa escola. E queriam que as irms viessem estudar connosco. Se investirmos nas pessoas, toda a gente quer estudar.
        Shaharzad fala como quem viveu cada um dos seus 20 anos e no tem tempo a perder.
        - Para j, planeio s fazer um mestrado, porque tenho de apoiar a minha famlia. Tenho irms mais novas que querem ir para a escola, estou fora h dois anos,
e estarei mais dois ou trs. farei o mestrado, voltarei, trabalharei alguns anos para pagar o meu emprstimo. Sero 11 mil dlares. Cinco ou seis anos depois, quando
todos j estiverem encaminhados, tentarei arranjar financiamento para um doutoramento em Antropologia. H milhares de coisas que quero investigar aqui. Canes de
mulheres, como expressam sentimentos sexuais, os acontecimentos  volta delas. Quero perceber de onde venho e o que as pessoas querem. Podemos fazer muito pelas
pessoas quando as conhecemos. E estou interessada em poltica. Por isso, provavelmente, daqui a dez, 15 anos...

Corre para presidente?
        - No! Para o Parlamento.
         Quer viver aqui, isso  certo.
        - Sou esta pessoa porque nasci no Afeganisto, vivi atravs da guerra, da pobreza, da emigrao, e tudo isto me fez ser o que sou. Quando tinha seis anos,
fugimos de Cabul para Mazar-i-Sharif. Vi mortos, gente a sangrar na rua, e essa imagem ficara em mim para sempre. Quero contribuir para que isso nunca mais acontea.
Para que nunca mais as mulheres sejam violadas, queimadas e mortas. Se esta gerao no assumir a responsabilidade, daremos o comando quela gente outra vez.
        E no so os americanos que precisam mais dela.
        - Se ficasse nos EUA o que faria? Trabalharia num escritrio como assistente? Eles tero muitas alternativas, mas o meu pas precisa de mim.
        Agora, Parwana, a irm de 13 anos, est a cantar no meio da sala, enquanto uma prima agarra os joelhos, e Shaharzad lhe faz festas. Parwana j estudou violino
enquanto teve professor, e gostava de cantar, "mas sem ser por dinheiro".
        Chega uma tia que vai amassar po.
        As raparigas falam dos filmes indianos - so as telenovelas locais e uma espcie de educao sexual.
        Shaharzad, que ainda faz fast forward nas cenas de amor mais explcitas - embora o pai lhe tenha dado a ler romances que outros probem - gostava de fazer
uma pesquisa sobre a relao das afegs com o cinema indiano.
        - A verso moderna de amor  o que vemos nas televises. Muitas teenagers esto apaixonadas por actores, tm os retratos das estrelas nos colares, os quartos
cobertos psteres, pem-nos nos cadernos.  compreensvel, por estarem to privadas de uma pessoa verdadeira.

Ela j teve uns dez candidatos a casamento - porque "os rapazes com uma boa educao esto desesperados para encontrar raparigas com uma boa educao" - e gostava
de um dia casar.
        - Mas tenho tanto medo de viver com algum, estou habituada a ter o meu espao, tomar as minhas decises. No quero sacrificar-me, nem que ningum se sacrifique.
E  difcil para um afego estar ao lado de uma mulher assim. Os rapazes educados diro coisas lindas sobre o feminismo, mas no sero capazes de tomar conta dos
filhos ou da casa. Em frente dos amigos  inaceitvel fazerem trabalho da casa, e os amigos esto l metade do tempo. Uma mulher educada  ideal para o show off,
fala ingls, veste bem, pode-se levar s festas do escritrio, mas os homens esquecem que h custos: o trabalho  importante para ela, ela viaja pelo mundo e eles
voltam a casa e no h ch.

Para chegar aos poemas de Rumi que Shaharzad agora quer mostrar, passa-se pela sala onde o pai, Mohammed, se est a recompor da crise de asma. E um homem de sorriso
doce, estendido ao lado das crianas, o filho mais novo, Jalal de oito anos, e uma amiguinha. Em cima dos tapetes h livros espalhados, um prato com melancia fresca,
um bule de ch, muitos desenhos com borboletas, patos e estrelas-do-mar s cores, e duas bombas de asma.

        Na sala contgua esto centenas e centenas de livros, alguns em p, outros deitados, para poupar espao, com as pginas muito mexidas, livros de quem l
mesmo.
        Alm de Rumi e muitos outros poetas (incluindo T.S. Eliot), esto aqui os grandes filsofos sufis e interpretaes do Coro. Est a Biblia, o Mahabarata,
livros sobre o budismo, a Ilada e a Odisseia. E filosofia ocidental, Heidegger, Kierkegaard, Wittgenstein, Nietzsche, Baudrillard, Lyotard, Morinj Jaspers, Foucault.
        - O meu pai gosta muito de Foucault - diz Shaharzad. Mas tambm de fico: Kafkca, Hemingway Faulkner,Gide, Proust, Beauvoir, Sartre, Camus, Kazantzakis.
De regresso  sala, ela ajuda o irmo, e o pai diz:
        - Tentamos experimentar a educao livre nesta famlia.  muito difcil, mas tem resultados maravilhosos.
        Fala a sorrir, devagar para no ficar cansado.
        - Os outros afegos vem a nossa famlia e acham estranho estas raparigas serem assim. H comentrios negativos, mas at das zonas remotas nos tm mandado
as filhas, para elas estudarem em Cabul, e isso  raro no Afeganisto. Quer dizer que confiam em ns. O conhecimento  a coisa mais importante. Muitos dos problemas
da humanidade so por causa da ignorncia.
        E cita um sufi da sua estima.
        - "A quem vier no perguntes a que religio pertence ou se tem f, porque se Deus valoriza uma pessoa dando-lhe alma, eu recebo-a." Cada pessoa tem valor
por estar viva.
        A filha abraa-o, a meio de escovar o cabelo, porque est quase na hora de um concerto a que as irms combinaram ir com uns amigos.
Entretanto a me, zima, chega das aulas, to franzina como as filhas, num fato de calas e casaco, tirando o leno. E Shaharzad senta-se ao lado dela na sala de
estar, a agarrar-lhe a cara e a dar-lhe beijos enquanto a irm mais coquete, Parvin, que tambm acaba de chegar, estrela ovos, de charpe vermelha ao pescoo.
        - A dificuldade de ser professora  que a maioria das crianas vem de famlias pobres que vivem nas colinas, e tem de carregar gua, e trabalha para ajudar
- conta a me. - Quando essas crianas chegam  escola j esto exaustas, no se conseguem concentrar. As famlias so iletradas e no percebem a importncia da
escola.
        zima sempre trabalhou e s usou burqa uma vez durante os taliban, no nico ms em que a famlia coincidiu com eles, antes do exlio.
        Aparecem os amigos, que as raparigas tratam como irmos, dando-lhes sapatadas, e todos comem dos mesmos pratos, no cho.
        O rdio toca uma espcie de pop. Shaharzad faz que dana. E depois todas as raparigas pem os lenos para sair. Msica clssica afeg no Liceu Francs de
Cabul.

        Shaharzad ou a famlia que acredita em aprender - inesquecvel. Ainda vou com elas ao concerto, um semicrculo de msicos em palco, com instrumentos tradicionais.
        E da apanho um txi para o Sufi, onde combinei encontrar-me com um australiano-malts, Brendan Cassar, que est c desde 2003 e trabalha para a UNESCO.
Quero falar com ele sobre o Vale de Bamiyan e o Museu de Cabul.
        O Joaquim Fernandes aparece para jantar. E um anjo da guarda. Um cavalheiro.

Continuo no muito bem da barriga. Sndrome afeg, tinha de me acontecer. Ontem tomei dois Inodines. Hoje s comi arroz e po.

Est decidido. Vou amanh a Mazar-i-Sharif ter com o Yaqub Ibrahimi, irmo do jornalista afego condenado  morte por ter feito download de um site iraniano. Ele
diz que h voos na Kam Air todos os dias.
        E desisti do Badakhshan porque na quinta parto mesmo para Bamiyan. Tinha perguntado a Rameen se ele no conhecia algum com carro que quisesse ganhar algum
dinheiro, e levar-me a mim e mais uma ou duas pessoas. Pois Rameen telefona a dizer que um dos primos dele tem um pequeno jipe, daqueles de quatro lugares, e cobra
200 dlares, ida e volta, mais as despesas da estadia. E um preo formidvel. E Rameen sabe de pelo menos um interessado em ir tambm. Assim dividimos.

                                        23 de Junho


ENTRE AS 3H E AS 3H30, O cu est cheio de sons, vibra com avies e com muezzins, que se vo espalhando. E da rua vm vozes, baques, motores de carros, como se j
fosse de manh.
        Afinal no havia voo para Mazar todos os dias na Kam. O Joaquim diz que me arranja uma boleia com a ISAF amanh.
        Quanto a hoje, plano B - Museu de Cabul. Fica numa zona j fora da cidade, Darulaman, onde o rei Amanullah quis fazer uma nova capital, nos anos 20.

 fcil contar os visitantes do Museu de Cabul esta manh. So trs e meio, contando com o beb daquele casal.
        Entretanto, de Paris a Washington, passando por Turim e Amesterdo, dezenas de milhares de pessoas j admiraram as voluptuosas mulheres em marfim e as pinturas
em vidro de Bagram, as taas de ouro de Tepe Fullol e o capitel corntio de Balkh, o drago num par de brincos de Tillya Tepe e a misteriosa mscara feminina de
Ai Khanum.
        Todos estes lugares so no Afeganisto, e todas estas peas fazem parte da deslumbrante coleco do Museu de Cabul. Estiveram escondidas durante 16 anos,
no subterrneo do Banco Central, na capital afeg, e agora andam lentamente a percorrer o mundo.
        Ainda no podem ser mostradas em Cabul, explica Omara Khan Massoudi, o director do museu, porque no h expositores suficientes, mas sobretudo porque continua
a ser perigoso:
        - A questo da segurana  muito importante.  a razo principal para no termos completado a exibio.
        O museu est demasiado isolado. Vem-se do centro da cidade, passa-se a Cidade Velha e os bazares, as colinas a abarrotar de gente e a avenida do Parlamento,
at que a convulso acaba e se abre uma longa recta, com montanhas ao fundo.
        Durante a guerra civil, quando os mujahedin destruram parte da cidade, matando dezenas de milhares de pessoas em combates intestinos, esta era uma das linhas
da frente. E as marcas ainda c esto, runas de casares, coroadas ao fundo pela assombrosa runa do Palcio Real.
        Porque no tempo da monarquia, que acabou no comeo dos anos 70, estes eram os arredores chiques de Cabul.
        O palcio est deserto. No  boa ideia passear l dentro. Continua minado. O museu fica mesmo em frente, do outro lado da estrada, onde h umas barreiras
de cimento, segurana armada, e vai agora a passar uma mulher de burqa.
        Chama-se oficialmente Museu Nacional do Afeganisto. No pequeno jardim  entrada, uma lpide diz, em ingls: A nation stays alive when its culture stays
alive.
         hora de almoo, a empregada da bilheteira, me de meia-idade muito enrolada no seu leno, h-de vir lavar tomates na torneira do jardim, para depois os
cortar em salada com cebola, na prpria banca onde se paga o bilhete.
        E por todo o museu h esta atmosfera caseira parada no tempo, mulheres na bilheteira a pairarem, gabinetes com cho de cimento, calendrios de flores desbotadas,
velhos termos de ch, velhas secretrias de frmica, velhos funcionrios  secretria sem nada em cima da secretria, homens de pernas esticadas  espera de nada.
        Mas espantoso  todo o museu ainda estar de p e j se terem recuperado 300 dos milhares de peas destrudas pelos taliban com machados e martelos. O que
no sofreu com os taliban tinha sofrido com os mujahedin que se instalaram c dentro e roubaram 40 mil moedas.
        O gabinete do director fica por trs de um biombo.  um belo gabinete, bem ordenado. E o director  um velhinho de cabelos cor-de-neve que fala sem olhar
para mim, timidamente, e depois no fim j sorri.
        - O museu era muito rico e famoso - evoca Massoudi. - Guardvamos mais de cem mil artefactos, da pr-histria ao sculo XX. Dez por cento estava em exibio,
90 por cento em armazm. Quando a guerra civil comeou em Cabul, especialmente nesta rea um pouco longe da cidade, de 1992 ao fim de 1994, o museu foi muito danificado
por rockets. O andar de cima ardeu, e uma parte dos artefactos e tambm todas as vitrinas e tapetes ficaram completamente queimados. Por mais de dois anos, as pessoas
do museu no podiam chegar aqui. Tnhamos um escritrio temporrio no Ministrio da Informao e Cultura e no Arquivo Nacional, no centro da cidade.
        Os mujahedin viveram literalmente aqui.
        - Usavam o museu como base, porque as caves eram um lugar muito seguro. Roubaram muitos artefactos e transferiram-nos para pases vizinhos. Quando fomos
fazer o registo, verificmos que 70 por cento das peas tinham desaparecido na guerra civil. E os restantes 30 por cento tambm no estavam em bom estado, por causa
do fogo, da neve, da chuva.
        A ignorncia, neste caso, foi providencial. Os mujahedin levaram 70 por cento em nmero, mas no em importncia.
        - No sabiam o valor dos artefactos, roubavam quando gostavam.
        O mais importante foi a coleco de moedas [datadas desde o sculo VI a.C.]. E pequenos artefactos do perodo islmico.
        Mas mesmo que os ocupantes percebessem de arte, as peas mais valiosas j no estavam l. Massoudi e uma pequena equipa tinham-nas levado em segredo.
        - Em 1988, antes da guerra civil, ns, as pessoas do museu, e o Ministrio da Informao e Cultura, com a ajuda do presidente Najibullah, transferimos as
peas nicas, o tesouro bctrio, o tesouro de Bagram, artefactos de Tepe Fullol, Ai Khanoun, Bamijan, Hada.
        A situao poltica era tensa, e tudo podia acontecer.
        - Previmos isso. E com a ajuda de um arquelogo mudmos as peas para o centro da cidade.
        Esto salvas at agora. So essas que andam em tour mundial.
        - Em 2004, a pedido de alguns pases, o presidente Hamid Karzai concordou que fossem enviadas para exibio internacional, primeiro para o Museu Guimet,
em Paris, em 2006.
        Fez-se uma seleco de 231 peas.
        - Depois a exposio foi enviada para Turim, Amesterdo e Washington.
        A seguir  National Gallery de Washington, Hidden Treasures of the Kabul Museum seguir para So Francisco, Houston, e conclui o priplo americano no Metropolitan
de Nova Iorque, durante o Vero de 2009.
        Uma das peas favoritas de Massoudi  a enorme bacia em mrmore preto do sculo XV, coberta por inscries islmicas e encontrada em Kandahar. Agora domina
o trio principal do museu.

        De cada lado, vem-se budas e bodhisattvas* do sculo III e IV e uma escultura do rei Kanishka do sculo II, que so algumas das peas reduzidas a pedaos
pelos taliban.
        Aos ps de cada, h uma fotografia a mostrar os bocados, o que permite ao visitante admirar o trabalho de recuperao. Notam-se as linhas onde as partes
foram coladas, mas nada que no acontea com boa parte das esttuas gregas ou egpcias.
        Nos primeiros anos em que estiveram no poder, diz Massoudi, os taliban "protegeram o museu e os stios histricos". Foi s no comeo de 2001 que algo aconteceu.
        - Imagino que tenha havido uma ordem de fora e os taliban radicais tomaram a deciso de destruir os artefactos que eram figuras humanas. Diziam que o simples
facto de conservar esttuas era contra a lei do Islo.
        Isto aconteceu ainda antes da destruio dos budas de Bamiyan, em Janeiro e Fevereiro.
        - Eu no estava c - diz Massoudi. - Tinha deixado o meu cargo,
* Figuras que representam o estdio anterior a buda, a caminho da iluminao.
porque temos a obrigao de proteger o contedo do museu e eu no podia
cumprir isso. Mas os meus colegas disseram-me que eles esquartejaram e esmagaram milhares de peas. Felizmente temos os pedaos e estamos a repar-los.
     Apesar da falta de equipamento, gente e materiais qumicos, Massoudi est satisfeito com o ritmo de trabalho. Uma equipa de seis pessoas, alm de ter reparado
300 peas, "restaurou, limpou e tratou 1500".
        Expostas, no h muitas. A maior parte da coleco continua em armazm. O que significa que, alm dos tesouros em digresso, h milhares de peas que h
muitas dcadas no so vistas.
        J depois do saque dos mujahedin, o fim dos taliban permitiu um tempo de caos em que muitas peas foram tambm roubadas, e acabaram no mercado internacional.
        O museu recuperou entretanto alguns milhares, entre as apreendidas pela polcia e outras reunidas ao longo dos anos por coleccionadores, como Paul Bucherer,
na Sua, que ofereceu o seu esplio a Cabul.
        Massoudi continua a apelar "a toda a gente no mundo que tenha artefactos afegos" que os d ao Afeganisto.
        Gostava de um dia ver este museu cheio, e cheio de gente.
        Nos corredores  direita e  esquerda vem-se ainda adornos, budas, portas, um antigo mihrab, e no patamar de cima fica a arte do Nuristo.

Que diro os pais afegos aos filhos quando visitam a coleco de madeira esculpida? O Nuristo  a provncia que se manteve pag at ao sculo XIX. Homens e mulheres
como totens, de braos, pernas e troncos nus, algures entre o cubismo e a Ilha da Pscoa, com os seus barretes bicudos e os perfis cortados em ngulos rectos. H
um, imponente, de p, e outro, imponente, a cavalo, outros sentados ou de p, entre cadeiras e mesas esculpidas, e jias de prata com pedras. E sobretudo h dezenas
de esculturas longilneas que representam dois seres amorosamente fundidos. Barrigas e caras encostadas, pernas e braos entrelaados. Giacometti ter visto isto?
E Picasso?
        As esculturas maiores tm a expresso de quem viu qualquer coisa espantosa, talvez angustiante.

Volto ao Kabul Lodge Hiromi, a japonesa dona do Silk Route Hotel, em Bamiyan, vem beber ch ao fim da tarde. Quando voltei de Herat, um rapaz ingls disse-me no
aeroporto que nunca tinha comido to bem no

Afeganisto como no hotel de Hiromi. Telefonei-lhe h dias para saber se
ela conhecia algum que estivesse a pensar viajar entre Cabul e Bamiyan e ela prpria estava em Cabul. Agora, enquanto conversamos, o telemvel dela no pra de
tocar e Hiromi vai falando em japons, ingls e dari.  uma mulher robusta, e ri-se de repente, como os japoneses. Traz muitos sacos e duas grandes Nikons. Tem 44
anos.
        - A primeira vez que vim ao Afeganisto foi em 1993, como jornalista, freelance. Queria fotografar os nmadas kuchi. Era a guerra civil. Estava tudo parado,
uma cidade-fantasma, tudo destrudo. Fui voltando sempre. E depois do 11 de Setembro trabalhei baseada em Cabul para a Kyoto News, uma agncia. Gosto do Afeganisto.
Os meus pais tinham morrido, eu tinha passado metade da minha vida no Japo e queria passar a outra metade noutro stio. Em 2003 casei com um afego do Panshir,
um tajique. Ele tem uma empresa de construo. Uma companhia de turismo no Japo props-me investir num hotel e o meu marido estava muito interessado. Comprmos
a terra e h quatro anos comemos a construir em Bamiyan porque era um lugar para turismo. Os japoneses so budistas e depois dos taliban muitos japoneses vieram
c. Mas agora tm medo. Desde que os 21 coreanos foram raptados, no ano passado, o nvel de segurana  o do Iraque. Fechmos no fim de Novembro, e eu voltei a trabalhar
como correspondente. Mas durante o Vero estou em Bamiyan.
        H duas semanas Laura Bush aterrou l e visitou o hotel.
        - Foi uma boa promoo. Fiz comida afeg. Arroz, vegetais, carne. Ela repetiu. Eu gosto de comer. Quando fui a Portugal comi pastis de nata. Quando comecei
a cozinhar estudei cozinha chinesa, coreana, tailandesa, indiana. Ensino aos afegos a cozinha japonesa. Eles gostam de fazer os rolos de sushi s com atum.


                         CABUL - MAZAR-I-SHARIF

                                24 de Junho

DESDE AS 7H30 na parte militar do aeroporto de Cabul. O avio que me vai dar boleia  das tropas alems. Cruzo-me com o coronel Bartolomeu, que no vejo desde o
10 de Junho. Joaquim deixa-me no check in.
         confuso: h soldados cheios de mochilas, bicicletas, caixas e metralhadoras, ouve-se alemo, checo e americano, eu arrasto um colete  prova de balas e
um capacete que supostamente era obrigada a trazer em qualquer voo da ISAF mas afinal no sou, o sol queima e apareceu-me o perodo.
        Depois do check in, esperamos duas horas pelo voo, que s sai s 11h10. Estou com um contractor alemo que constri bases de aeroportos - estruturas, limpezas,
catering. Neste momento, vive no aeroporto de Mazar e conheceu a mulher em Albufeira, razo pela qual me adopta. Tambm v, ao ligar o porttil, que Portugal perdeu
com a Alemanha.
        Leio The Mirage of Peace, o livro de Jolyon Leslie e Chris Johnson, o captulo em que eles descrevem o impacto da globalizao na cultura afeg: TV, pornografia,
msica pop, numa nao que assenta na famlia e assentava na rdio para saber do mundo exterior. E lembro-me de no Kabul Lodge por vezes descer, de manh, e encontrar
Farhad e Hassan a dormitarem frente  TV satlite. E ao anoitecer por vezes a porta estar fechada. Ontem eles estavam todos colados  TV: Soher, Hassan, Rahman,
Farhad, Ismaq, Nahim.
Senhores da droga compram noivas por cem mil dlares. Pagam  mesquita da aldeia. E as pessoas calam-se.
Voo ISAF 65 para Mazar-i-Sharif. Um C160 alemo, dez soldados, um. contractor e eu. Vamos presos  barriga do avio, em assentos de rede, voltados uns para os outros.
Toda a gente menos eu dorme, de tampes nos ouvidos por causa do motor, Leio sobre a importncia da famlia na sociedade afeg, a primeira instituio, diz Nancy
Dupree. E lembro-me do que Rameen contou sobre a famlia. Que uns primos o queriam ver, ele disse-lhes para organizarem uma festa em casa, que ele pagaria tudo,
e depois deu cem dlares a cada ncleo familiar. Gastou 500 dlares nessa noite. Esperam isso dele.
Leio: muitos foram taliban como antes tinham sido mujahedin ou comunistas.  uma adaptao natural ser parte do sistema.
Ir dentro de um avio destes  como ir dentro de um submarino. Vamos a balanar, sem saber onde, e de repente, baque, batemos no cho. No h janelas, h umas escotilhas
junto ao tecto, onde s se v azul de vez em quando.
Algures a meio passmos por cima do Hindu Kush, essas formidveis montanhas que tantos viajantes tentaram atravessar.
E so formidveis mesmo assim vistas do cho, quando aterramos. Uma espcie de grande muralha do Afeganisto, mas natural, ocre contra um cu azul purssimo.
Estamos no extremo norte do pas, muito perto do Uzbequisto.
        Mazar-i-Sharif  a minha quarta terra de fronteira, depois de Herat a leste, Jalalabad a oeste e Kandahar a sul.
        Wolfgang, o contractor alemo, no s me guarda o capacete e o colete como me vai pr  parte civil do aeroporto, que fica a vrios quilmetros.
        - Em Mazar, no Vero, esto 45 graus  sombra - diz Dirk, um colega dele.
        - E ao sol?
         - 60, 65.
        Dirk  casado com uma portuguesa de Faro, nem de propsito. J so dois a adoptar-me.
        Contornamos toda a base militar, at encontrar Yaqub num txi amarelo mal encarado. Fica combinado que voltarei para dormir na base, porque o avio para
Cabul sai cedo e  melhor eu estar perto.
        Tnis, calas de sarja, t-shirt azul-escura. Yaqub podia estar assim em Lisboa ou em Xangai.
        Vamos no txi mal encarado para Mazar. Pinheiros, ruas asfaltadas, burqas brancas, cidade reconstruda. Samos no restaurante Tajiquisto, uma grande sala
abafada, com toalhas de plstico, moscas, televiso e s homens. Descemos para a cave, que  igual, mas sem janelas, mais abafada e com mais moscas. Yaqub sussurra.
Eu como um qabuli. Parecemos dois clandestinos.

A histria alimenta-se de si prpria. Quando Alexandre, o Grande, chegou a esta provncia, todos os mortos eram deixados aos ces. Quando os taliban aqui chegaram,
milhares de mortos foram deixados aos ces. E quando o general Dostum os derrubou, milhares de taliban foram deixados em contentores, e os que no morreram asfixiados
tentaram beber suor e sangue.
        No Afeganisto, uma vida tem valido pouco. Estas terras a norte, na provncia de Balkh, so um exemplo, e o trabalho de Yaqub  contar o que acontece.
         por isso, acha ele, que hoje sabe onde vai dormir mas no daqui a uma semana. No pode ir para casa. Acha que pode ser morto.
        Yaqub Ibrahimi, 27 anos,  o irmo de Sayed Parwez Kambakhsh, 23 anos, afego condenado  morte por ter feito download de um texto sobre direitos das mulheres
considerado ofensivo para o Islo. Tornou-se um caso com campanha de defesa internacional. Aguarda recurso numa priso de Cabul.
        Os dois irmos, ambos jornalistas, escreveram artigos que no tero cado bem entre grupos de poder locais. Yaqub acha que o download foi um pretexto. Cr
que a verdadeira causa  poltica, e que foram sobretudo os seus textos que levaram o irmo a ser preso. J fora ameaado antes.
        E agora est como um clandestino em Mazar-i-Sharif a maior cidade do Norte do Afeganisto, capital da provncia de Balkh.
        - As vezes estou aqui, a cobrir o Norte, e s vezes vou a Cabul. Normalmente, no fico no mesmo stio. De dia, o problema no  grande, mas tenho cuidado
 noite. Tenho amigos que me informam que alguns senhores da guerra me seguem. Por isso tenho que mudar todas as semanas o stio onde durmo.
        Entre esses senhores da guerra, destaca-se Rashid Dostum, o general uzbeque de bigode farfalhudo que mais vezes ter trocado de lado em 30 anos de guerra
no Afeganisto, fora mortos, feridos e pagos para se calarem.
        - Se pudesse, matava-me - diz Yaqub. - E no s Dostum. Todos os fundamentalistas que esto contra a imprensa livre. E matavam outros jornalistas independentes.
J mandaram grupos armados  minha casa.
        A casa de Yaqub fica em Balkh, apenas a 15 minutos daqui mas "h muito tempo" que Yaqub no vai l.
        -  uma estrada perigosa para mim.

Quando Alexandre, o Grande, aqui chegou, no sculo IV a.C., esta regio era a Bactria, provncia do Imprio Persa, e Balkh chamava-se Bactra, cidade to antiga que
se diz ter sido fundada por No, depois do dilvio.
        Por isso lhe chamam "a me das cidades".
        No tempo de Alexandre, era o centro da religio zoroastra. "De acordo com a sua religio, os bctrios atiravam literalmente os mortos aos ces e at apressavam
o processo, deixando os ces executarem os velhos, doentes e invlidos", relata o acadmico Frank Holt*. "Ningum intervinha. Na verdade, os ces eram mantidos para
este propsito." Tamanho era o horror, de acordo com as fontes histricas, que o exrcito grego - grande matador sempre que lhe conveio - ficou chocado. Mas, para
os bctrios, chocante era queimar os mortos, como Alexandre fizera ao pai. "Ningum na Bactria podia conceber tal sacrilgio."
        Que fez Alexandre? Acabou com os ces devoradores, mas tentou uma cultura de fuso nesta ltima provncia persa a cair nas suas mos. E para dar o exemplo
casou com a princesa bctria Roxana.

        Tudo isto aconteceu h 2400 anos na cidade em que Yaqub nasceu. H 700 anos, ainda era "uma esplndida cidade de grande tamanho", anotou Marco Polo.
        Mas o declnio estava em curso.
        Pois um sculo antes, diz a lenda, o im Ali (primo e genro de Maom) anunciara em sonhos que afinal no se encontrava enterrado no Iraque, mas sim num lugar
da provncia de Balkc. Os crentes procuraram, e nesse lugar foi erguido um santurio,  volta do qual cresceram casas.
        Assim nasceu Mazar-i-Sharif
        Pouco depois, veio Gengis Khan e arrasou tudo. Mas no sculo XV a f reergueu o santurio de Hazrat Ali, e  esse que agora domina a cidade de Mazar.
        H edifcios mais magnificentes no pas, como a Mesquita Azul de Herat, e santurios de grande intensidade, como Gazar Gah, tambm em Herat. Mas talvez nenhum
to belo, nas suas propores de harmonia e humanidade.
        E o impacto da luz, do espao, das cpulas azuis envoltas em milhares de pombos brancos,  total quando se vem de um subterrneo, como a cave do restaurante
que Yaqub escolheu para a primeira parte da conversa.
        Um refgio ou uma praa cheia de gente, as opes de Yaqub.
E agora, como  devido, ele tira as sandlias antes de pisar o santurio.

        A pedra escalda. H mendigos de todo o Afeganisto, como um homem que lutou com o smbolo dos mujahedin, Ahmad Shah Massoud, e agora se
apoia em muletas, uma perna reduzida ao osso, a outra arrancada por uma mina. Em todos os lugares santos - e em tantas ruas - h afegos assim.
        Tambm se vem vivas a pedir, algumas com crianas, e muitas crianas em bandos, com termos de ch.
        - Chai? Chai?
         uma forma de vida.

* Into the Land of Bones - Alexander the Great in Afghanistan, Califrnia, University of Califrnia Press, 2005.

        To santo  o lugar que qualquer pombo cinzento fica branco em 40 dias, dizem os crentes. O que um visitante laico pode observar  que todos os pombos so
brancos, e muitos.
        Quando Yaqub se senta debaixo do nico pinheiro, porque o sol  uma lana, logo uma revoada de crianas corre e se senta. Mais o ex-combatente mutilado,
que tambm se senta e pede ch, e  j uma assembleia.
        Desde a guerra com os russos que esta cidade  vista como a cidade de Dostum.
        Este uzbeque comeou por ser anti-mujahedin e pr-russo, at porque a URSS - agora o Uzbequisto - comeava 60 quilmetros a norte daqui. Quando os mujahedin
ganharam terreno, tornou-se pr-mujahedin. Em 1992, aliou-se a Massoud contra Gulbuddin Hekmatyar. Em 1994, aliou-se a Gulbuddin Hekmatyar contra Massoud e juntos
bombardearam Cabul, matando dezenas de milhares de afegos. Quando os taliban capturaram Mazar, em 1998, exilou-se, mas em 2001 aliou-se aos americanos e "libertou"
Mazar.
        Depois, no regime Karzai, os tajiques ficaram com o governo da cidade. Mas Dostum continua a ser "o senhor da guerra mais poderoso no Norte do Afeganisto",
diz Yaqub.
        - Agora governa mais de cinco provncias: Jowzjan, Faryab, Taghar, parte de Sar-i-Pul, parte do Badakhshan...

Desde que foi formado pelo Institut of War and Peace Reporting, Yaqub publicou vrios trabalhos em ingls, tem feito reportagens para jornais nrdicos, e acaba de
voltar da Alemanha, onde falou do caso do irmo.
        Expressa-se com grande autoconfiana. No ser possvel aos jornalistas afegos sobreviverem de outra maneira. Vrios foram ameaados, despedidos e mesmo
mortos.
        E o caso do irmo de Yaqub mostra como as instituies podem favorecer a falta de liberdade de expresso, a comear pelo tribunal de recurso em Cabul, que
recentemente adiou o processo.
        - O sistema judicial  governado por fundamentalistas, mullahs de estilo taliban - acusa Yaqub. - O processo de reformas est a ir muito mal. Nesta ltima
sesso, com todas as provas de que o meu irmo foi torturado, o procurador no fez nada. Esperemos que o presidente e ministros moderados intervenham, e que a prxima
sesso seja o fim do caso.
        No est marcada.
        Entretanto, Yaqub escreve para fora mas vive c dentro, e "estes senhores da guerra no sabem o que  o jornalismo".
        - Antes, s houve regimes ditatoriais aqui, taliban, mujahedin, comunistas. O jornalismo era uma mquina de propaganda, e a velha gerao ainda pensa que
o jornalismo  parte do governo. Os ex-mujahedin perguntam porque  que os jornalistas deixaram de colaborar. No sabem nada sobre a imprensa livre e  muito difcil
explicar-lhes.
        Os tajiques que governam Mazar so "ex-mujahedin de Massoud", no so "pessoas racionais", "s acreditam nas armas", no tm "qualquer tipo de instruo".
        E em Mazar, como "em todas as provncias governadas por senhores da guerra", diz Yaqub, a negociao  clara.
        - Apoiam o governo central, se ele no se meter nos assuntos locais. Deixam-no cobrar os impostos, e o governo no se interessa pelo que eles fazem aqui,
e pelas fronteiras.
        Yaqub entrevistou Dostum mais do que uma vez, foi mesmo ao "seu castelo, na provncia de Jowzjan", mas Dostum no  prdigo em entrevistas, e se agora o
recebesse no seria para responder.
        Karzai tentou integrar Dostum no sistema. Fez dele chefe de gabinete do chefe de Estado-Maior do Exrcito, at que recentemente veio a pblico que Dostum
espancara um antigo colaborador.
        - A relao de Karzai com Dostum tambm  uma negociao. Dostum no age contra Karzai como antes, e Karzai no se preocupa com o que ele faz nas provncias.
Os governadores, chefes de polcia, presidentes de cmara esto todos ligados a Dostum. E, se Karzai fizer alguma coisa contra ele, todas estas provncias se tornam
instveis.
        Yaqub v Dostum como um mercenrio, "um homem que luta por dinheiro". E onde h dinheiro no Afeganisto, produtor de grande parte da herona mundial,  no
trfico de droga, um dos temas que "Yaqub tem investigado.
        - Em todas as provncias de Dostum h cultivo de papoila. Os governos locais dizem que destruram tudo, que h zero por cento de cultivo, mas  mentira.
H grandes campos de papoila, e em algumas provncias h laboratrios de herona, e exportam-na para fora. Negoceiam com mfias de fora.
         assim que os senhores da guerra sobrevivem:
        - Estas provncias, sobretudo as que tm fronteiras com pases vizinhos, so sustentadas pelo cultivo e trfico para fora do Afeganisto.
        E o governo central?
        - Karzai no tem capacidade de os parar,  muito fraco. Mesmo com o apoio da comunidade internacional, que devia olhar melhor para o pas, alerta Yaqub:
        -H uma estratgia errada. S pensam nos taliban, no Sul e na democratizao. Mas se no pararem os senhores da guerra no Norte, eles podem ser mais perigosos
que os taliban dentro de uns anos.
        Nem um turista no grande santurio de Mazar-i-Sharif. O cho escalda nos ps descalos. Yaqub cometeu o erro de tirar as meias e salta de laje em laje. No
ptio passam velhos com os seus turbantes. Famlias com crianas e uma jovem me de burqa branca. As burqas brancas so mais leves. Aqui, mesmo as burqas parecem
flutuar, misturadas com os pombos.
        Os azulejos so deslumbrantes, a escala  perfeita, tudo est como parece ter sido sempre e no pudesse mudar. O pinheiro no ptio ser talvez o centro de
Mazar-i-Sharif, e um dos pontos mais pacficos desta viagem. O aleijado Mirwaiz, que  belo, conta a sua histria de p, e depois senta-se no cho, com a perna inteira
muito magra e o coto amarfanhado. Teve 23 namoradas, conta ele, casou com a vigsima-quarta.
        E as crianas juntam-se, amontoam-se, para ouvir ingls, ver gente de fora, como se fssemos contadores de histrias.
        Em frente ao santurio  o parque. Meninos a equilibrar na mo pombos que comem milho, velhos  sombra a beberem Pepsi, vendedores de gelados, famlias.
        Nas lojas em volta, Yaqub ajuda-me a escolher dois pequenos tapetes e um pano cheio de flores bordadas  mo, que  uma festa, de to colorido. No reparo
agora, mas hei-de reparar, que h buracos e muitas linhas traadas a caneta. Flores eternamente inacabadas.
        Com o copo azul que me deu o vidreiro de Herat, estas so as coisas afegs que levarei para casa.
        Fazemos a estrada de volta  base militar do aeroporto, na direco do Hindu Kush. No Inverno as montanhas esto brancas, diz Yaqub. No Inverno faz menos
25 graus aqui.
Despeo-me de Yaqub, e o alemo Wolfgang volta a apanhar-me de jipe.
        A base tem um quilmetro de largura por dois de comprimento e trs mil pessoas. Tem ginsio, pizaria, bar, discoteca, cantina, cabeleireiro, barbeiro, loja
norueguesa com chocolates belgas e cremes da Lancme.
        Passam soldados de bicicleta e a p com caixas de piza. Passam joggers, cruzam-se, cumprimentam-se. Os trabalhadores de Wolfgang bebem cervejas no patiozinho,
jogam xadrez. Dirk vai mostrar-me o meu quarto-contentor 186-4-29. Est vazio e tem ar condicionado. Um luxo. Dirk d-me um lenol, uma almofada, um edredon. Mostra-me
a casa de banho.  a melhor desde que cheguei ao Afeganisto.
        Ao anoitecer, a base parece um acampamento de frias em que todos estivessem vestidos com roupas camufladas por alguma razo. Vamos jantar  cantina. Carne
assada com legumes, queijo brie, po escuro, ma rija, tudo ptimo. No h luzes no campo. Anda-se com uma lanterna. A lua est minguante. Grande noite estrelada,
com o p de vrias constelaes.
        E l fora h arame farpado e corredores de segurana para os empregados afegos. Nenhum afego  autorizado a dormir aqui.
        Junto aos quartos, os soldados fumam, bebem cerveja e falam para casa no Skype. Do ginsio sai uma msica infernal, entre barras de ferro a cair. Os meus
anfitries esperam-me no ptio para um pedao de sero.
        Comemos melo com uma espcie de presunto, e Jurgen fala do Iraque em 2006 e das estradas do Afeganisto - acha arriscado ir por estrada para Bamiyan. Ex-jornalista
da RTL, passou anos a cobrir o Grande Prmio do Estoril, tambm passava frias no Algarve e tinha uma namorada portuguesa que "sabia mesmo onde comer o bom peixe".
E vo trs fs de Portugal.
        Volto de lanterna para o meu contentor, a tempo de ver soldados sarem do duche em slips ou com toalhas  volta da cintura, outros a limparem a arma, encostados
a posters de mulheres nuas e bandeiras de futebol.  porta de cada quarto, botas, caixote de lixo e garrafas de gua. A gua, em qualquer base da ISAF,  de graa.
Fazem-na aqui.
No meu quarto h um exemplar do Die Welt de 4 de Junho.

                       MAZAR-I-SHARIF - BAGRAM - CABUL

                                 25 de Junho

O VOO EM QUE EU deveria ir partiu s 5h40. Foi antecipado. Tinha check in previsto para as 7h45.
        Desde as seis da manh que os meus anfitries esto a tentar arranjar uma soluo que me tire daqui hoje. Amanh de madrugada arranco para Bamiyan. Est
tudo  minha espera em Cabul, o jipe, o primo de Rameen, e no um mas dois companheiros de viagem. D por onde der tenho de sair de Mazar-i-Sharif hoje.
        Vamos ao aeroporto ver os voos e hoje  o nico dia da semana em que no h mais voos para Cabul. Os noruegueses, que geralmente voam  tarde, hoje no voam.
        Por estrada leva oito horas. Mas onde arranjar um carro? E, sobretudo, como pag-lo?

J est muito calor e so 8h45.

Jurgen descobre que um aviozito ao servio da Blackwater vai fazer uma escala aqui a caminho de Bagram e depois seguir para Cabul.
        A Blackwater  aquela companhia de segurana, leia-se de mercenrios, contratada pela administrao Bush.
        No acredito que isto me est a acontecer.

Dez da manh no check in militar  espera do tal voo da Blackwater. Trs tipos  espera tambm. Dois deles so gordos com bons e culos espelhados amarelos, a testarem
pistolas. O outro  um jovem soldado americano com acne. Nos altifalantes, a rdio passa heavy metal. Este voo afinal s vai at Bagram.

Estamos a bordo. Uma avioneta de 11 lugares, com quatro passageiros. Rasamos os picos do Hindu Kush como um aviozinho de papel. Tenho suores frios. Tento respirar
calmamente. So 45 minutos de voo at Bagram. Depois terei de arranjar outro voo at Cabul.

12h35, Bagram.
        Quando a avioneta da Blackwater aterra, o senhor do terminal, um tal Bruce do Tennessee, pergunta pelas minhas travelling orders e mal eu abro a boca j
est de mo na anca. Bagram so 15 mil pessoas, uma cidade. No  como apanhar boleia com os alemes, o que  que estou aqui a fazer? Boa pergunta, concordo. Explico
que no tenho travelling orders porque deveria ter voado num avio que saiu duas horas mais cedo, e alis no quero estar aqui.
        E aqui continuo, sentada frente a um cartaz que diz This is a tribute to all that have fallen during operation Enduring Freedom, Bagram, Afghanistan.
        Estou  espera de uma media person. Foi o que Bruce do Tennessee disse. Mandam-me esperar quieta. No me posso mexer sem escolta. Nem pensar em tirar fotografias.
Presa em Bagram.


14h Bagram. Media Center

Vo libertar-me aps averiguaes.
        - No pode ir em nenhum avio, mas pode apanhar um txi para Cabul.
Setenta dlares.
        E enquanto o txi no chega ouo a rdio do exrcito num gabinete com dois afegos a escreverem em dari, dois afegos dos quais pelo menos um vai e vem todos
os dias de Cabul .
        Os americanos no gabinete em Bagram: bolas de pastilha elstica, ecr gigante, uma bota a balanar para trs e para a frente.
        Vou esperar l para fora.

O txi vem. E um dos meus conhecidos.
        Paramos no porto para sair de Bagram. Afegos de leno a conversarem com os soldados.

Regresso sem incidentes ao quarto 24. Volto a arrumar a minha bagagem toda.

                                     CABUL-BAMIYAN

                                        26 de Junho

QUATRO DA MANH. O muezzim canta. Um jipe japons chega ao Kabul Lodge.  quase um jipe de bolso, conduzido por Akil o primo de Rameen, elegante como um asceta.
Tem uma shalwar Kamis branca uma barba de trs dias e sorri com os olhos. Gosto logo dele.
        A lua est como um gomo de ma no cu. Galos rebanhos no escuro, ces magros. Algumas luzes nas colinas de Cabul. Policias na sombra das rotundas. A velha
torre octogonal  esquerda. Metemo-nos por ruas esburacadas a caminho da Turquoise Mountain Foundation para ir buscar o jovem americano.
        Rameen tinha-me dito que os meus dois parceiros de viagem seriam Frederick, um jovem americano voluntrio na Turquoise Mountam, e Erika, mulher de um diplomata
da embaixada alem. Ser a primeira vez em Bamiyan para todos ns.  fcil reconhecer a Turquoise Mountain. Muros de terra batida, grande porto de madeira e uma
bela galeria em madeira esculpida por cima, com pequenas viseiras. Assim, neste luar antes da aurora,  como se estivssemos a chegar a caravanarai. L dentro h
um ptio fresco com rvores e flores Frederick vem, de shalwar kamiz azul-celeste e colete por cima, como um afego. A primeira surpresa  que este americano tem
uma cara de chins gorducho com sotaque de Oxbridge. A segunda surpresa  que parece acabado de sair do liceu com a desenvoltura de um homem do mundo.
        Conheam Frederick Edward Mocatta, um verdadeiro viajante ingls como eu julgava que s existiam nos livros de viagens at ao sculo XX. Senta-se ao lado
de Akil e seguimos para ir buscar Erika, no muito longe.  uma alem franzina, plida, loira, de culos, com umas calas ocidentais e uma camisa por dentro das
calas. Empresto-lhe uma tnica afeg para ela ficar coberta at aos joelhos. E arrancamos. Homens  frente, mulheres atrs, como dois modernos casais afegos.
        Atento e risonho, Akil  o mais agradvel dos condutores. Cu j azul, montanhas douradas, campos verdejantes. Depois um solavanco to familiar, e a partir
de agora so oito horas fora do asfalto, terra, pedras e p, com ocasionais charcos pelo meio.
        Seguimos sempre o vale do rio, com a gua  nossa esquerda e as montanhas em frente. Passa um rapaz num burrico e uma carrinha em sentido contrrio, atulhada
de gente e de bagagens. Os campos de batata esto em flor. No meio h uma mancha vermelho-papoila. E o manto de uma menina que guarda, uma vaca.
        O mundo das cidades desapareceu. Tudo o que vemos podia ter existido h 500 anos. O rio rpido, campos alinhados em vrios tons de verde, pinceladas de prpura,
escarlate, laranja, esmeralda, azul-elctrico que so raparigas nos campos, todas com a cara descoberta. As mais velhas usam lenos escuros, mas por baixo fulguram
calas coloridas. Como na ndia, so as mulheres que do cor  paisagem. A paisagem est quieta e elas esto em movimento. E uma cena viva.
        Passam camponeses de chinelas com ps ao ombro. Passam camponesas de burro com fardos de erva. Bancas de fruta anunciam uma aldeia. Meninas de leno branco,
mochila e livros, vm da escola e fogem do jipe a correr.
        A estrada estreita, h uma curva, e  nossa frente est um burro. A estrada alarga e aparece outra aldeia com casas de terra que se fundem com a montanha.
        Nada fere a vista. Tudo  um todo.
        Mas Akil conduz sem abrandar, porque h assaltantes de estrada. Tambm h uma aldeia reputada como taliban.  fcil dar por ela. No se vem mulheres, todos
os homens olham para ns e Akil acelera, de testa franzida.
        A estrada sobe a montanha, passa entre duas gargantas, e aparecem pequenos desertos inspitos como se toda gente tivesse desaparecido, avisada de alguma
coisa. Depois a estrada volta a descer e reaparece o vale frtil.
        Atravessamos a vau um riacho. Uma vaca bebe gua transparente. Um cavalo pasta numa estepe. Um menino espreita por baixo de uma rvore, com uma ovelha por
trs. Akil quase canta, e ns tambm. O mundo  grande, estamos vivos, que privilgio.
        Ento, no meio do verde, vemos uma fortaleza de terra, com os torrees intactos e uma parede em runas. Teremos passado para o sculo XVI? Babur vai passar
a caminho de Cabul?
        E at Bamiyan aparecem outras fortalezas assim, fabulosas, abandonadas, do tempo em que as caravanas percorriam o centro do Afeganisto.
        E isto agora o que ? Uma tenda, duas tendas, entre as montanhas. Crianas sentadas l dentro.
        - Uma escola!
        Temos mesmo de parar. Akil faz marcha atrs. Cumprimenta os mestres-escolas, um de barba branca, outro de barba preta. Eles parecem um pouco atordoados,
mas convidam-nos a entrar. Rapazinhos em velhas cadeiras, daquelas que tm um brao para escrever, com cadernos e livros e ps empoeirados. Uma tenda para os mais
velhos, outra para os mais novos. O professor pede a um deles que leia junto ao quadro de ardsia. Ele l, e no fim os professores fazem vnias de mo no peito,
e ns tambm.
         uma manh de aulas no centro da terra. Nem casas h,  vista. O mar  to longe que no se pensa nele.
        Retomamos a nossa estrada. Comeam a aparecer as feies orientais dos hazaras, maioritrios em Bamiyan. Rapazes deslizam de bicicleta com sorrisos oblquos.
Uma famlia atravessa a estrada: o homem de turbante e barbas, uma mulher de burro com um beb, outra de burro sem beb, e outra a p.
        Mais adiante surgem umas estranhas montanhas com dezenas de grutas e um enorme tanque sovitico a enferrujar na berma.  o triunfo de Frederick, que logo
trepa por ele acima.
        E de certa forma  um abano. O que este caminho j viu.
Arvores, um movimento de bazar, uma espcie de rua principal, e de repente abre-se  nossa frente o mais prodigioso vale, verdssimo, aos ps de um grande macio
de pedra ocre. Era a que estavam os budas e agora esto os nichos em forma de buda. O lugar  de uma harmonia perfeita. A escala  monumental.
        Akil comea a atravessar os campos, como quem recua para ver melhor. Mas quando chegamos ao outro lado do vale e olhamos para trs, os nichos dos budas continuam
a ser monumentais. Foram feitos para dominarem qualquer ponto.
        Em torno dos nichos h muitos buracos, que so as grutas onde viviam os monges. Aos ps da montanha vem-se as runas de uma fortaleza e depois os campos
de batata em flor, atravessados por homens de turbante branco.
        Pela primeira vez no tenho calor. Ar leve, rumor de rvores, o cu como seria o cu antes dos homens. Bamiyan  um interminvel fim para uma viagem ao Afeganisto.
        J o Silk Route Hotel, que fica mesmo em frente aos budas, do outro lado do vale,  horrendo, de um verde gasto, com uma espcie de ameias redondas e rolos
de arame farpado por cima. Depois, por dentro,  amplo, limpo e muito confortvel. H frasquinhos com pistachos e passas pelos corredores. Todos os quartos tm vista
para os budas, pelo menos os nossos - mas tambm podemos ter ficado com os melhores, o hotel est quase vazio.
        Eu e Erika samos e as camponesas convidam-nos a entrar para o meio dos campos de batata e trigo. Ficamos l sentadas no cho, a olhar. Vem-se cabeas entre
os campos e os budas. O vento sopra nas flores amarelas. Dois homens passam com uma pilha de pes, um saco de tomates e cumprimentam-nos com a mo livre. Depois
vm mulheres de burqa levantada e crianas, e sentam-se atrs de ns, a sorrir, com colares ao peito e gengivas muito grandes.

Almoamos os trs no hotel, no terrao, evidentemente em frente aos budas, o que parece o resto de um frango no forno. No  muito bom. Mas  prodigioso estar aqui.
        O stio dos budas est classificado pela UNESCO. Brendan, o australiano com quem falei em Cabul, acaba de sair daqui hoje. Quando lhe perguntei com quem
devia falar em Bamiyan sobre os budas, recomendou um nome, Amir Foladi.
 com ele que vamos ter agora.

        Nunca mais subiremos  cabea do Buda, em Bamiyan, todo direito no seu nicho como uma baleia em doca seca.
                                                                        Bruce Chatwin

        Em Bamiyan, os budas que os taliban fizeram explodir eram uma espcie de Romeu e Julieta com 1500 anos.
        O maior era o homem, o mais pequeno a mulher.
        - As pessoas chamam a este Salsal e quele Shamaman - conta Amir, aos ps do buda maior. - Aqui h a lenda de que Salsal e Shamaman eram primos, amavam-se
e os pais no os deixavam casar. Ento rezaram a Deus e tornaram-se esttuas.
        Resistiram a Gengis Khan, mas no ao Mullah Omar.
        No  comum os afegos falarem assim, mas Amir Foladi, 38 anos, conselheiro da governadora de Bamiyan, diz:
        - Quando voltei aqui depois da exploso, e vi o lugar vazio, na verdade chorei.
        E olha l muito para cima, para onde estava a cabea do buda neste cenrio monumental.
        As duas esttuas eram "dos mais notveis feitos do homem" e "as mais espectaculares imagens de budas alguma vez concebidas", escreveu nos anos 60 Nancy Hatch
Dupree, que no seu guia de Bamiyan descreve a colmeia de grutas, galerias, nichos, escadas ngremes, pinturas a leo e pequenas esculturas que os monges budistas
construram em volta de cada esttua, dos ps  cabea.
        Agora, dos budas colossais restam os nichos escavados na montanha, a 800 metros um do outro. Ao longo de sculos, foram sendo conhecidos como Grande Buda
(55 metros), a ocidente, e Pequeno Buda (35 metros), a oriente.
        So to altos que mesmo no cimo do mais pequeno se avista o imenso Vale de Bamiyan, com castelos feitos de terra batida, antigas cidadelas reais, a cidade
nova e a cidade velha, bosques e campos geometricamente cultivados, at aos picos nevados do Hindu Kush, l ao fundo.
        Cabul  muito longe. Para o bem e para o mal, tudo est muito longe, porque aqui no h estradas.
        Bamiyan parece de um tempo que no vivemos mas nos contaram, quando Roma, Prsia, ndia e China brilhavam em conjunto, e caravanas carregadas de ouro, seda
e jias atravessavam este vale, hoje no centro do Afeganisto.
        E os caminhos de pedras e terra continuam a ser bons para camelos e cavalos.
        No meio dos dois nichos colossais h um pequeno nicho, como se Salsal e Shamaman tivessem tido um filho. Pelo que Amir conhece das lendas locais, "representa
Salsal em pequeno", ou seja, o Grande Buda em criana ou em bodhisattva.
        - Quando aqui estive a primeira vez ainda tinha uma parte do corpo, que a seguir desapareceu.
        Os budas colossais perderam cara e mos logo nos sculos iniciais da presena islmica.
        Depois, desde os primeiros muulmanos (sculo VII-VIII), passando pelo mongol Gengis Khan (sculo XIII), at aos mujahedin, todo este conjunto esculpido
com grutas e pinturas sofreu roubos ou destruio.
        Amir  um hazara mas nasceu em Ghazni, provncia prxima, e estudou Direito no Iro. Veio a Bamiyan s em 1996. Foi a nica vez que viu as esttuas e pensou
que "ainda estarem em p ao fim de 1500 anos" era o mais extraordinrio.
        Depois viu a exploso dos budas pela televiso em 2001, como boa parte do mundo, e veio c ainda nesse ano.
        - As pessoas em Bamiyan estavam muito zangadas. No por ser uma coisa budista, mas por ser parte da histria. Sentiam uma grande perda, sentiam que se perdessem
a casa ela poderia ser reconstruda mas as esttuas no.
        Bamiyan  Patrimnio da UNESCO e est na lista dos lugares em risco. Desde o derrube dos taliban, a UNESCO tem trabalhado com especialistas internacionais
na recuperao dos fragmentos dos budas e na consolidao da estrutura.
        Aqui, aos ps do Grande Buda, h pavilhes de madeira e tendas cheias de pedras da exploso, algumas com dezenas de toneladas.
        Mas desde a ressurreio dos taliban, os trabalhos pararam, e neste momento no h um nico perito internacional na zona.
        Dois carros da UNESCO acabam de voltar a Cabul, depois da visita de 24 horas conduzida por Brendan Cassar, que ressalvou:
        - Aqui, muitas vezes limpa-se o passado e abraa-se o novo ou ento agarra-se o passado de uma forma muito conservadora. Mas a UNESCO no est a reconstruir
os budas. A UNESCO no reconstri.
        Nem vai reunir mais fragmentos, para j. O lugar est deserto, no contando com os midos que trepam s grutas e com os promotores de uma corrida que colam
cartazes nos pavilhes que guardam o resto dos budas.
        Em Bamiyan no h guerra, mas est tudo parado por causa da guerra.

A governadora Habiba Sarabi disse que ia ter ao Silk Route Hotel antes de jantar, e c est. Uma hazara de casaco de fazenda s riscas, culos e leno na cabea.
        Quando for seguro, Habiba Sarabi quer reconstruir pelo menos um buda, de preferncia o grande.
        Sarabi, 50 anos,  a nica mulher governadora em todo o pas. Tem uma cara redonda de olhos em bico, visivelmente hazara. Calcula que a populao da provncia
ronde o meio milho de pessoas, 90 por cento hazara e dez por cento tajique.
        Mais de 80 por cento vive do gado e da agricultura, principalmente trigo e batata, tambm mas e damascos.
        H um hospital de provncia e dois distritais, mas "a falta de mdicos  um problema". Outro problema  a falta de professores:
        - A maioria das mulheres professoras vem do Iro e do Paquisto. No porque aqui haja perseguio a professoras, mas porque no h muitas mulheres formadas.
        De resto, desde que se tornou governadora, h trs anos, o aumento de escolas (de 180 para 300, metade financiadas pela comunidade internacional)  o seu
grande orgulho.
        - Temos 110 mil estudantes, 40 por cento mulheres. E 52 liceus.
        Quem viaje por estrada entre Cabul e Bamiyan, e depois dentro da provncia, v isto. No meio de estepes e pastagens onde no parecem sequer existir casas
aparecem crianas com mochilas e livros. E vem-se escolas novinhas em folha, mas tambm casebres e at aquela tenda com estudantes.
        O que Sarabi no conseguiu so outras prioridades bsicas:
        - Primeira prioridade estradas, segunda prioridade estradas, terceira prioridade energia elctrica.
        Porque  que no as conseguiu?
        - H um processo de reconstruo nas outras provncias mas aqui em Bamiyan no havia nada, comemos do zero. Nunca houve estrada por uma discriminao do
governo central contra o povo hazara.
        Que j no existe, assegura.
        Depois, "a ajuda da comunidade internacional vai paralela s suas polticas". Se "tem que ter acesso a determinada rea, pe mais dinheiro a", e Bamiyan
fica para trs porque no est nas zonas de combate.
        - A segurana noutras zonas  a prioridade. H ainda a natureza.
        - Temos um Inverno muito duro. S se pode trabalhar durante seis meses na construo, nos outros fica tudo parado por causa das neves. E  uma provncia
montanhosa, rodeada de outras, sem laos com pases vizinhos.
        O que Sarabi tem  o compromisso para duas estradas. Uma para ocidente, passando pelos lagos turquesa de Band-e-Amir, a outra grande atraco da provncia.
        - Ser construda dentro de trs anos, pelo sia Development Bank, com uma parte de fundos japoneses e uma firma coreana.
        E outra para oriente, at Cabul:
        - Ser construda pelo governo italiano, mas h trs anos que est para comear, o processo  muito lento devido a problemas de segurana.
        Entre Cabul e Bamiyan h zonas de banditagem e de taliban.
        - O grupo de peritos que tem trabalhado nos budas no veio este ano por causa da insegurana. Mas temos que promover o turismo,  uma das reas em que Bamiyan
se pode desenvolver, e claro que os budas deviam ser reconstrudos, pelo menos um.  o desejo do povo.
        Avaliado como?
        -Fizemos um debate, e foi enviada uma petio assinada pela shura [assembleia local dos notveis]. Mas infelizmente o ministrio da Informao e Cultura
no deu nenhum passo. Ontem tive uma entrevista com a UNESCO, e disseram-me que essa  uma deciso que deve ser tomada pelo governo afego. O meu desejo  ter o
Grande Buda outra vez.
        Calcula-se que isso custe 50 milhes de dlares.

Jantamos no hotel, outra vez no muito bem. Arroz com umas almndegas, po seco, melo, melancia, uma sopa a abrir, 12 dlares cada.
Frederick conta as suas histrias de Eton* e antes.

        Descendente de judeus de Crdova e outros lugares da Pennsula depois idos para Amesterdo e da para Inglaterra. Filho de banqueiros. Me americana. Tias
em Hong Kong.
        Aos quatro anos e meio, uma escola primria onde o ensinaram a comer e a andar de gravata. Aprendeu a fazer o n da gravata antes de aprender a atar os sapatos.
        Dos oito aos 12, uma boarding school, ou seja, um internato, de onde no podia telefonar aos pais. Ia a casa uma vez por ms, s cartas e
telexes, e tudo lido antes. s vezes eram 20 rapazes num quarto. Rituais de passagem como no primeiro dia ter a cabea mergulhada na sanita e despejarem o autoclismo.
Odiou.
        Dos 13 aos 18, Eton Se queria estudar didjeridoo, o colgio arranjava um professor. Professores pagos a 60 mil libras por ano, os melhores do pas. Propinas
a 24 mil libras por ano. Cada aluno tinha um quarto, grandes bibliotecas e grande arquitectura, debates com o primeiro
* Colgio ingls pr-universitrio de elite
ministro do Ruanda e o governador da Monglia. Frederick ia a casa uma vez por semana. Adorou.
        Depois, Universidade de Yale para conhecer a Amrica. Estudos Orientais.
        Fala fluentemente mandarim. Viaja sozinho desde os 15 anos: China, Monglia, Iro, Turquia, Afeganisto, a dormir em dormitrios e a comer em chaikhanas,
para conhecer o mundo.
        Aos 18 no sabia o que era a menstruao.
        Mas aos 21 j sabe que quer ser ministro dos Negcios Estrangeiros - tory, claro.
        Esteve um ms como voluntrio na Turquoise Mountain, sem receber, como experincia de frias.
        J conhece os pobres, mas ainda no conhece os pobres do seu pas. Por isso, quer fazer negcios dez anos para conhecer o Reino Unido e ganhar dinheiro,
antes de se dedicar  poltica. Porque um poltico a srio no pode depender da poltica.

O gerador do hotel funciona das 7 s 12h e das 18h s 23h.
        De noite,  a escurido de h sculos.


                BAMIYAN - BAND-E-AMIR - BAMIYAN

                                27 de Junho

ACORDO COM O NICHO do grande buda em frente. Ainda  demasiado cedo para o gerador. Mas a cama  estupenda, branca e macia, e depois h gua quente, uma banheira,
chuveiro.
        Tomo o pequeno-almoo com Erika e Frederick sempre diante do grande buda.
        O ch  amargo, preto ou verde. O po est seco e frio. Os mesmos tringulos de queijo do Kabul Lodge. Ontem  noite tnhamos um bom iogurte ao jantar, mas
o iogurte aqui  refeio. O empregado vem perguntar o que queremos comer, ou seja, como queremos os ovos, ou seja, se queremos ovos fritos ou omelete, porque quando
lhe pergunto se posso ter ovos cozidos ele responde que no sabe se  possvel, e portanto peo uma omelete para no complicar.  difcil comer comida saudvel aqui.
H mangas, melo e melancia, mas  inseguro comer as saladas. At o arroz  quase sempre feito com leo. O kebab no po acaba por ser o melhor.
        Akil j est  nossa espera. A estrada para Band-e-Amir  a continuao da que vem de Cabul. Passamos rente aos budas. H um amontoado de homens com bons
de uma das companhias afegs de telemvel, a AWCC. J ontem isto estava cheio de cartazes brilhantes colados aos ps do grande buda.
        E seguimos o caminho de pedras, com grutas escavadas na rocha do lado direito e o vale verde do lado esquerdo, cada vez mais para o interior do Afeganisto.
        Crianas tocam rebanhos de ovelhas com traseiros gordos, como grandes ndegas separadas do corpo. Algumas mulheres tapam a cara com o leno ou fogem a rir
quando nos vem.  medida que os afastamos de Bamiyan desaparece a rede de telemvel. No h postes de electricidade. Todas as casas so de terra batida. Grandes
planaltos com pontinhos escuros que so os rebanhos e um recorte dramtico de montanhas em fundo. O carro salta, os olhos de Akil sorriem sempre  um prncipe. 
um homem bonito. Pai de trs filhos, com uma shalwar kam bordada  frente. Deve saber ao todo dez palavras de ingls.
        De vez em quando aparece o edifcio novo, em pedra de uma escola doada por algum governo, placas do People of Japan e placas da Fundao Aga Khan. A Fundao
Aga Khan est por toda a parte, neste corao remoto do Afeganisto terra de xiitas*. Passamos mais fortalezas abandonadas e antigos fornos de terra batida. Mas
Akil comea a ficar preocupado e entre duas montanhas pra o carro e abre o cap. H algo de errado com o motor. E enquanto ele est ali debruado passa um casal
de velhotes, cada um em seu burro. O que  invulgar  que o velho est sentado como se sentavam as mulheres antigamente, com as duas pernas para o mesmo lado, e
a velha est sentada  homem, com uma perna de cada lado. Tm a pele tostada do sol e sorriem-nos muito.

        Depois passam dois jovens hazaras encavalitados numa motoreta. Caras completamente mongis, com lenos palestinianos enrolados em turbante, e tambm se riem
da cena. E finalmente passa um rebanho de cabras, perfeitamente impvidas.
        Akil l consegue pr o barco a trabalhar, mas d a entender que vamos precisar de ajuda.

        Na aldeia seguinte h um bando de homens acocorados debaixo de uma rvore com um bando de meninos por trs.
        Akil pergunta-lhes qualquer e prossegue.
        Do lado direito aparece uma fantstica torre tinurida como as que vi em Herat, em terra batida gravada com desenhos. J ter tido uma cobertura em azulejos.
Agora est ali no meio de nada, como se o resto se tivesse fundido na montanha. E o que seria o resto?

        E a seguir mais uma carcaa de tanque.
        Depois os campos cultivados do lugar a longas pastagens onduladas com grandes rebanhos e homens de olhos em bico. No  o mundo da Prsia nem o mundo da
ndia. Podia ser a Monglia.

        Mais uma fortaleza arruinada e aqui temos a aldeia onde supostamente Akil vai ter ajuda. H um pequeno obstculo -  sexta-feira. Todas as portas de zinco
que sero garagens esto fechadas. Mas h uma venda aberta, que vende bolachas cadernos escolares e alhos em grandes bacias de alumnio.  possvel falar com o velhinho
c fora, sentado num banco, e daqui a pouco, j esto vrios homens de p, em volta do acontecimento. Alguns olham para mim e a Ericka com o sobrolho franzido, enquanto
desfiam as contas do rosrio entre os dedos. H um rapaz especialmente desaprovador, que em todas as fotografias que Frederick est a tirar aparece a olhar para
mim indignado. Somos um acontecimento, mas um pouco escandaloso.
        Um homem de shalwar kamiz, barrete, chinelos de plstico e anoraque vem oferecer ajuda a Akil. Na esquina h uma placa com um e-mail do yahoo, dois nmeros
de telefone e isto em ingls insondvel: Afghanistan self sacrifice women guardian less Professional foundation. O melhor ambiente para mim e para Ericka.
        Entretanto os homens tero vencido o motor, porque a cara de Akil
est radiante, enquanto lava as mos na gua que o afego de anoraque lhe deita de uma bilha. E ala, que nunca mais chegamos.
        Bem pomos os olhos no horizonte em busca da prometida lmina azul-turquesa que h-de ser o primeiro lago, mas nada. Agora nem h campos.  deserto de areia,
deserto com cabras, deserto a perder de vista.
        A certa altura Erika grita que viu uma placa a dizer Band-e-Amir para a direita, mas Akil continua em frente confiante, e ns confiamos, a

* Aga Khan  ismailita, um ramo do xiismo, e os hazaras tambm so xiitas

pensar que ser um atalho e ele l saber.
Mais desertos, mais estepes, mais gargantas. Serpenteamos absolutamente ss. No topo de uma colina perguntamos a um menino pastor se Band-e-Amir  para a direco
oposta.
        Mas em vez de voltarmos para trs o pastor sugere darmos a volta a uma das montanhas. Entraremos pelas costas de Band-i-Amir, ao contrrio de toda a gente.
Assim fazemos, ate aparecer a sombra azulada de uma grande superfcie na montanha.  o minrio nas guas de Band-e-Amir que causa este efeito.
        Ento, como vindos do deserto, celebramos a primeira vista de gua, um pequeno charco, uma anunciao.
        E quando subimos a encosta vemos trs lagos mais belos que os lagos mais belos, entre montanhas dramticas, de um turquesa impossvel.

So trs da tarde, a luz est oblqua, leve e transparente. S apetece descer por ali abaixo e mergulhar.

O Afeganisto no tem mar, tem Band-e-Amir.
        Areia branca-branca, gua lpis-lazuli. A gente chega cheia de p seja de onde for, porque todos os caminhos so p e pedras seja para onde for, e parece
uma miragem. Primeiro um vale gnero Monument Valley, depois a Polinsia. E aquilo l em baixo so troncos nus. Nus no Afeganisto?
        H que dar a volta s montanhas para ir dar ao ponto por onde se desce. Mas antes h tudo isto c em cima, um lago atrs, um lago em frente, um lago  direita
de que no se avista o fim, como um mar no corao rido do Afeganisto, a 2 916 metros de altitude.
        Muitos hippies acamparam em Band-e-Amir nos anos 60. Foi h sculos. Agora quem acampa so peregrinos, devotos de Ali.
        A caminho de Katmandu, os hippies podiam achar que Band-e-Amir era j o nirvana, mas os muulmanos esto certos de que  obra de Ali, primo e genro de Maom.
        E isto  to certo para Obaida, uma me com varizes que daqui a pouco vai aparecer num manto preto, como para Mohammed, um rapaz de jeans que j est em
cima deste penhasco, pela primeira vez e finalmente deslumbrado com Band-e-Amir.
        - Isto  uma coisa que o im Ali criou pela sua mo, no sei como - diz ele,  beira do precipcio.
        At hoje, Mohammed, 20 anos, s tinha imaginado os seis lagos de Band-e-Amir. Cresceu refugiado em Quetta, poeirenta cidade paquistanesa junto  fronteira,
no Sul.
      - Voltei h trs meses, mas ainda tenho casa l.
        Trabalha para uma associao relacionada com educao, e deixou a famlia em Quetta Se hoje est aqui  porque  sexta-feira, dia santo no Islo.
        Agora aponta o lago que daqui parece o maior,
        - As pessoas ainda no encontraram o fundo disto. Dizem que foi o im Ali que o escavou com a sua prpria mo.
E por trs daquela montanha  a mesquita de Ali
        Os afegos gostam de lendas como gostam de jardins. So um espao para a beleza extra-humana.
        Num pas cor de terra, opaco e montanhoso, como explica estas superfcies de gua, a cor, a transparncia? Com um milagre, alis trs, e todos pela mo de
Ali.
        Era no tempo de um rei mau, Barbar, que tiranizava as terras do Hindu Kush, enquanto Ali fazia o bem. Barbar queria conter o rio numa barragem e mandou mil
escravos faz-la, mas eles no conseguiram e o rei vingou-se no povo com impostos. Uma das vtimas era um rapaz que no conseguia pagar a soma exigida pelo rei.
Foi ter com Ali e juntos conceberam um plano. Ali disfarava-se de escravo e o rapaz tentaria vend-lo a Babar. O rei aceitou compr-lo pelo seu peso em ouro, mas
com trs condies. O escravo tinha de construir a barragem. O escravo tinha de matar um drago que havia em Bamiyam. E o escravo tinha de capturar Ali e traz-lo
ao rei. A corte riu-se do impossvel, mas Ali moldou com as suas prprias mos a montanha e fez o lago de Band-e-Haibat, depois sacou da espada e com um golpe formou
o maior de todos os lagos, band-e-Zulfiqar. E por a fora, at os seis lagos estarem feitos. Quando os aldees se queixaram de que havia gua a menos no rio, Ali
simplesmente passou os dedos por Band-e-Haimat e cinco canais comearam a correr. Por fim matou o drago de Bamiyan e foi apresentar-se ao rei. E ento, esmagado
pelos feitos de Ali, o rei mau converteu-se ao Islo*.
        Mohammed tem na mo o folheto colorido sobre Band-e-Amir, com os logotipos da ONU, da UE, da USAID e de todos os dadores que o pagaram, e
vm l explicados os fenmenos geolgicos e minerais que resultaram nestas formas e nesta cor. Mas tambm l vem que o povo acredita em Ali, e que por isso os peregrinos
se banham nestas guas, apesar de elas serem geladas. Acredita-se que Band-e-Amir cura doenas e d filhos s mulheres. H quem leve Band-e-Amir em garrafas. E no
Inverno, quando os lagos ficam duros como gelo, patina-se.
        No  uma imagem que se tenha do Afeganisto, patinadores, e agora  Vero.
        Mohammed vai descer ao vale, onde esto as chaikhanas e os albergues rudimentares.  da que se vai para Band-e-Haibat, o lago que Ali moldou com as prprias
mos.
A governadora de Bamiyan quer fazer destes lagos o primeiro parque natural afego. Alm dos lagos, Band-e-Amir tem lobos, raposas, marmotas e pssaros raros.
        Em 2001, foi uma das frentes de batalha entre os taliban e os mujahedin. A regio ficou muito minada e ainda hoje os visitantes so aconselhados a no sarem
dos trilhos mais frequentados.
        Quem vem de Bamiyan v vrios pontos marcados a branco, onde estiveram minas. So trs horas para 75 quilmetros, e algumas partes parecem to remotas que
no se avista um ser humano, uma rvore, um animal.
        Quando aparece um lance de azul,  o comeo da gua dos milagres. Um lago, outro e outro, at ao vale onde tudo estaciona, tendas, alpendres e meia dzia
de casas de terra batida, alm dos carros. Como no h electricidade em toda esta provncia, as bebidas mantm-se frescas dentro de poas de gua.
        Foi aqui que Obaida e Samir passaram a noite, vindos de Cabul. So me e filho, e agora Samir est a fotografar Obaida junto s quedas de gua que parece
sulfrica, de to amarela est a rocha.
        Samir, 20 anos, veste shalwar kamiz e um bon de uma companhia afeg de telemvel. Obaida, 60 anos, enrola-se no seu manto preto. Tem os outros filhos na
Amrica. Veio por causa dos joelhos.
        -  a primeira vez. Porque temos um im. Ali, e ele fez o caminho para Band-e-Amir.
        Obaida no  hazara, como a maior parte da populao nesta provncia,  uma tajique, mas tambm  xiita como os hazaras. Os xiitas veneram Ali.
        - Os doentes vm, nadam aqui e ficam bons - explica ela, com grande gestos, e batendo no peito.
        * Lendas de Ali em Band-e-Amir e Bamiyan desenvolvidas em Afghanistan, Nancy Hatch Dupree.
        O filho, que fala ingls, vai traduzindo.
        - Agora vou para a gua - anuncia ela.
        E comea a subir lentamente at  mesquita de Ali, que fica  beira da gua onde a maior parte dos crentes se banha.
         uma mistura de lago de diverses com peregrinao. H um barco azul-beb chamado Donald Duck e gaivotas daquelas de pedalar na gua, em amarelo, azul e
verde-beb, que na verdade so cisnes. Neste momento baloiam todos na gua, mas presos. Ningum os contrata.
        Tambm ningum se despe. Esta  a parte convencionada para os homens. As mulheres ficam ao canto da mesquita, junto a um declive com rvores.  para a que
Obaida se encaminha, no momento em que um pequeno drama se desenrola.
        Uma menina grita  beira da gua, cercada de mulheres hazaras. V-se que so hazaras pelas feies mongis e as roupas coloridas, no h burqas. Duas mulheres
puxam a menina, mas ela estica-se, desesperada. No quer ir para a gua. At que uma das mulheres chama um homem. Ele vem, agarra na menina, enfia-a dentro do lago,
ela grita como se a gua queimasse, ele tira-a para fora e entrega-a s mulheres. Depois sobe de volta para o lado dos homens, com a tnica cheia de gua.
        - No sou da famlia - explica. - Pediram-me s ajuda.
        Ao canto, as mulheres abraam a menina e secam-na. Ela tem uma tnica lils e um leno cor de laranja, e est encolhida como se ainda tiritasse. Tem 10 anos,
dizem as mulheres da famlia. Tem problemas na cabea. E apontam para a testa.
        Mas agora mergulhou em Band-e-Amir.

Do lado de l, entre os crentes, Obaida desistiu de tomar banho.  o que vai contar mais logo, reencontrada a apanhar ervas no vale. Mal experimentou a gua. Mesmo
com f, estava fria.

Para chegar ao outro lago que parecia conter troncos nus  preciso subir de carro, contornando o grande lago dos crentes.
        A, sobe-se a p at um pico de onde se volta a descer em declive acentuado para um cenrio que de novo faz lembrar algo entre um western e uma praia de
corais. Aqui, um lago transparente e pouco fundo escoa para dentro do grande lago.
Esta parece ser a parte mais laica de Band-e-Amir. Do Afeganisto, em geral.

        Famlias sorridentes, com homens sem turbante nem tnicas e mulheres de lenos leves, at uma adolescente de mangas pelo cotovelo, cabelo ao vento e vestido
cor-de-laranja justo, esguia como uma bailarina.
        Vm, alegres como crianas, pela passagem por onde a gua corre, que no mximo d pelo tornozelo. Por vezes so famlias inteiras, com bebs ao colo. Por
vezes homens ss, de sapatos na mo.
        E do outro lado da passagem, onde h uma espcie de prainha dourada, um, dois, trs, quatro, cinco troncos nus, a chapinhar na gua, alguns a boiarem com
as calas enfunadas como bales, outros com o que parecem uns cales. A tanto chega o nu masculino afego.

As famlias so lindas, sorriem, riem, querem ser fotografadas. Homens de barbas rijas e turbante ficam parados na alturinha de gua para a foto. Aqui, tudo parece
possvel, at a paz.
        Mas no uma mulher tirar a roupa.
        Por isso, Erika e eu s arregaamos as calas, tiramos as botas e patinhamos na areia que escorrega como a pele de um animal. Mas Frederick Edward Mocatta
atira-se  gua com a sua shalwar kamiz feita por medida, incluindo as iniciais EEM, e fica como um balo azul a boiar.
        Continua a passar gente, rindo. Estar na gua muda as caras. No  possvel andar como se fssemos sacar de uma pistola. De resto,  excepo do guarda-costas
da governadora, desde que samos de Cabul no vimos uma arma.
        Frederick sai da gua com a roupa colada ao corpo, a pingar, radiante. E depois Akil tira a sua tnica, ficando s com as calas de balo e, revelando um
tronco muito plido, mergulha sempre a rir.
        Mas a tarde desce e ainda temos trs horas de caminho para Bamiyan. Trepamos a encosta a correr, aos tropees, a olhar uma ltima vez para trs, como se
o Vero tivesse acabado e fosse o ltimo dia de praia.
        O que  primeira pareceu inspito,  segunda  um fechar de olhos. Fazemos a estrada para Bamiyan em metade do tempo, sem nos perdermos. At paramos no sinal
em que devamos ter virado.  um marco de pedra. Uma face diz: "Yakaowlang, 40." A outra diz: "Band-e-Amir, 15." amos pois a caminho de Yakaowlang quando nos apareceu
aquele pequeno pastor, mas na verdade no perdemos nada.
        Junto ao marco, um homem de turbante, sorridente, est sentado no cho. Em cima de um pano tem dois sacos com qualquer coisa do tamanho de nozes. Mantm-se
completamente sozinho num raio de quilmetros e quilmetros, mas apesar disso, ou por isso, parece ter atingido o nirvana. No tenta vender-nos nada. Pe a mo no
peito e sorri.
        Quando chegamos a Bamiyan, vamos com Amir Foladi ver o poente ao Roof of Bamiyan.  o hotel onde ficavam os hippies. Decadente, cheio de atmosfera, vista
imbatvel sobre o vale. Tem uns quartos que so uma espcie de ninhos redondos.
        A dita cidade velha fica por trs.  uma aldeia de terra batida, a recolher alfaias ao fim do dia. O muezzin chama. Chegam homens dos campos a empurrar carrinhos
de mo. As mulheres, as raparigas e as meninas atravessam a pracinha com as suas roupas de todas as cores. Depois as meninas juntam-se aos meninos e correm todos
em volta de ns, e em volta do velho tractor cheio de ferrugem onde Frederick insiste em ser fotografado.

Frederick e Erika vo jantar com Amir. Eu volto com Akil para o hotel, aproveitar a electricidade para escrever. Akil pergunta-me:
        - Bamiyan? Mazar? Herat?
        Comunicamos por nomes de lugares. Com as dez palavras de ingls dele e as minhas dez palavras de dari.
        - Ne. Bamiyan-Dubai-Portukaliye.
        E ele faz uma cara desolada, e inclina a cabea para a esquerda, que  a forma de ele dizer sim.
        Duzentos dlares para c e para l, mais 50 por dia no  nada para uma viagem destas, em que um carro europeu se desfazia em trs tempos e nenhum europeu
o saberia guiar.
Qual Paris-Dakar.
Akil forever.

                                BAMIYAN - CABUL

                          28 de Junho

O MESMO PEQUENO-ALMOO, mas sem ovos.
Hoje vamos subir aos budas com Amir Foladi.

H 1500 anos, o Pequeno Buda tinha um manto azul e o Grande Buda um manto carmim.
        De acordo com o monge chins Hsuan-tsang, que visitou Bamiyan no sculo VII, ambos estavam cobertos de ouro e ornamentos, e brilhavam em todas as direces.
        Foram esculpidos na rocha, cobertos por lama com palha e depois por um reboco, a seguir pintado. Esse reboco  de meados do sculo VI, no Grande Buda, e
comeos do sculo VI, no Pequeno Buda.
        Em volta, formigavam monges e peregrinos de todas as partes.
        O relato do monge chins menciona dez mosteiros e mil monges nas grutas em volta, algumas usadas como celas, outras como santurios, com pinturas de budas,
mulheres, pssaros, sereias, flores. As figuras humanas que ainda hoje se vem no tm cara. Os primeiros muulmanos arrancaram a tinta nessa zona, achando que assim
"destruam a fora anmica do smbolo", escreve Nancy Dupree.
        Em muitas grutas os nmadas fizeram fogo ao longo de sculos e os caadores desenharam crculos brancos para treinar a pontaria.
        - Foram descobertas 750 grutas aqui, mas em Bamiyan h 12 mil - diz Amir Foladi, entrando por uma gruta aos ps do Pequeno Buda, e comeando a trepar as
escadas a pique, escavadas na rocha h 1500 anos. Muitas destas escadas e grutas ainda tm buracos, partes que escorregam e passagens difceis sem apoio para as
mos. Esto longe de poderem ser visitadas sem um guia experiente.
        Quando Amir c veio a primeira vez, em 1996, "estavam cheias de armas e de mujahedim, que as usavam desde a guerra com os russos. Nota-se. H pinturas cheias
de rabiscos e assinaturas.
        -Isto  para lembrar o meu nome, Ahmad Khan, de Loghar - traduz Amir.
        A cada patamar, as grutas centrais tm pinturas e nichos de cores e formas diferentes,
        - Uma das equipas que tem trabalhado aqui anunciou recentemente que a primeira pintura a leo do mundo foi feita em Bamiyan - lembra Amir.
        Em Janeiro, Yoko Taniguchi, do Instituto Japons dos Bens Culturais, declarou  Agence France Press: "Os meus colegas europeus ficaram chocados porque sempre
acreditaram que as pinturas a leo foram inventadas na Europa. No podiam crer que tais tcnicas pudessem existir em alguma gruta budista, num meio rural remoto."
Desde o ano 650, segundo esta equipa.
        Em Bamiyan, entre japoneses, alemes, italianos e UNESCO, uns trabalharam nas pinturas, outros nos fragmentos ou na desminagem, que junto aos budas j est
completa.
        Agora, Amir acha que "ser capaz de reconstruir o Grande Buda ser um grande desafio" no sculo XXI, desde que se distinga bem o antigo do novo.
        - Claro que a ideia no  copiar, s juntar as peas originais com materiais modernos, para as pessoas terem a sensao de como foi um dia.
        E visto que o monge chins falou de um buda adormecido perto destes budas, dois arquelogos andam em busca dele, o afego Zemaryalai Tarzi e o japons Kazuya
Yamauchi.
        - O monge disse que o buda adormecido era em frente ao Pequeno Buda, mas ningum sabe exactamente onde, e deve estar deitado a dormir - diz Amir. - Se foi
feito de lama, talvez j esteja destrudo. Mas, quando os muulmanos vieram, os budistas podem-no ter coberto.
        A existir, ter 350 metros, mais de seis vezes maior que o Grande Buda.
        - Seria o maior do mundo, pelo menos esqueceramos a perda das esttuas - sorri Amir, como se soubesse algo. -Mas penso que  muito cedo para explorar esse
buda. Devamos encontr-lo quando a segurana j no fosse uma ameaa. De outra forma, podemos perder esse tambm.
Os taliban no esto c, mas est o medo.

Quando Bamiyan perdeu os budas, Aziza perdeu o marido.
        - Foi morto pelos taliban. Eles vieram e fugimos para as montanhas, mas o meu marido foi abatido. Os budas ainda estavam l, mas quando voltmos, ao fim
de um ms os taliban comearam a destru-los.
        Aziza no chegou a ver nada, s ouviu:
        -Havia grandes exploses, mas tnhamos tanto medo que no samos.
        E como a casa dela era perto do Pequeno Buda, acabou por fugir outra vez. O filho fugira para o Iro com a mulher, e ela ficou viva com quatro filhas. Uma
delas tinha acabado de nascer.
        - Eu estava a amamentar quando o meu marido morreu. Agora as filhas de Aziza tm entre sete e 14 anos, e a mais velha  a que anda aqui com ela, neste campo,
a apanhar ervas.
        -  para vender a quem tem animais. Ganhamos dinheiro assim e a fazer tapetes.
        Sem nenhum homem em casa.
        Felizmente isto  Bamiyan, onde as mulheres esto por toda a parte nos campos, a tratar do trigo e das batatas, a tocar burros cheios de fardos e ovelhas.
        Mas, se a vida correr bem aos budas, Aziza vai ter de ir colher ervas para outro campo, porque este, aos ps do Pequeno Buda, far parte da zona de preservao
contemplada no plano da UNESCO. S quando esse plano for aplicado  que os budas sero retirados da lista de stios em perigo.
        - Estas terras so do governo, as pessoas usam-nas - explica Amir, junto ao Pequeno Buda. - Mais tarde, o governo vai us-las para escavaes arqueolgicas
e tero que ser pagas indemnizaes s pessoas que a usem h mais de 30 anos.
        Calcula-se que sejam entre 200 e 300 famlias.
        At l, os campos continuam cheios de mulheres como Aziza, que l de cima, junto ao que era a cabea do buda, parecem pontinhos coloridos.

Quando subimos  cabea do buda feminino, a viso  soberba, com a cidade velha l ao fundo, as runas da cidadela grida  esquerda e o vale verde em baixo.
        E voltamos  estrada. So 10h3O quando arrancamos para Cabul.
        Muitas partes do caminho no parecem as mesmas, talvez por causa da luz, talvez porque Akil tenha feito atalhos. Passamos camies carregados talvez de batatas.
As batatas ho-de sair de Bamiyan por algum lado e no  pelo ar.
        Passamos por uma terra com cara de poucos amigos, nenhuma mulher, e Akil diz:
        - Gulbuddin.
        Hekmatyar, senhor da guerra. So dele estes domnios. Passamos aquela terra pashtun com reputao taliban e Akil diz:
        - Bandidos.
        E diz que no podemos parar.
        De repente s se vem mulheres de burqa, e raras. Depois voltam a aparecer roupas coloridas. E, chegando ao rio, rapazes a mergulharem numa luz de ouro que
 o sol na gua.
        A tenso passa.
        s cinco e meia avistamos o asfalto. Akil pra, eufrico. Quer lavar o carro j, e no deve ser o nico, porque h uma banca improvisada para isso, aqui
mesmo. Est um vento ciclnico e tentamos no voar, enquanto um homem e um mido passam e voltam a passar uma mangueira potente por todo o jipe, e depois o esfregam
por fora, por baixo e por dentro.
        Estamos exaustos, no comemos desde o pequeno-almoo, e ainda faltam duas horas para Cabul, mas o carro brilha. E Akil rola encantado no asfalto.
        Cinco minutos depois d por um restaurante na estrada, e como Frederick quer um kebab paramos. Levam-nos a uma espcie de beira-rio, com panos contra o vento.
Sentamo-nos no cho, o rio corre rpido sobre pedras. Vm peixes fritos, os primeiros que vejo, e so bons. Pequenos, do tamanho da mo, com uma carne branca. E
vem kebab, ainda nas espetadas, e po e ch.
         um grande piquenique.
        Depois disto, entramos no trnsito de Cabul como quem vem de outro sculo. Carros a passarem pela esquerda e pela direita, e no sabemos de que ter mais
medo, se da estrada, se disto.
        Frederick  o primeiro a ser levado a casa e convida-nos a ir ver a Turquoise Mountain. Atelis de esculpir madeira de acordo com os desenhos e mtodos tradicionais
- fachadas, galerias, janelas, portas. E a parte residencial dos estrangeiros que aqui esto, com relva, rosas, romzeiras, os quartos  volta. Junto ao galinheiro
uma escada de mo leva a uma chamin de onde outra escada leva ao tecto. Vista soberba de Cabul, a poluda, com a colina cheia de patishiris, os poppy palaces e
as runas da antiga embaixada britnica.

No Kabul Lodge, encontro o meu quarto na mesma e por arejar.
        O holands Peter est de volta e cumprimentamo-nos como velhos camaradas.

Despeo-me de Joaquim Fernandes, entregando-lhe o que no cabe na minha bagagem: o saco do saco-cama cheio de livros e o capacete que nunca usei cheio de meias.
Por uma srie de aventurosas peripcias, chegar meses depois.

                                         CABUL

                                        29 de Junho

ACORDO S 5H45. Deso para buscar pequeno-almoo e Peter fala de uma holandesa muito alta que estava a escrever um livro sobre como Karzai chegou ao poder.
        Vou a correr  galeria Ganjina comprar patous e almofadas para oferecer. Est aberta e vazia. Depois vou a correr  Turquoise Mountain onde Frederick est
com o computador, para trocarmos fotos. Deixo-lhe todos os meus postais sem envelopes nem selos, porque ele diz que tem de ir ao correio de qualquer maneira e 
um cavalheiro.
        No aeroporto, o avio que veio do Dubai, e que  o mesmo que vai voltar connosco, chega  hora do nosso check in. Esperamos quase uma hora  torreira, incluindo
crianas e uma velhinha. A ningum ocorre que esta fila pudesse estar  sombra.
        Entre os passageiros h soldados americanos, homens de braos musculados com um tapete barato enrolado na mochila e guias afegos que tentam abrir caminho
 custa de um baqshish, uma pequena gorjeta. Uma afeg-americana que vive em Atlanta veio mostrar o Afeganisto aos filhos, ao fim de 30 anos. Uma velha americana
do Ohio diz-lhe que est a chorar porque os afegos tm tanto amor para dar.
        Avanamos para o check in. Uma loja de vidro diz Duty Free, mas est vazia. Vendem-se frutos secos e refrescos. Embarcamos.
        Uma professora de ingls canadiana no pra de falar com um engenheiro suo, ao meu lado. Volto-me para a janela, a ouvir a playlist que ouvi ao partir
de Lisboa.
        Levantamos com Caetano a cantar. Vejo as casas como tatuagens ou gravuras nas montanhas. Depois a grande Cabul espalhada pela terra, cada vez mais longe.
E o Gil canta: A raa humana  / uma semana / do trabalho de deus.


As fotografias desta viagem esto em
www.cadernoafegao.tintadachina.pt.


Os textos que se encontram entre os smbolos
Foram originalmente publicados em reportagens no jornal Pblico.
Agradecimentos
Fiz esta viagem como reprter enviada do Pblico e da RDP-Antena 1, que dividiram os custos. Agradeo, pois,  direco do jornal, que me permitiu estar fora da
redaco um ms e depois incluir boa parte das reportagens neste livro. E estou reconhecida a Joo Barreiros e Ricardo Alexandre, da direco da rdio, por um apoio
fundamental.
        Na preparao da viagem foram decisivos os contactos e conselhos de Joo Carvalho Pina, que estivera no Afeganisto a fotografar em 2007, e de Nick Danzinger,
que viaja no Afeganisto desde o fim dos anos 80.
        As fotografias de Wolf Bwig, e as conversas que tivemos, fazem parte da gnese desta viagem {and I still want to do the DurandLine).
        Em Cabul, Joaquim Fernandes foi de grande companheirismo. A ajuda de Rameen David revelou-se providencial em diversas ocasies.
        Finalmente, a viagem deveu tudo  generosidade, hospitalidade e assistncia de muitas dezenas de pessoas em Cabul, Herat, Jalalabad, Mazar-i-Sharif, Kandahar
e Bamiyan, grande parte das quais so nomeadas ao longo do livro.
Tive muita sorte. Foi um privilgio. Obrigada.

NOTA BIOGRFICA
Alexandra Lucas Coelho nasceu em Dezembro de 1967, em Lisboa. Estudou teatro no IEICT e licenciou-se em Cincias da Comunicao na Universidade Nova de Lisboa. Comeou
na rdio nos anos 80. Foi jornalista da RDP de 1991 a 1998, e desde ento est no Pblico, onde editou os suplementos "Leituras" e "Mil Folhas", co-editou a Cultura
e actualmente integra a equipa Grandes Reprteres. Em 2001 comeou a viajar regularmente pelo Mdio Oriente e pela sia Central. Em 2005-2006 esteve seis meses baseada
em Jerusalm como correspondente. Foram-lhe atribudos prmios de reportagem do Clube Portugus de Imprensa, Casa da Imprensa e o Grande Prmio Gazeta 2005. Em 2007
publicou Oriente Prximo (Relgio D'Agua), narrativas jornalsticas entre israelitas e palestinianos. Caderno Afego  o seu segundo livro.

TTULOS ANTERIORES DA COLECO
Morte na Prsia
Annemarie Schwarzenbach
(trad. Isabel Castro Silva)
Uma Ideia da ndia
Alberto Moravia
(trad. Margarida Periquito)
Paris
Julien Green (trad. Carlos Vaz Marques)
O Japo  Um Lugar Estranho Peter Carey
(trad. Carlos Vaz Marques)
Veneza
Jan Morris
(trad. Raquel Mouta)

